Temos que falar (dos inesperados méritos) de Soul

Venho enrolando para escrever este post desde o início do ano, foi um dos primeiros que vi neste ano e gosto de começar meu ano com essa espécie de tradição de ano novo, começando o ano com um filme bom sinto que o ano todo será bom.

Pra dizer a verdade, eu não dava muita coisa pra esse filme quando vi o trailer, sendo bem preconceituosa mesmo: “ah tá, eles precisam fazer um filme com personagens negros por causa dessa onda de necessidade de representatividade, daí pegaram o estilo musical para dar uma roupagem mais estilosa brincando com o próprio tema de almas, pós-vida em que inevitavelmente reconhecem que temos que aproveitar a vida…”

Claro que, de certo modo, eu não estava totalmente errada nessa rotulação, mas Soul (2020) *** me pegou de calças curtas. Eu me peguei inesperadamente abraçando a tela da TV (não literalmente, mas acho que entenderam) com aquela lágrima furtiva, por um toque bem simples – nem vou chamar de ponto de virada, ou deveria? – no ápice, finalzinho de tudo.

(!) Relembrando que este blog não acredita em spoilers! Uma coisa é saber o que vai acontecer, outra é acompanhar a trajetória dos personagens embalados por boa música e incitação das sensações, deixando-se arrebatar afinal, por mais surpreendente que isso possa parecer.

Aqui também aproveito para deixar o adendo: existem milhares de críticas e textos sobre filmes por aí afora, a diferença é sempre porque cada um tem uma experiência e, portanto, olhar e referências únicos. Talvez eu devesse enfatizar mais isso por aqui o fato de eu gostar ou não de um filme acaba sempre dependendo muito da minha própria vivência (* = não gostei; ** = gostei; *** = gostei muito!).

Pois bem, o personagem principal de Soul é um professor que durante toda a vida lutou por um sonho, ser um bem sucedido músico de jazz. Acontece que a vida foi passando e finalmente quando ele acha que vai conseguir realizar, tem sua grande chance… ele morre. Geralmente eu gosto das questões metafísicas, mas é interessante que não quiseram mostrar o que acontece após a morte, e sim imaginar um possível universo antes da vida. Só aí já temos uma boa sacada, com uma alma milenar que ainda não encontrou um propósito, ou digamos, a chama, a faísca, aquela vontade de viver.

Daí, para que o professor Joe (voz de Jamie Foxx, que, não acho ser por acaso, também tem no currículo a encarnação impecável do Ray Charles) consiga voltar e realizar sua parada, com direito a troca de alma num gato, ajuda de um navegador psicodélico que resgata almas perdidas, incentivo a uma jovem com todo o potencial e talento pela frente que só precisa de um apoio moral, uma conversa significativa no barbeiro que não exatamente seguiu sua vocação inicial, mas gosta do que faz; ele e alma 22 (voz da Tina Fey) se desventuram com boas risadas principalmente devido às descobertas do mundo por 22. E Joe finalmente consegue realizar seu sonho.

Eis que… surge aquele sentimento… então? Era isso? E agora?

A lição de moral é desfrutarmos dos pequenos momentos da vida, aproveitar o caminho e não nos preocuparmos tanto com o nosso destino final. Mas o que mais me emociona em Soul é essa diferença de discurso: não, você não precisa fazer de tudo e realizar um grande sonho para ter sucesso e ser feliz. Porque estamos tão acostumados a ver esse discurso em tantos filmes e outros meios, não? A gente tem que bater metas, a gente tem que se superar, tem que lutar, mas no final vai valer a pena, se não for assim, seremos perdedores. E então? Seremos mesmo? Óbvio que não. A vida não se trata somente de realizar grandes feitos. E as milhares de pessoas que também estão vivas, mas não acharam cura para doença nenhuma, nem ficaram marcadas na história?

Aliás, é engraçado como vários personagens famosos, dos mais diferentes campos de conhecimento da humanidade, já foram tutores de 22, mas o que ela precisava era mesmo de um “zé ninguém” (“average joe”) pra sentir a vida de verdade, como a vida pode ser muito maior do que ela poderia imaginar.

Eu digo isso com toda a alegria do meu coração, porque me identifiquei demais com Joe. Sempre tive grandes sonhos (fazer cinema, roteiro, direção, edição, ganhar Oscar, casar com o DiCaprio), mas a vida não funcionou, apenas assim – e tudo bem. Tudo bem porque a cada passo do caminho eu procurei aproveitar cada momento dando seu valor e da melhor forma que consegui. E será que se eu realmente conseguisse um Oscar aos 18 anos eu teria dado valor? E será que mesmo se eu conseguisse há poucos anos fazer um filme com o Spielberg eu não diria o mesmo, não teria o mesmo sentimento que Joe – e agora? Era só isso?

Sim, já tive muitos arrependimentos, sofrências e a sensação de que minha vida foi perdida, em vão. E por isso, ouso dizer que este filme é para um público mais velho. Bem, as crianças podem assistir, elas vão se divertir também, mas talvez seja ainda melhor rever depois dos 30, 40, 50, 60 anos…

Toda essa jornada nós acompanhamos em tela com a habitual excelência técnica da Pixar, o que torna tudo mais aprazível. Em mínimos detalhes eles conseguem divertir e serem criativos sempre, eu poderia ter feito um post com as “coisinhas divertidas para se notar em Soul“, mas este post tinha que sair um pouco mais especial. Foi como um presente imprevisível, inesperado, que aceitei de muito bom grado – e merece sim, apesar de ser barbada, os prêmios de melhor animação e trilha sonora que deverá ganhar no Oscar deste ano. Por falar nisso, vocês também já ficaram imaginando, como eu, que a Pixar deve ser uma fábrica de formação de mentes criativas? Pois é realmente um trabalho incrível, seja no visual, nas concepções, no roteiro, na direção dos atores, no som, nas piadas internas. A gente fica até um pouco decepcionado quando vemos algumas falhinhas, ou não entregam algo tão excepcional, não? O que deveria ser normal, mas como é Pixar, a gente se decepciona um pouco – como em Onward, mas sobre os outros longas de animação indicados eu deixo pra comentar em outro momento.

