Voltando no tempo com os 30 anos de Esqueceram de mim

Era pra ter escrito um pouquinho sobre Um duende em Nova York (Elf/2003) ***, um filme que ganhou a simpatia de muitas pessoas e não foi senão até esse último dia de Natal quando consegui conferir, e até que é divertido de assistir, né, rende algumas risadas – apesar de eu não gostar tanto do Will Ferrell, muito menos desses filmes que ficam querendo vender a ideia de que Papai Noel existe. Eu nunca acreditei, em nenhum momento da minha infância, e honestamente acredito que foi melhor assim. Mas é bem divertido sim imaginar esse cara que nem tinha noção de que não era um duende ter que enfrentar com toda a inocência a cidade de Nova York na época de Natal. Fiquei feliz de finalmente ter visto, ainda mais depois que soube ser dirigido pelo Jon Favreau, cara que tem se tornado um dos meus parsas nos últimos anos; anda me surpreendendo e este ano pelo jeito vou passar muito tempo com ele, a primeira resolução do novo ano é repor O Mandaloriano.

Nesse final de ano também acabei revendo O Grinch (How the Grinch stole Christmas/2000) *, pra tentar dar uma segunda chance, mas ainda acho muito bizarro e um tanto obscuro para crianças, sendo que, pra mim, a única coisa realmente boa é a questão materialista de como todos só pensam nos presentes, comidas e decoração, mas o espírito natalino de amizade e empatia pode ser maior que tudo isso. (Não, não acho que Jim Carrey esteja bem, é apenas um exagerado e teve outros papeis que lhe caíram muito melhor)

Se é pra pensar em filmes com o tema natalino, o primeiro que me vem à mente, por ser tão presente durante minha infância, ano após ano, é Esqueceram de mim (Home Alone/1990)***, que em 2020 completou 30 anos. E não importa quantas vezes eu revesse, eu sempre ria muito, adorava o fato de Kevin gostar é de pizza de queijo e nada mais, e nos meus anos mais solitários sempre pensava em comer só macarrão com queijo de ceia. Eis que decidi então ver um dos episódios daquela minissérie no Netflix sobre Filmes que marcam época. E foi ótimo saber algumas das curiosidades da produção, percebi como gosto de John Hughes – claro, cresci como jovem nos anos 80! E, pôxa, ele escreveu o roteiro de Curtindo a vida adoidado (1986)*** em 7 dias?!

Sim, eu voltei no tempo, quando fiz 10 anos (em 1990), ganhei o primeiro diário e em vez de escrever brincadeiras de menina, paixonites juvenis, eu usei foi para escrever um esboço de roteiro (que eu nem sabia à época que se chamava roteiro). Meu primeiro filme seria uma produção de Steven Spielberg, e o Macaulay Culkin teria o papel do mocinho, mas a heroína seria mesmo é uma detetive de 13 anos que gostava de ler Agatha Christie, desvendando o mistério de sumiço de grandes monumentos pelo mundo: a torre Eiffel, o Monte Fuji, pirâmides no Egito, o Cristo Redentor… com direito a primeiro beijo em tela (meu e do Mac), efeitos especiais, mistura de desenho animado e live action. Quando a gente é criança, ou simplesmente jovem, a gente acha que pode tudo, não é?

Voltei no tempo em que eu pensava que eu poderia ser uma grande escritora, que poderia escrever roteiros à mão como Tarantino, ou uma roteirista hábil e ávida, como John Hughes. Um desses que nasceu para o ofício.

Daí, meu último filme visto em 2020 me deixa resignada a esta realidade inimaginada, porém impossível de negar, já que é a real. Estou pensando em acabar com tudo (I’m thinking of ending things/2020)*** é uma bela brincadeira com o tempo, com a memória incluindo a sensação – talvez a percepção? Talvez vislumbre ou imaginação futura? – do momento, das possibilidades, do que queríamos que fosse e perdemos. Com personagens que transmutam, de feição, de idade, de disposição, e uma bela dança figurada no final.

É, podem perceber que tive alguns dias mais amenos no final do ano passado, até vi filmes! Eu já tinha ficado um ano inteiro sem ir ao cinema, assim que me mudei para o Japão aos 14 anos, pois vivíamos no interior e era longe uma cidade com sala de cinema. Este ano de pandemia trouxe salas fechadas, mas com nossa atual tecnologia, a disponibilidade de aproveitarmos streamings, até festivais de cinema por esse meio, ressurgiram os drive-ins! Mas eu, com uma baby pra cuidar, acabei ficando mais um ano sem ir ver uma tela grande. Não que o cinema não se fizesse presente, o cinema, as artes, estão sempre vivos ao nosso alcance, nem que seja em pensamento, em sentimentos, em memórias, em sonhos, em esperanças…

Outros animais vivem no presente. Humanos não conseguem, por isso inventaram a esperança. ( a jovem mulher, no filme mais recente do Kaufman).

Ah, tá. Só pra vocês não reclamarem que estou terminando este primeiro post do ano de forma melancólica demais, eu já consegui repor nestes primeiros dias algo que todo mundo viu no ano passado e eu não: O gambito da rainha (que talvez vá ganhar um post só dela, porque é uma série bem boa mesmo).

Tá vendo só? Não apenas começo o ano com muita incerteza – o que vou fazer da minha vida? O que vai ser do meu futuro, do futuro a minha filha do futuro, enfim? Não só de confianças infundadas em vacinas começamos. Começamos com uma garota forte, determinada, diligente e dedicada em sua grande paixão (no caso, o xadrez), que ganha o mundo, apesar de ter que lutar com seus próprios vícios, fraquezas. 2021 está apenas começando, e ainda há muito o que viver, minha gente.

Missão Presente de Natal

(Operation Christmas Drop / 2020) **

Foi só eu que pensei que este casal, pelo menos na aparência, lembra o príncipe Harry e a Megan Markle? Claro que a narrativa em si de como se conheceram não tem nada a ver, acho que estou viajando mesmo, mas juro que quis ver o filme pra ver se tinha alguma referência!

Fora isso, todos os anos eu penso em ver alguns filmes com o tema natalino e chega próximo dos dias de festa acabo não vendo nada, então já decidi ir vendo alguns, só pra distrair mesmo, porque tem épocas na vida que a gente também precisa só disso mesmo.