Nas minhas imaginações, eu também já estive com John Lasseter numa sessão de criadores assistindo a um dos filmes do Hayao Miyazaki…

“Julia Child só fez sucesso aos 49!” – eu poderia, sim, morrer hoje (mais sobre isso nos comentários de Nomadland, a vir). Mas… quem sabe eu ainda não tenha uma chance de fazer algo? Afinal, continuamos vivos. Apesar da covid.

Globo de Ouro 2021 e a maior variedade entre os indicados

Esta semana foram anunciados os indicados ao Oscar, mas estou aqui registrando algo sobre o Globo de Ouro somente para aproveitar a deixa e comentar rapidinho sobre algumas indicações que já estão aí, na corrida pelo ouro mais conhecida do cinema mundial. Assim meio sem querer querendo, já comecei minha maratona anual devido ao Globo de Ouro (tudo bem, eu sei que nem se compara o número de votantes de cada um), já estou na metade do caminho!

Aliás, como teríamos um intervalo maior aí entre os Golden Globes e o Oscar, meio que fui indulgente e me permiti até tentar ver o Critics’ Choice Awards (dormi no meio), apenas para me decepcionar um pouco, porque não sabia que tem vários prêmios que eles nem entregam na hora, só anunciaram numa lista. E achei que tenta ser engraçadinho mas não consegue – bem, talvez isso seja simplesmente porque eu acompanhei com a interpretação em português, e por mais que os tradutores se esforcem, piadas realmente são muito difíceis de funcionar transpostas nessas condições.

Algo que senti falta ao ver o Globo de Ouro este ano, pra mim sempre era meio que uma oportunidade de a gente participar de uma festinha junto das celebridades, nada para se levar muito a sério; daí, como a festa teve que ser virtual devido à pandemia que vivemos (e revivemos, e revivemos), acho que faltou um pouco desse climinha mais descontraído, com a plateia dando risadas das piadinhas. Bom que teve pelo menos um ganhador que brindou com champanhe – e direito a Bill Murray brindando de volta com seu próprio drink (onde ele estava? Relaxando em Miami?).

Desta vez também não teve “olha que vestido espetacular!”, mas pelo menos euzinha fiquei é gostando de observar as casas ou pelo menos o fundo escolhido por cada um para a ocasião. Uma graça a Jodie Foster e a companheira vestidas de pijamas e o cãozinho com lencinho combinando. E eu imaginava que a família era grande, mas ao ver Goldie Hawn, Kurt Russell e Kate Hudson compartilhando o momento, xenti, isso é aglomeração, hein! Jason Sudeikis também fez muito sentido com seus moletonzinhos (look tão aprovado que foi usado também no Critics).

Sim, adorei o discurso da Catherine O’hara (querida desde Esqueceram de mim, nem vou contar Beetlejuice), com o marido cortando-a levantando a música como se fosse uma grande premiação temporizada pela orquestra, meu favorito da noite. Um prêmio que me deixou contente, também levando o Critics’, foi para O gâmbito da rainha, porque realmente foi uma série inusitada, bem cuidada, muito primorosa.

Tina e Amy fizeram uma boa apresentação inicial, sem insultos gratuitos, e foi ótimo já ter partido deles um compromisso por mais diversidade entre os membros da Associação de Imprensa Estrangeira de Hollywood. A questão da “corrupção” eu nem sei se realmente vale a pena a gente se exaurir, né, presentinhos e cada um tem sua consciência, sei lá, pra mim é como política, melhor não mexer muito no andor porque eu nem domino tanto assim do caldo. Cinema e séries pra mim são meu lugar feliz, então deixo essas conversas pra quem realmente influencia opiniões.

Um ponto que achei bem interessante é que entre os indicados me parece que há um reflexo de todo o movimento em defesa dos negros, todos os protestos #blacklivesmatter parece que deram resultados por aqui também. Embora tenha me incomodado um pouco ter 4 candidatos de melhor elenco no Critics’ compostos por negros e o vencedor ter sido Os 7 de Chicago – claro, esse conjunto de atores trabalhou muito bem, só estou pontuando… e, bem, esse filme também inclui o tema.

Realmente sinto que há mais representatividade e variedade entre os indicados, um novo fôlego aí pra gente acreditar que finalmente poderemos ver reconhecimento de qualquer filme, são os filmes para todos. Adoro ver diretoras mulheres e mais presença asiática também. Não sei por quê, mas sinto que a inclusão de Minari por aí também tenha ligação com o surpreendente e histórico Oscar para Parasita ano passado.

Quando eu era criança e sonhava em ser diretora de cinema, imaginava que seria uma exceção, uma pioneira, espécie de desbravadora, porque quase nem ouvia falar de mulheres diretoras de cinema. Daí outro dia eu tava até vendo uma comédia romântica pra ver algum trabalho anterior da Jac Schaeffer, e não foi o primeiro caso de uma mulher que tem no histórico comédia romântica, euzinha mesma me imaginei que poderia era começar por aí. Hoje em dia eu já nem acredito que um dia vou conseguir fazer cinema, mas dá pra acreditar em diretoras/produtoras/escritoras ganhando Oscar, sim!

Já sabem então que minha torcida vai pra Chloé Zhao este ano, né? Apesar das polêmicas chinesas, porque os EUA também é um país misto como o nosso e deveria mesmo é aproveitar a oportunidade e mostrar pro mundo que a gente não precisa ter só uma cor ou uma etnia pra nos identificar. E o cinema, como todas as artes, é muito maior que tudo isso.

Como o Mandaloriano me fez querer ver a última trilogia (e não, não valeu a pena)

Ai, tá, tá, tá. Não é esse título que deveria ser o post, porque tem algumas séries que eu andei vendo e achei até bem legal e preciso deixar registrado por aqui para que esta memória frágil possa relembrar num futuro como foi este início de ano – sem maratona de filmes de Oscar encavalando com a vontade de ir pro bloco de carnaval que toca Beatles! Pelo, menos por enquanto, vamos ver como vai se dar essa tal festa lá por abril, toda remodelada (à força) (como sempre muita gente reclamou que queria, que mudassem).

Sim, eu vi Bridgerton (2020), como se estivesse de bobeira, me senti como uma daquelas donas de casa com vida monótona que compra romances baratos cheios de cenas “quentes” e sensuais – só que, não, não me importei de não ter tantas cenas de sexo, pra dizer a verdade, eu nem sabia que era uma série assim soft porn, eu comecei a ver só pra me deslumbrar com a direção de arte, os belos vestidos e a decoração dos bailes… Mas sabem que até que surpreendeu, tem até uma vibe bem feminista, com a personagem principal sempre repetindo que só por ser mulher não significa que ela não possa fazer escolhas, e tem a escritora secreta – se fosse eu, deixaria no ar, no mistério mesmo e não revelaria assim tão cedo quem é a escritora (narradora de voz original Julie Andrews!), acho que eles ficaram com medo que poderia não sair da primeira temporada – nos livros base esse mistério é revelado só lá pelo quarto livro, me parece.

Mas se é pra falar de uma série que me surpreendeu mesmo, tenho que mencionar a recém-chegada brasileira, Cidade Invisível (2021), que mistura trama policial com uma pegada ambiental e o folclore brasileiro numa abordagem mais “adulta” (andaram chamando de Sítio do Pica-pau amarelo para adultos?!). O animador brasileiro nas gringas, Carlos Saldanha, já tinha trazido elementos bem brasileiros em Rio (2011)***, o que casa bem em querer resgatar essa tradição de lendas do folclore, mas de um outro jeito para o público atual; não me admira que ele seja o criador e produtor executivo, me admirou é essa pegada mais visceral, que inclui mais violência e cenas meio obscuras. E a série é bem feitinha mesmo, gosto do roteiro, com as mortes às vezes inesperadas; da direção, que trabalha bem com seus atores e as possibilidades do olhar e imaginação do espectador; os efeitos quase sempre funcionam (o cadáver virando borboletas); a edição também, afinal, temos que montar um mistério, mesmo quando tudo já parece resolvido; Alessandra Negrini com roupitchas que lembram mariposas ou a bela personagem Iara que mesmo em terra usa um casaquinho que lembra escamas ou um top de conchas são pontos de acerto do figurino, embora a ambientação da casa da menina Luna parece meio artificial, com tudo muito novo.

O único adendo é que provavelmente será igual a 3% (2016), que até gostei bastante da primeira temporada, ponto positivo pro Netflix, abraçando aí esses projetos, mas… acabei não continuando. Mas isso é problema particular meu, que não consigo acompanhar séries por muito tempo. Se eu vejo que tem muitas temporadas e ainda não acabou, aí é que eu não vejo mesmo…

Isso aliás me lembra de deixar registrado aqui que venho me divertindo bastante com esta primeira temporada de Wanda Vision (2021). Meu interesse maior em ver foi, é claro, essa proposta inicial de cada capítulo emular um capítulo de série de TV de determinada época. Tivemos da TV dos anos 50, 60, 70, 80, 90… e tudo foi muito divertido!!! Claro que com uma equipe de produção caprichada como da Marvel (Disney), a pesquisa e a entrega de um visual perfeito seriam de se esperar, mas as brincadeiras que eles fazem na situação de cada “época” tentando esconder sua real condição – de super poderes – já vale a pena. Realmente, é um entretenimento de primeira, apesar de que eu provavelmente não vou continuar acompanhando isso por muito tempo; até todos os filmes do universo Marvel no cinema eu não consegui acompanhar muito bem não, já estava cansada dos heróis, acho que perdi o último do Homem-Formiga e não sei quantos mais…

Com isso tudo, incluindo terminar a série Mandou Bem versão francesa (gosto de ouvir o francês e o apresentador gordinho é engraçado, a chefe Noemie também é um doce), até parece que depois do ano maluco que vivi em 2020 estou tirando um hiato, alguns meses de pasmaceira, ficamos semanas mais tranquilas em Curitiba, no final do ano, depois meu esposo tirou uns dias de férias, e por alguma razão parece que eu ainda estou devagar no andor, será verdade aquela minha teoria de que meu ano só começa depois do Oscar?

Ou talvez minha vidinha seja assim daqui pra frente, chega de tanta, tanta coisa, talvez tenha chegado a época da minha vida em que eu possa ficar um pouco mais tranquila, relaxada, parar de sofrer tanto por pouca bobagem, sabe?

O que significa que talvez eu passe alguns anos só vendo filmes leves, e que perfeição receber de presente um canal só da Disney pra alegrar um ano muito, muito difícil, não? Sou muito suspeita, porque adoro muita coisa da Disney e Pixar, então posso dar a desculpa que estou vendo as produções por causa da minha pequena, quando em verdade estou é fazendo uma graça para meu próprio coração. E prometi no post passado, realmente já começamos com Jon Favreau e o ótimo The Mandalorian (2019-), que todo mundo já tinha visto e eu não, mas valeu muito maratonar – aliás, maratona que passou muito rápido! Não só pra me derreter com o baby Yoda, mas as cenas de ação são o forte do diretor e não deixam a desejar. Apesar de que em determinado ponto a gente meio que previu que seria uma aventura por episódio em algum lugar só para ganharmos alguma informação, mas cada aventura foi bem interessante. E a Starbucks do Battlestar Gallactica e a Ming-Na Wen como personagens deste universo são só brindes! Eu me surpreendi é que teve episódio dirigido pela Bryce Dallas Howard (quanto ela era criança presenciou uma conversa entre Lucas e Kurosawa? É isso mesmo, confere produção?), nem tanto pelo Taika Waititi, e claro que gostei mais é de saber que tinha super fã de Star Wars envolvido. Já gostei desde cara do androide inicialmente programado para matar que também se sacrifica à la Exterminador do Futuro (quando ainda era bom), os personagens coadjuvantes também são marcantes à sua maneira e torna tudo mais interessante. A própria história do Mandaloriano e seu povo, conhecer outros cenários dessas galáxias distantes, cada episódio é como um mini filme mesmo.