Sou uma quase especialista em comédias românticas, de tantas que já vi, e ando gostando de ver algumas que mostram realidades diferentes, personagens mais fortes e independentes, sinais dos tempos. Neste daqui, eu acho bem bonita a Kat Graham, atriz que faz a Erica,e até achei carismático o rapazinho Alexander Ludwing, mas a parte do romance soa meio forçada; nem precisava ter romance, mas acho que tinham vendido a ideia de um “romance de Natal” e aí tiveram que fazer isso.

O que eu realmente gostei foi de conhecer essa iniciativa das doações que existe no mundo real, que eu não conhecia e ver o povo local, a festinha, imaginar os voluntários, isso valeu a pena. Acho que é um filme gostoso de ver assim, ainda mais neste ano que precisamos tanto contar com a união de todos…

E o que isso tem a ver com o budismo?

Talvez algo que seja comum a tantas outras religiões: a filantropia, o pensar no próximo. O ato de doar sem esperar nada em troca é o altruísmo do qual sempre falamos, que faz até mais bem para a própria pessoa engajada numa causa do que para quem recebe. Pelo menos pela escola budista que sigo, é por atos altruístas que podemos mudar a nós mesmos e o nosso redor, para melhor.

A cena em que a senadora (congressista? Não lembro ao certo mais) agradece porque foi lembrada sobre a razão de ter se envolvido em política em primeiro lugar é também forçada, eu acho, mas eu gosto. Como se fosse uma esperança natalina, sabe? Eu mesma nunca acreditei em Papai Noel, mas deve ser algo assim, não? Ah, se na vida real essas coisas realmente acontecessem na política… seria um ótimo presente de Natal.

Mesmo na Mostra do #ficaemcasa eu não consigo

Hoje de manhã o tempo em São Paulo era friozinho, nublado e chuvoso, tipicamente me fazendo sentir saudades dos dias em que eu enfrentava esse tempinho na correria entre salas de cinema para alguma sessão da Mostra Internacional de Cinema. Mesmo no Dia de Finados, como não tenho entes queridos próximos em algum cemitério da cidade, só no interior do estado, pra mim era dia de Mostra. Quer dizer, mais talvez a uns 10 anos atrás, porque nos últimos anos, nesta época, geralmente eu tinha que trabalhar mesmo e não dava pra ficar “internada” um dia inteiro no cinema.

Neste ano inédito a Mostra está praticamente toda online, e eu fico me perguntando se eu não estivesse com uma bebê em casa eu realmente conseguiria acompanhar mais de perto e ficar o dia todo vendo filmes? Deve estar sendo uma ótima, principalmente para quem mora longe, não ter que se deslocar até São Paulo, e os preços dos “ingressos” também estão muito mais acessíveis.

Deixem-me contar que na verdade, eu, sendo esta virginiana tão caseira, penso que me daria muito bem na pandemia. Eu realmente não ligo de ficar em casa, e se pudesse, provavelmente teria aproveitado para ler (que saudades de ler um livro! Ah, os tempos de Letras…), ver filmes, ter feito Master Classes online…

Na época do ensino médio, eu morava no Japão, num lugar isolado do mundo, eu estudava em casa e fiquei também um ano sem ir ao cinema. Porque para ir ao cinema eu tinha que me deslocar até uma cidade maior, fora que era algo caro, muitos dos cinemas eram de rua, embora eu já soubesse inglês e não teria problemas em ver um filme só com legendas em japonês. Sim, eu senti falta de ir a um cinema, da experiência coletiva, com aquela tela grandona e todo o nosso foco naquela história contada em imagens em movimento…

E os Drive-ins? Poxa, eu sempre me perguntei por que não existia mais disso no Brasil, daí agora eu nem consigo – temos que respeitar uma rotina com a bebê, banho e dormir cedo, fora que eu achei bem caro os ingressos. Tudo bem que eu gosto de 2001 – uma odisseia no espaço, entre outros clássicos que disponibilizaram nesse formato, mas se for uma pessoa sozinha, ou duas até, 65 reais é meio salgado pra quem andou perdendo emprego… sei lá.

Enfim, apesar das facilidades da internet, acho que ainda sinto falta da telona – e sempre será assim? Outra coisa que eu gostava era de que algumas sessões contavam com alguns convidados ao vivo, pra gente conhecer alguém da produção ou do elenco de determinado filme. Claro que é louvável o esforço de todos para continuar fazendo a Mostra acontecer, ontem mesmo eu vi a entrevista com a Naomi Kawase e com o Aaron Sorkin, talvez seriam nomes difíceis de estar presentes numa Mostra, exceto se fossem os homenageados do ano, e é uma ótima oportunidade para explorar o que dá “à distância”. Mas eu sinto saudades da Mostra “física” também.

Só queria compartilhar esse sentimento… porque apesar de gostar tanto, há momentos na vida que a gente tem outras coisas mesmo pra pensar e fazer. Não vão aparecer posts com comentários de filmes da Mostra deste ano de novo, mas o cinema continua sendo esse amor eterno, quem sabe daqui duas décadas a gente volte? Boa Mostra a todos e vou acompanhando um comentário ou outro por aí.

Quase uma rockstar – e o que isso tem a ver com budismo?

(All together now / 2020) *

Eu acho engraçado quando às vezes me deparo com algo que me lembra os Beatles e daí não tem nada a ver… tipo aquele filme com o Eddie Murphy – Imagine só (Imagine that / 2009)**, o pessoal responsável realmente gosta da banda, tinha várias referências e eu nunca teria imaginado que essa comédia que entra na brincadeira da filha pra faturar com seu trabalho teria isso… Aqui neste filme eu só vi que o título original era o título de uma canção dos Beatles no final, me interessei porque sabia que Auli’i Cravalho tinha feito a voz da Moana e acabei me decepcionando um pouco, porque confesso que não gostei muito da atuação “live action” dela. Sei lá, sabe quando parece que a pessoa tá sempre com o mesmo rosto?

A narrativa é de uma menina que acaba perdendo a mãe por um acidente causado pelo vício. A menina mora em um ônibus e tem que se virar com empregos aqui e ali, precisando ainda desistir do seu sonho de estudar música devido a uma cirurgia da única família que lhe sobrou: um cãozinho que ela sempre carrega consigo na mochila. Prato cheio para lágrimas? Bem, acho que depende da condução do projeto?

Sim, eu acabei soltando algumas lágrimas, mas não sei se foi pelas razões certas. Os amigos da menina acabam planejando um show de talentos em prol da cirurgia do cachorrinho, reunindo-se por alguém que sempre foi boa com eles. Apesar de ela sempre procurar fazer o bem para outros – animando senhorinhas de um coral, distribuindo donuts numa casa de repouso, incentivando os jovens talentos da escola – ela mesma é orgulhosa e em determinado momento o crush dela pede para deixar os outros a ajudarem.

E o que isso tem a ver com o budismo?

Sabe, uma vez eu fiquei meio encucada com uma espécie de crítica sobre o conceito de méritos. Costumamos dizer que devemos acumular méritos com boas ações para poder transferi-los – para espíritos, por exemplo, que já não estão neste mundo e não conseguem gerar méritos por si próprios. A crítica era sobre essa ideia de como se fosse um banco, como uma conta de poupança em que vamos acumulando méritos. Mas essa ideia é apenas uma ilustração, um jeito mais fácil de visualizar o conceito.

Acho que o mais importante não é focar em quanto mérito você está acumulando, mas nessa ideia de que nós estamos vivos aqui nesta existência terrena e podemos fazer algo bom em nossas vidas. Todas as ações boas vão gerar mais coisas boas, e isso pode acabar ajudando outros e retornando para você de diversas formas também. No caso do filme, a menina foi realizando essas boas ações, que retornaram para ela desse modo mais explícito, com as pessoas querendo ajudá-la inclusive financeiramente.

E outra questão é a da humildade. Às vezes precisamos admitir que precisamos de ajuda. Que não dá pra fazermos tudo sozinhos, e não tem problema nenhum nisso. Temos que nos permitir sermos ajudados também, até porque isso também faz bem à outra pessoa, e faz essa corrente de bem continuar fluindo.

As lágrimas vieram porque eu sou uma pessoa que sempre teve o pensamento de ser autossuficiente, independente, sempre meio que acreditei que precisava me virar sozinha e pronto. Talvez com a maternidade (a idade?) eu tenha amolecido um pouco, e nos últimos tempos eu tenho me aberto muito mais para aceitar a ajuda de outras pessoas também. Faz parte da nossa condição humana, nós estamos todos interligados, e não há nada de errado nisso.

Daí vieram as Wachowski e estragaram tudo

Muito calor já antes da primavera e ninguém mais liga pra pandemia, que nada, vamu pra praia e fazer churrasco, e beber e talz. Algumas vezes na minha vida julguei que nasci em país errado. Eu queria ver Tenet, mas não sei se vai dar. Eu gostei do Festival de Veneza acontecer. E nem sei se cheguei a comentar por aqui, mas quando da partida de Ennio Morricone deste mundo, fiquei triste, sim.

Acho que durante essas quarentenas teve muita gente que conseguiu ver várias séries e filmes, principalmente por streaming, alguns conseguiram ir a algum Cine Drive-in (eu bem que queria, no meu aniversário, mas não achei um filme interessante o suficiente, fora outros fatores). Eu me pergunto se eu não tivesse a bebê pequenina justo nestes tempos o que eu estaria fazendo? Teria eu conseguido ver todos os filmes da lista interminável de filmes que preciso ver antes de morrer? Ou maratonado séries que sempre acabei deixando pra lá? Nos últimos meses a única coisa que consegui ver foi Crazy Delicious – uma série em que os competidores precisam de muita criatividade para trabalhar com pratos e ingredientes inusitados, e tudo fica tão fantástico, eu gostei bastante. Mas é isso. Não consigo mais ver um filme inteiro de “uma tacada só”, eu vejo agora por partes. Calma, não estou reclamando. Sei que este tempo passará e tenho que aproveitar ao máximo meu tempo com a baby agora, pois logo ela crescerá e nem vai querer mais saber de mim. Será que a gente vai ver algum filme junto algum dia?

Na verdade, teve umas semanas aí em que eu estava pensando sobre o arrependimento. Será que eu deveria mesmo ter me casado e ter tido uma filhinha? Eu nunca fui uma pessoa “querida” pelas crianças, talvez a vida do meu esposo tivesse seguido por caminhos melhores com outra pessoa do lado. Talvez eu não sirva pra isso. Talvez eu devesse ter tido coragem e escolhido ficar sozinha, só vendo filmes, trabalhando com qualquer coisa, sonhando até a morte em fazer cinema um dia?

Bem, eu não tenho muita escolha agora, tudo o que posso é fazer o melhor que posso. E talvez eu tenha que me conformar que o cinema funciona mais para mim como um alento, um conforto, um carinho para a alma. Nunca vou trabalhar com isso, mas de vez em quando pode me trazer inspiração.

Outro dia fiquei muito chateada com uma das irmãs Wachowski comentando que o filme Matrix tinha a ver com essa questão de gênero. Este blog tinha como capa a cena do gatinho preto, do déjavu, que eu sempre brincava comigo mesma, “alguma coisa mudou na Matrix”. Era um dos meus filmes preferidos na história do cinema, e daí, de repente, pra mim, vieram elas e estragaram tudo. Eu não ligo que elas tenham optado por outro gênero sexual (ou você pode me considerar aquele tipo de pessoa que não acha que é preconceituosa, mas é, e também não vou ligar). É que pra mim Matrix era muito mais que isso, sabe? Eu até escrevi um post considerando algo do budismo que eu relacionava ao filme. Pra mim, era algo transcendente, tinha a ver com nossa própria existência, constituição como seres humanos, era muito maior do que a questão de gênero.

Tudo bem, vai acabar ficando só como mais um filme. É parecido com o George Lucas que, pra mim, estragou a trilogia original do Star Wars. 10 anos atrás eu me empolguei muito com A origem do Christopher Nolan, talvez eu me arrependa de querer ver Tenet. Os tempos mudam, nós também, provavelmente. Ou simplesmente fazemos certas escolhas e daí não tem mais jeito, tem que lidar com o que tudo isso envolve.

Daí eu estava vasculhando os arquivos da minha memória afetiva para encontrar um filme que sempre morou no coração e nunca serviu de capa pra este blog. Algo que me fez pensar que a seção de Top 5 também precisa de atualização, e eu preciso ser mais honesta comigo mesma. Não vai ser Um corpo que cai que vou querer ver empolgada junto com a minha filha.