Antes de começar a ver, cheguei a me arriscar a dizer que poderia gostar mais desta série do que toda a trilogia mais recente que andaram fazendo e… bem, com algumas ressalvas, até posso dizer que funcionou meio assim mesmo, viu. Pôxa, desculpem. É até maldade fazer isso com George Lucas, mas eu só gostei de verdade foi da primeira trilogia, a antigona dos anos 70/80. Era como o encanto de um universo completamente fantástico, novo, era mágica na galáxia. Daí, imaginem minha emoção ao ver aquela sequência no final da segunda temporada, X-wing, sabre de luz verde, mãozinha… (e eu já tinha aquela intuição bem antes, lá no fundo, você pensa “algum Jedi tem que buscar esse pequeno, por que não…?”) e quase toda a internet já sabe, se emocionou, Mark Hamill se emocionou com a emoção dos fãs. Isso sim foi sacada de mestre. Tanto que eu tive vontade de ver a saga da Rey e Kylo Ren, só tinha visto o primeiro filme até então, como seria o treinamento da nova promessa com o último mestre Jedi recluso numa ilha? Poderia ter sido fenomenal. E eu gostei daquele deserto de sal que deixava rastros avermelhados, gostei até da interação do Finn com a Rose, confesso que gosto do BB-8, mas chegou depois a última parte me parece que avacalharam de vez com o Palpatine e a Ray manipulando uma nave inteira, essa personagem meio que coloca por água abaixo o suposto árduo treinamento que se deveria ter para dominar a força. Pra mim, a última trilogia serviu apenas para destruir toda a mitologia, acabar com nossos personagens tão queridos – todos se foram!!! quer dizer, menos o Chewie e o R2-D2. É uma das razões de eu ter ficado tão sentida com Logan (2017)****, apesar de admitir que este sim seja um filme muito bom.

É, eu não sei se vou continuar até mesmo essa série que me divertiu muito, agora que não vou ter mais cuti-cuti do Baby Yoda pra ficar toda hora na frente da TV dizendo “óin” e pensando em como ele parece com a baby Yu – não contando alguns quesitos, claro, como o fato de ele comer sapos ou engolir os ovos que eram para ser salvos (“não, baby, não!” – é uma das frases muito repetidas nos últimos meses aqui em casa!). Mas fato é que eu já me rendi. Que filmes cult que nada. Minha vida sempre foi muito e pode continuar sendo Disney, tudo bem, que mal tem, tô fazendo mal pra ninguém! Ah, sim, este post não contêm comentários dos poucos filmes vistos nesse meio tempo, mas Soul (2020)*** deve ganhar seu post próprio, porque é um assunto muito especial e à parte…

Voltando no tempo com os 30 anos de Esqueceram de mim

Era pra ter escrito um pouquinho sobre Um duende em Nova York (Elf/2003) ***, um filme que ganhou a simpatia de muitas pessoas e não foi senão até esse último dia de Natal quando consegui conferir, e até que é divertido de assistir, né, rende algumas risadas – apesar de eu não gostar tanto do Will Ferrell, muito menos desses filmes que ficam querendo vender a ideia de que Papai Noel existe. Eu nunca acreditei, em nenhum momento da minha infância, e honestamente acredito que foi melhor assim. Mas é bem divertido sim imaginar esse cara que nem tinha noção de que não era um duende ter que enfrentar com toda a inocência a cidade de Nova York na época de Natal. Fiquei feliz de finalmente ter visto, ainda mais depois que soube ser dirigido pelo Jon Favreau, cara que tem se tornado um dos meus parsas nos últimos anos; anda me surpreendendo e este ano pelo jeito vou passar muito tempo com ele, a primeira resolução do novo ano é repor O Mandaloriano.

Nesse final de ano também acabei revendo O Grinch (How the Grinch stole Christmas/2000) *, pra tentar dar uma segunda chance, mas ainda acho muito bizarro e um tanto obscuro para crianças, sendo que, pra mim, a única coisa realmente boa é a questão materialista de como todos só pensam nos presentes, comidas e decoração, mas o espírito natalino de amizade e empatia pode ser maior que tudo isso. (Não, não acho que Jim Carrey esteja bem, é apenas um exagerado e teve outros papeis que lhe caíram muito melhor)

Se é pra pensar em filmes com o tema natalino, o primeiro que me vem à mente, por ser tão presente durante minha infância, ano após ano, é Esqueceram de mim (Home Alone/1990)***, que em 2020 completou 30 anos. E não importa quantas vezes eu revesse, eu sempre ria muito, adorava o fato de Kevin gostar é de pizza de queijo e nada mais, e nos meus anos mais solitários sempre pensava em comer só macarrão com queijo de ceia. Eis que decidi então ver um dos episódios daquela minissérie no Netflix sobre Filmes que marcam época. E foi ótimo saber algumas das curiosidades da produção, percebi como gosto de John Hughes – claro, cresci como jovem nos anos 80! E, pôxa, ele escreveu o roteiro de Curtindo a vida adoidado (1986)*** em 7 dias?!

Sim, eu voltei no tempo, quando fiz 10 anos (em 1990), ganhei o primeiro diário e em vez de escrever brincadeiras de menina, paixonites juvenis, eu usei foi para escrever um esboço de roteiro (que eu nem sabia à época que se chamava roteiro). Meu primeiro filme seria uma produção de Steven Spielberg, e o Macaulay Culkin teria o papel do mocinho, mas a heroína seria mesmo é uma detetive de 13 anos que gostava de ler Agatha Christie, desvendando o mistério de sumiço de grandes monumentos pelo mundo: a torre Eiffel, o Monte Fuji, pirâmides no Egito, o Cristo Redentor… com direito a primeiro beijo em tela (meu e do Mac), efeitos especiais, mistura de desenho animado e live action. Quando a gente é criança, ou simplesmente jovem, a gente acha que pode tudo, não é?

Voltei no tempo em que eu pensava que eu poderia ser uma grande escritora, que poderia escrever roteiros à mão como Tarantino, ou uma roteirista hábil e ávida, como John Hughes. Um desses que nasceu para o ofício.

Daí, meu último filme visto em 2020 me deixa resignada a esta realidade inimaginada, porém impossível de negar, já que é a real. Estou pensando em acabar com tudo (I’m thinking of ending things/2020)*** é uma bela brincadeira com o tempo, com a memória incluindo a sensação – talvez a percepção? Talvez vislumbre ou imaginação futura? – do momento, das possibilidades, do que queríamos que fosse e perdemos. Com personagens que transmutam, de feição, de idade, de disposição, e uma bela dança figurada no final.