Eu quero que ela veja Hayao Miyazaki, O fabuloso destino de Amelie Poulain (quando já for adolescente), as aventuras do Spielberg ainda criança. O tempo pode ter passado, mas eu ainda continuo sendo uma comédia romântica. E o E.T., ao que parece, nunca vai deixar de ser um dos que mais me encantam (acho que o Spielberg não vai conseguir mais estragá-lo, será que vai?).

Repensando um trabalho audiovisual

Nem dá pra acreditar que já faz cinco anos que acabei largando aquela graduação em audiovisual. Esses dias eu estava de TPM, só pra contribuir com o que chamam de inferno astral, e repensando por que tanta exasperação na minha vida. Tipo, e se eu soubesse que nunca faria filmes, nem ganharia Oscar nenhum, que talvez eu simplesmente tivesse que me conformar que o cinema não é pra mim mesmo, como tantas frustrações já me demonstraram e eu nem quis ver (a última, um concurso para a canção Here comes the sun, mas eu nem fiquei pra baixo, não esperava nada mesmo, só foi divertido imaginar um clipe para essa que é uma das minhas favoritas dos The Beatles). Talvez, se eu pudesse voltar em algum momento do passado, eu diria “calma aí com o andor, que nem precisa de tudo isso não”. Eu acho que escolheria o ano de 2003, pra não fazer outro ano de cursinho para tentar vestibular para o curso de audiovisual na USP, e escolher fazer o curso de teatro e ir trabalhar com dublagem – o que imagino que seria um trabalho que eu realmente gostaria de fazer, e teria escolhido fazer o curso de Letras em japonês, não tendo que pagar a faculdade e aprendendo um idioma que, sozinha, não consigo mesmo aprender, para poder trabalhar com traduções nessa área. E não me exasperaria para ter aquela vida dos sonhos hollywoodianos, simplesmente me contentaria com isso mesmo, por que mais?

Sabe, eu não me arrependo de ter largado a facu de audiovisual, porque sei que não ia conseguir aproveitar bem mesmo, e não dava pra desistir do emprego, porque daí não daria pra pagar o curso, enfim. Mas lembrei de um dos primeiros trabalhos que um dos professores pediu pra gente, fazer um vídeo curto mostrando quem você é. Dia desses eu estava flertando com a ideia de fazer vídeos para postar no YouTube, e daí lembrei. Na época, fiz algo que a maior parte dos outros alunos tinha feito, mostrando coisas que eu gostava, no meu quarto, que pra mim também significavam momentos da minha vida.

Mas se eu fosse refazer esse trabalho, acho que pensaria diferente. Talvez abriria com um close numa tela de computador como se estivesse sendo escrito um roteiro.

INT. ESTÚDIO DE PROGRAMA DE ENTREVISTAS – DIA –

E então eu mesma apareceria, imaginando estar sendo entrevistada, “Tá brincando, né, me definir em uma palavra?” Porque não existe só uma palavra que possa definir a gente, não é mesmo?

Entraria então um cantarolar “You may say I’m dreamer, but I’m not the only one” – sim, essa famosa Imagine do John Lennon é uma das minhas canções prediletas, junto com What a wonderful world do Louis Armstrong, eu posso ser bem piegas assim. Ou, digamos, bem clichê. Mas me define bem: uma eterna sonhadora.

Talvez poderia aparecer eu abraçando minha gata, ou meditando ao lado de uma imagem de Buda, não muito mais do que isso.

Pensando bem… Mesmo depois de tantos anos acho que continuo sendo essa mesma pessoa (isso é triste?). Claro que a gente vai ganhando experiência com o tempo e tem que ceder em alguns pontos, claro que eu não imaginava a minha vida assim aos 38. Mas ainda choro com alguns filmes, ainda sou bem “na minha” – muito gente por aí entediada com tanto tempo em casa. Eu gosto, na verdade. Minha aflição maior é de não ter tempo pra fazer algumas coisas que eu gosto. No meu aniversário, por exemplo, eu só queria ver um filme, escrever e comer um pedaço de bolo de chocolate. Não consegui nenhum dos três. E pra “ajudar” eu ainda estava sofrendo com resfriado no dia anterior!

É que agora eu tenho que cuidar de uma outra pequena, né… Pra quem vê de fora, pode parecer algo simples, mas ela me toma o dia inteiro, e entre fazer os exercícios (inclusive de fisio), fazer e dar papinha, fazer e dar o leite, trocar fralda e dar atenção – não, ela ainda não fica sozinha brincando, se sente abandonada apenas com 5 minutos! – fico bem cansada no final do dia.

Tudo bem, eu já havia pensado anos atrás que não podia querer mais nada desta vida. Significa que eu estou de sobrevida, que deverá servir para me dedicar tão somente à essa nova vidinha que trouxemos a este mundo. Para que ela fique bem e seja capaz de aproveitar esta experiência terrena da melhor forma.

Então fica aqui meu post aniversário. Não pude sair por aí como em outros anos, e não foi só por causa da quarentena, não tentei coisas mirabolantes ou aproveitar ao máximo numa auto indulgência tirando o dia só pra mim e pra fazer só coisas que gosto. Mas tudo bem. Esta já não é a idade pra isso. Entro na minha era de sobrevida, algumas coisas a gente tem que deixar, se desapegar, pra cuidar de outras que também importam muito.

Ainda sonho? Claro que sim. Ainda acredito que cada um pode fazer sua parte para vivermos num mundo bom. E gostaria de compartilhar coisas boas, contribuindo para expandir a positividade nesse sentido de um mundo melhor. Mas calma aí nesse andor, tenho consciência de que a gente acaba fazendo o que dá, né. E tudo bem.

Orgulho LGBTQI+ e uma comédia romântica

Então parece que este mês é do orgulho LGBTQI+ – e confesso a vocês que eu, na minha perdida da década, tinha é parado no LGBT e nem sabia que a sigla tinha crescido. Este mês de junho geralmente São Paulo seria uma cidade que veria a famosa parada, que já foi cenário até daquela série de grande produção das (hoje) irmãs Wachowski, Sense 8. Série que tem umas cenas bem picantes, por falar nisso, tem personagem lésbica e trans, e tudo o mais, e levanta a bandeira com todo o orgulho, o que não é de se admirar, considerando as criadoras. Este ano não vai ter parada, mas me peguei, através do cinema, relembrando desta época de uma maneira um tanto inusitada: por uma comédia romântica! Quem diria!