É, podem perceber que tive alguns dias mais amenos no final do ano passado, até vi filmes! Eu já tinha ficado um ano inteiro sem ir ao cinema, assim que me mudei para o Japão aos 14 anos, pois vivíamos no interior e era longe uma cidade com sala de cinema. Este ano de pandemia trouxe salas fechadas, mas com nossa atual tecnologia, a disponibilidade de aproveitarmos streamings, até festivais de cinema por esse meio, ressurgiram os drive-ins! Mas eu, com uma baby pra cuidar, acabei ficando mais um ano sem ir ver uma tela grande. Não que o cinema não se fizesse presente, o cinema, as artes, estão sempre vivos ao nosso alcance, nem que seja em pensamento, em sentimentos, em memórias, em sonhos, em esperanças…

Outros animais vivem no presente. Humanos não conseguem, por isso inventaram a esperança. ( a jovem mulher, no filme mais recente do Kaufman).

Ah, tá. Só pra vocês não reclamarem que estou terminando este primeiro post do ano de forma melancólica demais, eu já consegui repor nestes primeiros dias algo que todo mundo viu no ano passado e eu não: O gambito da rainha (que talvez vá ganhar um post só dela, porque é uma série bem boa mesmo).

Tá vendo só? Não apenas começo o ano com muita incerteza – o que vou fazer da minha vida? O que vai ser do meu futuro, do futuro a minha filha do futuro, enfim? Não só de confianças infundadas em vacinas começamos. Começamos com uma garota forte, determinada, diligente e dedicada em sua grande paixão (no caso, o xadrez), que ganha o mundo, apesar de ter que lutar com seus próprios vícios, fraquezas. 2021 está apenas começando, e ainda há muito o que viver, minha gente.

Missão Presente de Natal

(Operation Christmas Drop / 2020) **

Foi só eu que pensei que este casal, pelo menos na aparência, lembra o príncipe Harry e a Megan Markle? Claro que a narrativa em si de como se conheceram não tem nada a ver, acho que estou viajando mesmo, mas juro que quis ver o filme pra ver se tinha alguma referência!

Fora isso, todos os anos eu penso em ver alguns filmes com o tema natalino e chega próximo dos dias de festa acabo não vendo nada, então já decidi ir vendo alguns, só pra distrair mesmo, porque tem épocas na vida que a gente também precisa só disso mesmo.

Sou uma quase especialista em comédias românticas, de tantas que já vi, e ando gostando de ver algumas que mostram realidades diferentes, personagens mais fortes e independentes, sinais dos tempos. Neste daqui, eu acho bem bonita a Kat Graham, atriz que faz a Erica,e até achei carismático o rapazinho Alexander Ludwing, mas a parte do romance soa meio forçada; nem precisava ter romance, mas acho que tinham vendido a ideia de um “romance de Natal” e aí tiveram que fazer isso.

O que eu realmente gostei foi de conhecer essa iniciativa das doações que existe no mundo real, que eu não conhecia e ver o povo local, a festinha, imaginar os voluntários, isso valeu a pena. Acho que é um filme gostoso de ver assim, ainda mais neste ano que precisamos tanto contar com a união de todos…

E o que isso tem a ver com o budismo?

Talvez algo que seja comum a tantas outras religiões: a filantropia, o pensar no próximo. O ato de doar sem esperar nada em troca é o altruísmo do qual sempre falamos, que faz até mais bem para a própria pessoa engajada numa causa do que para quem recebe. Pelo menos pela escola budista que sigo, é por atos altruístas que podemos mudar a nós mesmos e o nosso redor, para melhor.

A cena em que a senadora (congressista? Não lembro ao certo mais) agradece porque foi lembrada sobre a razão de ter se envolvido em política em primeiro lugar é também forçada, eu acho, mas eu gosto. Como se fosse uma esperança natalina, sabe? Eu mesma nunca acreditei em Papai Noel, mas deve ser algo assim, não? Ah, se na vida real essas coisas realmente acontecessem na política… seria um ótimo presente de Natal.

Mesmo na Mostra do #ficaemcasa eu não consigo

Hoje de manhã o tempo em São Paulo era friozinho, nublado e chuvoso, tipicamente me fazendo sentir saudades dos dias em que eu enfrentava esse tempinho na correria entre salas de cinema para alguma sessão da Mostra Internacional de Cinema. Mesmo no Dia de Finados, como não tenho entes queridos próximos em algum cemitério da cidade, só no interior do estado, pra mim era dia de Mostra. Quer dizer, mais talvez a uns 10 anos atrás, porque nos últimos anos, nesta época, geralmente eu tinha que trabalhar mesmo e não dava pra ficar “internada” um dia inteiro no cinema.

Neste ano inédito a Mostra está praticamente toda online, e eu fico me perguntando se eu não estivesse com uma bebê em casa eu realmente conseguiria acompanhar mais de perto e ficar o dia todo vendo filmes? Deve estar sendo uma ótima, principalmente para quem mora longe, não ter que se deslocar até São Paulo, e os preços dos “ingressos” também estão muito mais acessíveis.

Deixem-me contar que na verdade, eu, sendo esta virginiana tão caseira, penso que me daria muito bem na pandemia. Eu realmente não ligo de ficar em casa, e se pudesse, provavelmente teria aproveitado para ler (que saudades de ler um livro! Ah, os tempos de Letras…), ver filmes, ter feito Master Classes online…

Na época do ensino médio, eu morava no Japão, num lugar isolado do mundo, eu estudava em casa e fiquei também um ano sem ir ao cinema. Porque para ir ao cinema eu tinha que me deslocar até uma cidade maior, fora que era algo caro, muitos dos cinemas eram de rua, embora eu já soubesse inglês e não teria problemas em ver um filme só com legendas em japonês. Sim, eu senti falta de ir a um cinema, da experiência coletiva, com aquela tela grandona e todo o nosso foco naquela história contada em imagens em movimento…

E os Drive-ins? Poxa, eu sempre me perguntei por que não existia mais disso no Brasil, daí agora eu nem consigo – temos que respeitar uma rotina com a bebê, banho e dormir cedo, fora que eu achei bem caro os ingressos. Tudo bem que eu gosto de 2001 – uma odisseia no espaço, entre outros clássicos que disponibilizaram nesse formato, mas se for uma pessoa sozinha, ou duas até, 65 reais é meio salgado pra quem andou perdendo emprego… sei lá.