Eu adoro comédias românticas, deveria escrever um longo post só sobre as minhas favoritas, quem sabe, mas admitamos que a maioria dos exemplares desse “gênero” pode trazer uma narrativa bem convencional. Na maioria das vezes é o cara e a garota, que se conhecem, tem algo que impede ficarem juntos e no final, é claro, ficam juntos. Dentro do panteão das comédias românticas, tem uma que eu queria rever e por acaso quando eu fui procurar ia passar no Telecine e eu pude assistir – assim, de gracinha, ó deuses do cinema, vocês devem se divertir ao me ver ganhar de presente os filmes assim e ficar tão feliz.

Só tinha uma vaga lembrança dos tempos de pré-adolescente, mas Alguém muito especial (Some kind of wonderful / 1987) ***  me surpreendeu agora que sou bem adulta. E não é que os diálogos não são os habituais previsíveis, nem soam forçados ou elaborados demais. E o filme não envelheceu mal em seu tema, sendo mais sensível do que poderíamos esperar. Tem uma garota que é um estilo meio punk-rock, mas que se apaixona pelo melhor amigo, que por sua vez se interessa pela garota mais linda e popular da escola. Sim, a trama é a mais velha do mundo, mas é um filme escrito pelo John Hughes, minha gente! Esse cara que teve ótimos momentos de roteirista, principalmente retratando a juventude de uma forma mais real, relacionável e não menos cool do que muitos por aí, gerando alguns dos melhores filmes para esses jovens anos 80 (incluindo eu) – hello, Curtindo a vida adoidado (1986)****, Clube dos cinco (1985)***!

Daí, hoje eu estava vendo uma lista de frases que provavelmente a gente já ouviu alguém dizer, ou talvez nós mesmos digamos, nesse tema LGBTQI+… que nós temos que parar de dizer. Não é que me lembrei dessa comédia romântica dirigida pelo Howard Deutch. Aliás, um adendo divertido a se notar: o cara se casou com a Lea Thompson, que faz a menina mais linda do filme (e a mãe do Marty Mcfly, só pra constar), e eles tiveram uma filha que hoje em dia… faz comédias românticas! hahaha. Voltando ao filme e ao tema em questão, a personagem da Mary Stuart Masterson (a melhor amiga Watts) é questionada em determinado ponto sobre usar cuecas, no vestiário feminino. E o próprio amigo vivido pelo Eric Stoltz comenta com o pai que ele não é lá muito popular, tendo uma amiga homossexual. Ou seja, ele mesmo acha que a menina, com esse jeito dela, não sentiria atração por um homem.

Não é quase que uma subversão que Watts realmente seja apaixonada pelo amigo? É John Hughes jogando (mais uma vez?) na cara de todo mundo que não importa os estereótipos que possamos ter inculcado na nossa convivência social, jovens são (e devem ser) livres para experimentar e para se descobrirem, se divertindo no caminho. E daí que ela se veste como um menino, fora do padrão para a época?

Por trás daquelas frases que a gente tinha que parar de dizer na lista havia exatamente esse conceito. Temos que parar de esperar um “padrão” para aprender a respeitar a liberdade de escolha e orientação de cada um. Tinha aquelas frases típicas, como parar de falar “voz de traveco”, ou mesmo que “só porque é gay não precisa dar pinta”, “você não parece gay”, “que desperdício!”, entre outras. Diz aí, John Hughes já cantava essa bola muito tempo atrás.

E o filme ainda tem alguns outros pontos a favor. Aquele carro velho da Watts é ótimo! E a menina popular pode sim ser sua amiga. E a irmã chata pode sim se sensibilizar quando parece que você vai se dar mal. E o valentão pode sim ser um artista. É um filme de comédia, mas seus personagens não são planos, o que faz toda a diferença. Taí, eu nunca ligaria esse filme à esse tema, mas são por esses momentos surpreendentes que mais nos divertimos no cinema, e na vida, não?

May the 4th, live with you

Ufa, anda bem difícil postar algo aqui no blog, hein… O mês de maio já passou e nem postei mais. Comecei maio terminando de ver todos os filmes da franquia Velozes & Furiosos, porque não tinha assistido a nenhum inteiro e queria ver o que poderia ser que faz o pessoal gostar tanto desses filmes. Até que são mais divertidos do que eu tinha pensado e estava até preparando post sobre isso, mas não saiu.

Daí, como dia 04 de maio é o “dia Star Wars” (que a força esteja com você!), eu pensei em aproveitar que o Amazon Prime Video tinha disponibilizado todos os filmes para pegar e maratonar em ordem cronológica. Porque eu, nascida no início dos anos 80 (mas sem me considerar muito millenial), fui assistindo conforme os filmes foram lançados e nunca peguei na “ordem certa”. Aliás, perdi o último, A Ascensão Skywalker, porque na sessão de Os Últimos Jedi eu passei mal e acabei nem indo atrás para ver o que tinha perdido. Sei lá, depois do Han e da Leia terminarem daquele jeito, eu fiquei ainda mais desinteressada.

Vejam bem, nem de longe sou fã, se bem que eu gostava bastante como entretenimento, principalmente da primeira trilogia lançada, lá pelos fins dos anos 70, quando aqueles efeitos especiais nos empolgavam – e ser um jedi sob a batuta do Mestre Yoda também. Sim, o carinha é baixinho, mas muito poderoso, e quando eu morei na Disney eu até comprei uma camiseta com os dizeres “Size matters not” (tamanho não importa!) – já que sou pequenina também, como um hobbit. Sem falar que há certas coisas da narrativa que tem a ver com budismo. É por algumas dessas coisas que gosto de Star Wars, e quando mais jovem, eu imaginei a minha própria versão de como Anakin teria sucumbido para o lado negro de Darth Vader.

Eis que, apesar de nunca ter acompanhado outros desenvolvimentos relacionados a esse universo – na TV ou pela internet, eu me deparo no final do ano passado com a onda de memes do Baby Yoda. E que vontade de ver The Mandalorian, só por causa dessa figurinha. Jon Favreau continua me surpreendendo, mostrando-se um cara que gosta das mesmas coisas que eu, após ter trazido pro live action heróis, o Balu cantando e nadando no rio e o rei leão, claro. Acabei não assistindo a série, mas é realmente tão fofinho. Então, embora já tenha passado uns seis meses desde o montão de memes e a polêmica do James Gunn comparando forças com o Baby Groot, talvez todos já tenham enjoado, mas eu continuo achando muito divertido. E agora posso incluir a minha Baby na brincadeira, provando mais uma vez que o cinema e seus derivados continuam animando a minha vidinha pessoal, que seria muito mais medíocre se não incluísse essas expressões da sétima arte.

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Aliás, eu postei no Instagram no dia 25 de maio, que só pra deixar registrado por aqui, é o chamado “dia do orgulho geek/nerd”, ou o “dia da toalha”, tributo ao Douglas Adams e seu Guia do Mochileiro das Galáxias. Bem apropriado, não? Sim, a vida pode ter os seus perrengues e não anda lá muito fácil, mas eu sempre me divirto assim!

Fora isso, tantas coisas aconteceram nas últimas semanas no mundo, não? Continuam as polêmicas com o nosso brasileiro presidente e mais trocas de ministros, pessoal já desistiu de levá-lo a sério? Tivemos astros do basquete lançando desafios, modas das máscaras, gente se reinventando para poder ter um dinheirinho e sustento, pessoal que já nem leva a sério mais o isolamento (também, olha a bagunça deste país!), honestamente eu fico envergonhada de ver esses números de casos e mortes pela covid-19 comparando com outros países… mas, como sempre, nós só podemos fazer a nossa parte, né? Continuando a ter esperança pela ampliação de mais consciência e ações.

E isso também vemos aí nesses últimos dias de protestos contra racismo – gente, essa discussão já faz séculos, e não resolvemos isso? Pra ver como a humanidade pode ser devagar mesmo. Eu tive vontade de fazer um meme com o cavaleiro negro de Em busca do cálice sagrado (1975)***, do Monty Python, “Yes, black lives matter!”. Mas sei que ainda é uma questão muito delicada para muita gente e talvez não fosse bem visto, não ousei. Como eu tinha falado num post anterior, eu só estou meio empolgada agora com memes porque perdi esse bonde, mas esta bobagem minha deve passar logo, não se preocupem.

Já os posts da websérie Comedians in Cars Getting Coffee eu até poderia continuar, vi mais episódios, mas acabei dropando. Isso porque nossa “rotina” ficou ainda menos rotineira, a bebê está sem horário para leite ou para dormir, gostaria de fazer ela dormir sem ser no colo, não tenho conseguido dar as papinhas de frutas recomendadas pelo pediatra, tem sido difícil marcar consultas nas condições atuais. Finalmente achamos uma neuro pediatra “decente”, temos que ir atrás ainda de hematologista, fisioterapeuta, cardiologista e ver onde o nosso plano de saúde cobre exames… É bastante coisa, fora que eu também ando precisando ir ver alguns médicos – fazer óculos novos, meio que relaxei por completo em relação à diabetes, e os acompanhamentos de praxe, dentista, ginecologista e o problema no meu braço que já não vira mais pra trás… ai, ai, lástima.

Quanto aos filmes, seria até interessante aproveitar o YouTube para ver clássicos do cinema que estão disponíveis na íntegra por esse meio, não? E como seria legal a gente poder ir num desses drive-in, parece que a moda tá voltando, eu via nos filmes isso e queria tanto que tivesse no Brasil! Mas nem os shows pirotécnicos na Disney que dá pra gente ver agora online eu vi. Então nem me pergunte o que achei daquele lançamento no Netflix, eu vi só A morte lhe dá parabéns (Happy death day/ 2017)***, descaradamente bebendo da fonte de (homenageando?) um filme bem simpático, Feitiço do tempo (Groundhog day / 1993)***, naquele momento em que todo mundo de repente decidiu fazer algo parecido. Até que achei bem aproveitado, o diretor é do mundo dos filmes de terror, tem umas partes engraçadas e atores bem carismáticos, a cada morte a narrativa vai acrescentando mais, claro que a personagem principal vai percebendo que tem que mudar, mas eles não enrolam muito e ela conversando com o carinha legal Carter, aos poucos percebendo como podem se dar bem e tem a questão da relação com os pais, não é chato de ver não; mesmo já prevendo quem era o assassino, até que o filme dá umas boas voltas na gente e nos deixa curiosos, afinal.

Se eu me interessei por Space Force? Oh, man. Eu assisti a várias temporadas do The Office rachando o bico, antes do Michael Scott sair. Mas honestamente, não me pareceu que vai ser tão divertido ver este; quis é ver o Some Good News do Krasinski, que não vi quase nada, talvez ainda confira.

Algo que peguei e fui rapidinho até o final foi Upload, o piloto é mais comprido, mas os outros episódios não duram mais que meia hora. Aliás, também é do Greg Daniels, um dos criadores do The Office norte-americano e do Space Force. A série está disponível pelo Amazon Prime, com a premissa de um dos episódios de Black Mirror que foi um episódio não tão desagradável, sobre a possibilidade de morrer, mas deixar sua mente viva com um avatar em um universo digital. No caso de Black Mirror, brincam com o tempo, com visual anos 90 e outros, por exemplo, e uma mulher procurando outra, mas as duas sendo apenas duas em milhões de pequenas memórias. Em Upload, desenvolvem a ideia, as pessoas podem escolher terem essa versão digital pós-morte em diversos lugares, um negócio lucrativo pra muita gente. Há os “anjos” que são como assistentes técnicos pessoais de cada convidado, o nosso personagem principal é um bonitão cuja namorada paga pelo seu upload em um hotel à beira do lago, aos poucos descobrindo que sua morte não foi acidental, e nós vamos descobrindo diversos detalhes desse universo. Os A.I. são uma ideia interessante, e quem não pode pagar pode ficar paralisado em um outro lugar que só tem capacidade de 2 GB… Ótima sacada um labrador servir de terapeuta; ver memórias num capacete que parece de salão de beleza me lembra outros filmes; há a questão do sexo com uma roupa virtual e como faz quando a pessoa morre ainda criança – todos os outros aqui fora envelhecem, mas ele não; seria possível um romance entre alguém vivo e um upload?; ótimo que o milionário é que vença a caça ao tesouro! O episódio em que vão para a “grey zone” e conseguem códigos ilícitos é outro bem inventivo. O carinha que faz o amigo Luke tem um jeitão bem engraçado mesmo. A atriz que faz Nora é bem bonita à sua maneira, sendo que o contraponto do carinha real que o aplicativo indica uma boa combinação só dá mais sentido para ela acabar se engraçando com seu “cliente”. Assim como em Matrix (1998)****, a vida real pode ser bem cinzenta nas cores, nas roupas, e com uma fotografia não tão perfeitinha de comercial de margarina. Não achei tão interessante a noite do funeral como se fosse uma festa, mas gostei da prima gordinha detetive, no diálogo com o caixa automatizado de uma loja de conveniências. Eu encararia uma segunda temporada, hein!