Enfim, apesar das facilidades da internet, acho que ainda sinto falta da telona – e sempre será assim? Outra coisa que eu gostava era de que algumas sessões contavam com alguns convidados ao vivo, pra gente conhecer alguém da produção ou do elenco de determinado filme. Claro que é louvável o esforço de todos para continuar fazendo a Mostra acontecer, ontem mesmo eu vi a entrevista com a Naomi Kawase e com o Aaron Sorkin, talvez seriam nomes difíceis de estar presentes numa Mostra, exceto se fossem os homenageados do ano, e é uma ótima oportunidade para explorar o que dá “à distância”. Mas eu sinto saudades da Mostra “física” também.

Só queria compartilhar esse sentimento… porque apesar de gostar tanto, há momentos na vida que a gente tem outras coisas mesmo pra pensar e fazer. Não vão aparecer posts com comentários de filmes da Mostra deste ano de novo, mas o cinema continua sendo esse amor eterno, quem sabe daqui duas décadas a gente volte? Boa Mostra a todos e vou acompanhando um comentário ou outro por aí.

Quase uma rockstar – e o que isso tem a ver com budismo?

(All together now / 2020) *

Eu acho engraçado quando às vezes me deparo com algo que me lembra os Beatles e daí não tem nada a ver… tipo aquele filme com o Eddie Murphy – Imagine só (Imagine that / 2009)**, o pessoal responsável realmente gosta da banda, tinha várias referências e eu nunca teria imaginado que essa comédia que entra na brincadeira da filha pra faturar com seu trabalho teria isso… Aqui neste filme eu só vi que o título original era o título de uma canção dos Beatles no final, me interessei porque sabia que Auli’i Cravalho tinha feito a voz da Moana e acabei me decepcionando um pouco, porque confesso que não gostei muito da atuação “live action” dela. Sei lá, sabe quando parece que a pessoa tá sempre com o mesmo rosto?

A narrativa é de uma menina que acaba perdendo a mãe por um acidente causado pelo vício. A menina mora em um ônibus e tem que se virar com empregos aqui e ali, precisando ainda desistir do seu sonho de estudar música devido a uma cirurgia da única família que lhe sobrou: um cãozinho que ela sempre carrega consigo na mochila. Prato cheio para lágrimas? Bem, acho que depende da condução do projeto?

Sim, eu acabei soltando algumas lágrimas, mas não sei se foi pelas razões certas. Os amigos da menina acabam planejando um show de talentos em prol da cirurgia do cachorrinho, reunindo-se por alguém que sempre foi boa com eles. Apesar de ela sempre procurar fazer o bem para outros – animando senhorinhas de um coral, distribuindo donuts numa casa de repouso, incentivando os jovens talentos da escola – ela mesma é orgulhosa e em determinado momento o crush dela pede para deixar os outros a ajudarem.

E o que isso tem a ver com o budismo?

Sabe, uma vez eu fiquei meio encucada com uma espécie de crítica sobre o conceito de méritos. Costumamos dizer que devemos acumular méritos com boas ações para poder transferi-los – para espíritos, por exemplo, que já não estão neste mundo e não conseguem gerar méritos por si próprios. A crítica era sobre essa ideia de como se fosse um banco, como uma conta de poupança em que vamos acumulando méritos. Mas essa ideia é apenas uma ilustração, um jeito mais fácil de visualizar o conceito.

Acho que o mais importante não é focar em quanto mérito você está acumulando, mas nessa ideia de que nós estamos vivos aqui nesta existência terrena e podemos fazer algo bom em nossas vidas. Todas as ações boas vão gerar mais coisas boas, e isso pode acabar ajudando outros e retornando para você de diversas formas também. No caso do filme, a menina foi realizando essas boas ações, que retornaram para ela desse modo mais explícito, com as pessoas querendo ajudá-la inclusive financeiramente.

E outra questão é a da humildade. Às vezes precisamos admitir que precisamos de ajuda. Que não dá pra fazermos tudo sozinhos, e não tem problema nenhum nisso. Temos que nos permitir sermos ajudados também, até porque isso também faz bem à outra pessoa, e faz essa corrente de bem continuar fluindo.

As lágrimas vieram porque eu sou uma pessoa que sempre teve o pensamento de ser autossuficiente, independente, sempre meio que acreditei que precisava me virar sozinha e pronto. Talvez com a maternidade (a idade?) eu tenha amolecido um pouco, e nos últimos tempos eu tenho me aberto muito mais para aceitar a ajuda de outras pessoas também. Faz parte da nossa condição humana, nós estamos todos interligados, e não há nada de errado nisso.

Daí vieram as Wachowski e estragaram tudo

Muito calor já antes da primavera e ninguém mais liga pra pandemia, que nada, vamu pra praia e fazer churrasco, e beber e talz. Algumas vezes na minha vida julguei que nasci em país errado. Eu queria ver Tenet, mas não sei se vai dar. Eu gostei do Festival de Veneza acontecer. E nem sei se cheguei a comentar por aqui, mas quando da partida de Ennio Morricone deste mundo, fiquei triste, sim.

Acho que durante essas quarentenas teve muita gente que conseguiu ver várias séries e filmes, principalmente por streaming, alguns conseguiram ir a algum Cine Drive-in (eu bem que queria, no meu aniversário, mas não achei um filme interessante o suficiente, fora outros fatores). Eu me pergunto se eu não tivesse a bebê pequenina justo nestes tempos o que eu estaria fazendo? Teria eu conseguido ver todos os filmes da lista interminável de filmes que preciso ver antes de morrer? Ou maratonado séries que sempre acabei deixando pra lá? Nos últimos meses a única coisa que consegui ver foi Crazy Delicious – uma série em que os competidores precisam de muita criatividade para trabalhar com pratos e ingredientes inusitados, e tudo fica tão fantástico, eu gostei bastante. Mas é isso. Não consigo mais ver um filme inteiro de “uma tacada só”, eu vejo agora por partes. Calma, não estou reclamando. Sei que este tempo passará e tenho que aproveitar ao máximo meu tempo com a baby agora, pois logo ela crescerá e nem vai querer mais saber de mim. Será que a gente vai ver algum filme junto algum dia?