Bem, este junho não vai ter festa junina pra gente, embora alguns lugares estejam planejando lives por aí… E algo recorrente deste ano continua: não faço muitos planos. Vou encarando as dificuldades conforme surgem e procuro não criar muitas expectativas. Assim, sabe-se lá o que vou conseguir este mês, ver alguma comédia romântica, com certeza, ou tocar uma música no ukulele? Talvez nada, só de conseguir médicos para minha bebê eu devo me dar por satisfeita. Apesar de tudo, o cinema continua a me animar, me acalentar, me acompanhar, da forma que der…

Avenida Brasil

No último dia 1º de maio terminou a reprise da novela “Avenida Brasil” da Rede Globo. Por acaso, a novela foi exibida originalmente em 2012, e foi em 2012, dia 1º de maio, que meu avô materno faleceu. Fiquei pensando se talvez tenha sido parte da razão de não ter acompanhado a novela na época. Essa foi uma das novelas de maior sucesso do canal, imagino eu, muito popular, a ponto do país parar para vê-la – coisa que eu me lembro de ter visto só no último capítulo de “A próxima vítima” (mas devem ter existido outras ocasiões semelhantes, sendo os brasileiros noveleiros como são).

A bem da verdade, no entanto, desde que eu comecei a faculdade eu perdi o hábito de ver TV. Já não me era muito interessante na época do cursinho pré-vestibular, daí eu trabalhava e ia direto pra faculdade à noite, sem tempo algum. Depois de formada, simplesmente não me interessava mais, eu preferia ver algum filme no pouco tempo disponível. Mas este ano parece que eu me reaproximei da TV, estando lá no hospital o dia inteiro, só indo pra casa algum dia do final de semana, e cansada até para ver as coisas baixadas no computador para ver offline. Não que eu acompanhasse algo realmente, às vezes tinha alguns minutos livres e daí comecei a ver algumas cenas do “Vale a pena ver de novo”. Xenti, aquela cena em que a Nina é enterrada viva, hein?!

Voltando para a casa, continuei assistindo aos episódios, exatamente porque eu tinha perdido da primeira vez. E que sorte a Globo tem de passar um sucesso desses em épocas de quarentena! Com certeza deve ter marcado mais uma vez uma alta audiência noveleira desses últimos tempos, em que imagino que muita gente prefere mesmo é os canais de streaming – que dá pra pausar e voltar quando quiser, e nem precisa perder tempo com as propagandas. Embora, aham, eu sou como a Lorelai, aproveito esses tempinhos pra ir ao banheiro ou pegar algo pra comer…

A Globo sempre tem uma produção caprichada, mas a impressão que me ficou foi que esta novela, em particular, foi uma das primeiras a parecer com coisa de cinema. Talvez principalmente por uma fotografia mais rebuscada; hoje já virou lugar comum de todas as outras novelas, mas lembro que na época eu tinha me impressionado com isso. No modo de usar a câmera, os enquadramentos e as luzes. Pra mim era como uma pequena revolução, assim como foi The Office (a versão americana) pra mim, bem diferente das sitcoms dos anos 90, hein.

Revendo essa fase final da novela, constato essa primazia, e como a direção de arte é bem feita também, com poucos deslizes. Talvez os brasileiros nunca tenham ido ao lixão antes numa novela, e por que não acompanhar um ex-craque de futebol e outros futuros promissores jogadores, no chamado país do futebol? Super bola dentro. Fora a trama principal de vingança, que cria aquele suspense e faz o público torcer – o melhor cenário para uma novela – o autor conseguiu criar personagens memoráveis, se aproveitando do carisma de diversos bons atores. A direção foi acertada naquela dinâmica familiar dos jantares na mansão, com um falando em cima do outro; diversas cenas em que um não deixa barato para outro personagem; e apesar de um ou outro estereótipo, como foi divertido acompanhar! Até mesmo o núcleo mais cansativo, na minha opinião, do Cadinho e suas três mulheres. Todo mundo sempre vai lembrar que, caretices à parte, a maria chuteira podia ficar com um suposto gay filho de uma ex-atriz pornô e um rapaz simples do interior formando um “casal de três”… E o pessoal do salão da Monalisa; a Tessália, morenaça que é claro merece o Leleco ou o rapazinho sonhador lutando por ela; o bar do Silas, como tantos bares existem neste país pra ver um jogo de futebol; as empregadas Zezé e Janaína, cada uma com seu jeitinho e que também representam a classe trabalhadora – aliás, uma empregada se vingando da patroa perua bruaca? Como não dar certo?; a Lucinda mãe do lixão e o Nilo loucão que poderia muito bem representar um mendigo que você aí já viu por alguma rua de cidade grande, meio louco, com barba e cabelo por fazer; o casal de pilantras Max e Carminha menos melhores que Bonnie e Clyde. Claro que a Carminha da Adriana Esteves foi um show à parte, o Brasil vibrou com ela, para o bem ou para o mal, mais até do que torcer pra Nina conseguir se vingar e ficar com o Jorginho – aliás, ouso dizer que teve uma hora que a gente até já se irritou com a Nina, por não acabar logo com tudo, mas daí valeu a pena porque vimos a Carminha rebatendo nas suas jogadas estratégicas e virando o jogo, haha.

Da trilha sonora nem precisamos falar, porque música de novela vai tocar direto nas rádios, lembro bem essa época em que todo mundo cantava o “oi, oi, oi”; “tchu tchu tcha”; “assim você mata o papai”… Por falar nisso, a outra versão, “Vem dançar kuduro” está na trilha sonora de “Velozes e Furiosos 5” (2011)***, o filme da franquia que se passa no Rio!

Com uma narrativa cheia de reviravoltas e um monte de casais formados (mesmo na vida real!), o autor foi abençoado com atuações boas e marcantes, e conseguiu mesmo levar o público, prender a atenção, apesar da longa duração das novelas no Brasil. Quando fui para o Japão, em que as novelas, os “dorama”, tinham a duração das estações, é que percebi como são longas nossas novelas!

Eu costumava acompanhar mais delas quando era criança, talvez por ter mais tempo pra gastar diante da TV, então é difícil eu defender novelas por aqui. Lembro de ter gostado muito de “Rainha da sucata”, “Mulheres de Areia”, “O Rei do Gado”, “Quatro por quatro”, entre uma ou outra das 7 também, além de Ana Raio e Zé Trovão do rodeio e a Juma do Pantanal, e as mexicanas do SBT, claro. Mas esta daqui realmente valeu a pena ver de novo, dentro desses anos mais recentes, em que nem acompanho nada, valendo assim um registro. Pra provar que quando uma história é bem contada, bem apresentada, é como a magia do cinema acontecendo, mesmo que seja para a telinha.

A perdida na década (e alguns pedidos de desculpas)

Talvez por estar assistindo à web-serie do Seinfeld, esses dias eu estava pensando em como parece que eu me perdi nesta última década. Quer dizer, me parece que houve um momento de boom dos comediantes stand up no Brasil e eu perdi (ou sempre existiram de monte e eu é que só notei depois de surgirem várias apresentações em canais na internet e shows no Netflix? Talvez, né, principalmente no Ceará. Só ainda não se chamava stand up).

Tenho a sensação estranha de que em algum momento eu fui congelada ou paralisada quase que como numa dessas máquinas de filmes de ficção científica, pra de repente acordar e ver que várias coisas mudaram. Como se eu tivesse perdido a última década. O que foi que aconteceu entre meus 25 e 35 anos, quando supostamente eu deveria estar no auge físico e intelectual da minha vida?

Eu perdi a época em que todo mundo começou a fazer seus próprios vídeos e postar online. Eu perdi a transição da popularidade do Orkut pro Facebook e então Twitter e Instagram. Eu perdi os 7 gols da Alemanha numa Copa no Brasil (!) e as Olimpíadas no Rio!

É claro que entre 2010 e 2020 eu devo ter tido alguns momentos importantes aqui e ali (no meu mundinho), mas sinto como se eu estivesse acordando pro mundo de novo, ao ver mais notícias e poder pesquisar mais sobre cinema, por exemplo, ler, até estou vendo alguns vídeos no YouTube, gente!

Este realmente está sendo um ano muito atípico, mas sinto que me fechei em um casulo por muitos anos e o que aconteceu? Por que eu não consigo seguir e postar em redes sociais como todo mundo? Já não conheço tantos nomes de diretores e atores na ativa. Eu caí do bonde que seguiu e agora peguei outro querendo sentar na janelinha.

Na verdade, o título deste post deveria ser um pedido de desculpas. A todos os amigos de quem acabei me afastando e todos os novos conhecidos com quem acabei não aprofundando a amizade – simplesmente por não ter conseguido acompanhar as redes sociais, não ter conseguido equilibrar o trabalho e dedicação no templo com a vida “aqui fora”.

Sei que o Keanu Reeves é uma das celebridades que não tem contas em redes sociais, então talvez eu também não deva me preocupar muito? Simplesmente aceitar que sou essa pessoa meio ermitã? De fato, se eu conseguisse casar com o DiCaprio, acho que faria igual à esposa do Walt Disney ou ao Terrence Malick e não daria entrevistas.

Também poderia pedir desculpas ao grande amor da minha vida (sim, o cinema), se bem que no meio desses últimos dez anos teve o momento de tentar realizar aquele velho sonho de estudar cinema – que não foi lá muito bem sucedido, exceto pra eu achar que realmente não dou pra coisa.

Mas por quê, não é mesmo? Eu desisti do curso porque vi que não conseguiria me dedicar aos projetos e contribuir em equipe, devido ao trabalho. Mas era um impasse: se eu não trabalhasse, não poderia pagar e continuar o curso.

Então por que raios fiquei com a sensação de que tinha desistido da minha vida? Foi apenas algo que (não) aconteceu. Eu também podia pedir desculpas por todos os textos que não escrevi, sendo que é algo que gosto muito, mas estava sempre ocupada e cansada…

Não que tenha sido de todo ruim, nesta última década eu viajei e tive boas experiências. E agora que já até casei e tive filhos, completando o que acho que seriam as principais experiências que eu deveria viver nesta vida humana, fico pensando que não preciso realmente fazer mais nada, posso ter um emprego qualquer pra me sustentar e passar o resto dos meus dias contente por tudo que já tive oportunidade de viver.

E quem sabe, me deixando relevar a mim mesma, relaxando e estando mais tranquila, finalmente eu chegue a escrever aqueles roteiros? É, como eu disse, o cinema é o grande amor da minha vida, posso me afastar um tempo, mas até o final dos meus dias vai sobreviver essa vontade no coração de imaginar, inventar e contar histórias. Só que agora sem sentir que “preciso” fazer isso, simplesmente fazer isso porque é algo que gosto.

Nossa passagem aqui é tão rápida, pra não fazer o que gostamos. Nem sei bem onde foram parar os últimos anos, entre momentos de depressão e conformismo. Cá estou, nesta crise de meia idade para esta última década. E pra você? Como foi 2010-2020?

Quando criança, sonhava com uma vida tranquila, sem passar necessidades, escrevendo histórias. Também sonhava com o dia em que a sociedade daria mais valor aos profissionais de saúde e educadores, que pensássemos mais no meio ambiente e começássemos a salvar o planeta, que mais pessoas pensassem mais no próximo, inclusive com ajuda aos mais necessitados, e aos poucos poderíamos ter uma sociedade mais justa e menos desigual, por conseguinte, com menos crimes e violência – me pergunto se agora com as quarentenas as taxas de criminalidade também diminuíram?

Na verdade, surpreendentemente, me encontro hoje ainda com muita esperança! Que venham as próximas décadas e o futuro. E que venha um futuro melhor.