Na verdade, teve umas semanas aí em que eu estava pensando sobre o arrependimento. Será que eu deveria mesmo ter me casado e ter tido uma filhinha? Eu nunca fui uma pessoa “querida” pelas crianças, talvez a vida do meu esposo tivesse seguido por caminhos melhores com outra pessoa do lado. Talvez eu não sirva pra isso. Talvez eu devesse ter tido coragem e escolhido ficar sozinha, só vendo filmes, trabalhando com qualquer coisa, sonhando até a morte em fazer cinema um dia?

Bem, eu não tenho muita escolha agora, tudo o que posso é fazer o melhor que posso. E talvez eu tenha que me conformar que o cinema funciona mais para mim como um alento, um conforto, um carinho para a alma. Nunca vou trabalhar com isso, mas de vez em quando pode me trazer inspiração.

Outro dia fiquei muito chateada com uma das irmãs Wachowski comentando que o filme Matrix tinha a ver com essa questão de gênero. Este blog tinha como capa a cena do gatinho preto, do déjavu, que eu sempre brincava comigo mesma, “alguma coisa mudou na Matrix”. Era um dos meus filmes preferidos na história do cinema, e daí, de repente, pra mim, vieram elas e estragaram tudo. Eu não ligo que elas tenham optado por outro gênero sexual (ou você pode me considerar aquele tipo de pessoa que não acha que é preconceituosa, mas é, e também não vou ligar). É que pra mim Matrix era muito mais que isso, sabe? Eu até escrevi um post considerando algo do budismo que eu relacionava ao filme. Pra mim, era algo transcendente, tinha a ver com nossa própria existência, constituição como seres humanos, era muito maior do que a questão de gênero.

Tudo bem, vai acabar ficando só como mais um filme. É parecido com o George Lucas que, pra mim, estragou a trilogia original do Star Wars. 10 anos atrás eu me empolguei muito com A origem do Christopher Nolan, talvez eu me arrependa de querer ver Tenet. Os tempos mudam, nós também, provavelmente. Ou simplesmente fazemos certas escolhas e daí não tem mais jeito, tem que lidar com o que tudo isso envolve.

Daí eu estava vasculhando os arquivos da minha memória afetiva para encontrar um filme que sempre morou no coração e nunca serviu de capa pra este blog. Algo que me fez pensar que a seção de Top 5 também precisa de atualização, e eu preciso ser mais honesta comigo mesma. Não vai ser Um corpo que cai que vou querer ver empolgada junto com a minha filha.

Eu quero que ela veja Hayao Miyazaki, O fabuloso destino de Amelie Poulain (quando já for adolescente), as aventuras do Spielberg ainda criança. O tempo pode ter passado, mas eu ainda continuo sendo uma comédia romântica. E o E.T., ao que parece, nunca vai deixar de ser um dos que mais me encantam (acho que o Spielberg não vai conseguir mais estragá-lo, será que vai?).

Repensando um trabalho audiovisual

Nem dá pra acreditar que já faz cinco anos que acabei largando aquela graduação em audiovisual. Esses dias eu estava de TPM, só pra contribuir com o que chamam de inferno astral, e repensando por que tanta exasperação na minha vida. Tipo, e se eu soubesse que nunca faria filmes, nem ganharia Oscar nenhum, que talvez eu simplesmente tivesse que me conformar que o cinema não é pra mim mesmo, como tantas frustrações já me demonstraram e eu nem quis ver (a última, um concurso para a canção Here comes the sun, mas eu nem fiquei pra baixo, não esperava nada mesmo, só foi divertido imaginar um clipe para essa que é uma das minhas favoritas dos The Beatles). Talvez, se eu pudesse voltar em algum momento do passado, eu diria “calma aí com o andor, que nem precisa de tudo isso não”. Eu acho que escolheria o ano de 2003, pra não fazer outro ano de cursinho para tentar vestibular para o curso de audiovisual na USP, e escolher fazer o curso de teatro e ir trabalhar com dublagem – o que imagino que seria um trabalho que eu realmente gostaria de fazer, e teria escolhido fazer o curso de Letras em japonês, não tendo que pagar a faculdade e aprendendo um idioma que, sozinha, não consigo mesmo aprender, para poder trabalhar com traduções nessa área. E não me exasperaria para ter aquela vida dos sonhos hollywoodianos, simplesmente me contentaria com isso mesmo, por que mais?

Sabe, eu não me arrependo de ter largado a facu de audiovisual, porque sei que não ia conseguir aproveitar bem mesmo, e não dava pra desistir do emprego, porque daí não daria pra pagar o curso, enfim. Mas lembrei de um dos primeiros trabalhos que um dos professores pediu pra gente, fazer um vídeo curto mostrando quem você é. Dia desses eu estava flertando com a ideia de fazer vídeos para postar no YouTube, e daí lembrei. Na época, fiz algo que a maior parte dos outros alunos tinha feito, mostrando coisas que eu gostava, no meu quarto, que pra mim também significavam momentos da minha vida.

Mas se eu fosse refazer esse trabalho, acho que pensaria diferente. Talvez abriria com um close numa tela de computador como se estivesse sendo escrito um roteiro.

INT. ESTÚDIO DE PROGRAMA DE ENTREVISTAS – DIA –

E então eu mesma apareceria, imaginando estar sendo entrevistada, “Tá brincando, né, me definir em uma palavra?” Porque não existe só uma palavra que possa definir a gente, não é mesmo?

Entraria então um cantarolar “You may say I’m dreamer, but I’m not the only one” – sim, essa famosa Imagine do John Lennon é uma das minhas canções prediletas, junto com What a wonderful world do Louis Armstrong, eu posso ser bem piegas assim. Ou, digamos, bem clichê. Mas me define bem: uma eterna sonhadora.

Talvez poderia aparecer eu abraçando minha gata, ou meditando ao lado de uma imagem de Buda, não muito mais do que isso.

Pensando bem… Mesmo depois de tantos anos acho que continuo sendo essa mesma pessoa (isso é triste?). Claro que a gente vai ganhando experiência com o tempo e tem que ceder em alguns pontos, claro que eu não imaginava a minha vida assim aos 38. Mas ainda choro com alguns filmes, ainda sou bem “na minha” – muito gente por aí entediada com tanto tempo em casa. Eu gosto, na verdade. Minha aflição maior é de não ter tempo pra fazer algumas coisas que eu gosto. No meu aniversário, por exemplo, eu só queria ver um filme, escrever e comer um pedaço de bolo de chocolate. Não consegui nenhum dos três. E pra “ajudar” eu ainda estava sofrendo com resfriado no dia anterior!

É que agora eu tenho que cuidar de uma outra pequena, né… Pra quem vê de fora, pode parecer algo simples, mas ela me toma o dia inteiro, e entre fazer os exercícios (inclusive de fisio), fazer e dar papinha, fazer e dar o leite, trocar fralda e dar atenção – não, ela ainda não fica sozinha brincando, se sente abandonada apenas com 5 minutos! – fico bem cansada no final do dia.

Tudo bem, eu já havia pensado anos atrás que não podia querer mais nada desta vida. Significa que eu estou de sobrevida, que deverá servir para me dedicar tão somente à essa nova vidinha que trouxemos a este mundo. Para que ela fique bem e seja capaz de aproveitar esta experiência terrena da melhor forma.

Então fica aqui meu post aniversário. Não pude sair por aí como em outros anos, e não foi só por causa da quarentena, não tentei coisas mirabolantes ou aproveitar ao máximo numa auto indulgência tirando o dia só pra mim e pra fazer só coisas que gosto. Mas tudo bem. Esta já não é a idade pra isso. Entro na minha era de sobrevida, algumas coisas a gente tem que deixar, se desapegar, pra cuidar de outras que também importam muito.

Ainda sonho? Claro que sim. Ainda acredito que cada um pode fazer sua parte para vivermos num mundo bom. E gostaria de compartilhar coisas boas, contribuindo para expandir a positividade nesse sentido de um mundo melhor. Mas calma aí nesse andor, tenho consciência de que a gente acaba fazendo o que dá, né. E tudo bem.

Orgulho LGBTQI+ e uma comédia romântica

Então parece que este mês é do orgulho LGBTQI+ – e confesso a vocês que eu, na minha perdida da década, tinha é parado no LGBT e nem sabia que a sigla tinha crescido. Este mês de junho geralmente São Paulo seria uma cidade que veria a famosa parada, que já foi cenário até daquela série de grande produção das (hoje) irmãs Wachowski, Sense 8. Série que tem umas cenas bem picantes, por falar nisso, tem personagem lésbica e trans, e tudo o mais, e levanta a bandeira com todo o orgulho, o que não é de se admirar, considerando as criadoras. Este ano não vai ter parada, mas me peguei, através do cinema, relembrando desta época de uma maneira um tanto inusitada: por uma comédia romântica! Quem diria!

Eu adoro comédias românticas, deveria escrever um longo post só sobre as minhas favoritas, quem sabe, mas admitamos que a maioria dos exemplares desse “gênero” pode trazer uma narrativa bem convencional. Na maioria das vezes é o cara e a garota, que se conhecem, tem algo que impede ficarem juntos e no final, é claro, ficam juntos. Dentro do panteão das comédias românticas, tem uma que eu queria rever e por acaso quando eu fui procurar ia passar no Telecine e eu pude assistir – assim, de gracinha, ó deuses do cinema, vocês devem se divertir ao me ver ganhar de presente os filmes assim e ficar tão feliz.

Só tinha uma vaga lembrança dos tempos de pré-adolescente, mas Alguém muito especial (Some kind of wonderful / 1987) ***  me surpreendeu agora que sou bem adulta. E não é que os diálogos não são os habituais previsíveis, nem soam forçados ou elaborados demais. E o filme não envelheceu mal em seu tema, sendo mais sensível do que poderíamos esperar. Tem uma garota que é um estilo meio punk-rock, mas que se apaixona pelo melhor amigo, que por sua vez se interessa pela garota mais linda e popular da escola. Sim, a trama é a mais velha do mundo, mas é um filme escrito pelo John Hughes, minha gente! Esse cara que teve ótimos momentos de roteirista, principalmente retratando a juventude de uma forma mais real, relacionável e não menos cool do que muitos por aí, gerando alguns dos melhores filmes para esses jovens anos 80 (incluindo eu) – hello, Curtindo a vida adoidado (1986)****, Clube dos cinco (1985)***!

Daí, hoje eu estava vendo uma lista de frases que provavelmente a gente já ouviu alguém dizer, ou talvez nós mesmos digamos, nesse tema LGBTQI+… que nós temos que parar de dizer. Não é que me lembrei dessa comédia romântica dirigida pelo Howard Deutch. Aliás, um adendo divertido a se notar: o cara se casou com a Lea Thompson, que faz a menina mais linda do filme (e a mãe do Marty Mcfly, só pra constar), e eles tiveram uma filha que hoje em dia… faz comédias românticas! hahaha. Voltando ao filme e ao tema em questão, a personagem da Mary Stuart Masterson (a melhor amiga Watts) é questionada em determinado ponto sobre usar cuecas, no vestiário feminino. E o próprio amigo vivido pelo Eric Stoltz comenta com o pai que ele não é lá muito popular, tendo uma amiga homossexual. Ou seja, ele mesmo acha que a menina, com esse jeito dela, não sentiria atração por um homem.

Não é quase que uma subversão que Watts realmente seja apaixonada pelo amigo? É John Hughes jogando (mais uma vez?) na cara de todo mundo que não importa os estereótipos que possamos ter inculcado na nossa convivência social, jovens são (e devem ser) livres para experimentar e para se descobrirem, se divertindo no caminho. E daí que ela se veste como um menino, fora do padrão para a época?

Por trás daquelas frases que a gente tinha que parar de dizer na lista havia exatamente esse conceito. Temos que parar de esperar um “padrão” para aprender a respeitar a liberdade de escolha e orientação de cada um. Tinha aquelas frases típicas, como parar de falar “voz de traveco”, ou mesmo que “só porque é gay não precisa dar pinta”, “você não parece gay”, “que desperdício!”, entre outras. Diz aí, John Hughes já cantava essa bola muito tempo atrás.

E o filme ainda tem alguns outros pontos a favor. Aquele carro velho da Watts é ótimo! E a menina popular pode sim ser sua amiga. E a irmã chata pode sim se sensibilizar quando parece que você vai se dar mal. E o valentão pode sim ser um artista. É um filme de comédia, mas seus personagens não são planos, o que faz toda a diferença. Taí, eu nunca ligaria esse filme à esse tema, mas são por esses momentos surpreendentes que mais nos divertimos no cinema, e na vida, não?