Algo que cinge (fragmento épico)

A chuva era torrencial. Como suas lágrimas. Encolhida sob seu manto, observava as gotas batendo no vidro da enorme janela que a protegia da escuridão exterior. Em intervalos irregulares, o relâmpago de raios, seguido pelo estrondoso trovão, deixava um clarão em que se percebia a miséria e a perdição daquela terra.

– Acha que teria sido diferente? Se soubessem, se tivessem consciência, de que estão levando a si mesmos ao seu próprio fim? Acha que teriam agido de outra forma e poderiam, desta vez, se salvar? Ou será uma espécie fadada à extinção, independente de quanto tempo passe, de quantas vezes a mesma história se repita?
– E tu? Não tens medo de mim?

Silêncio.
– Foi um massacre. E eu permaneço impassível, nenhum choque, nenhuma lágrima. Lembra-te de toda aquela comoção, por aquela criança tão pura, morta em um crime premeditado, por pais de falso remorso? Lembra-te de como multidões se apavoraram diante da ameaça fundamentalista e de como eu não via sentido para todas as providências tomadas pelo representante daquele povo? Deve, ainda, estar fresco em tua memória. A falta de sentimento diante daquela catástrofe que comoveu a tantos. Tu continuas a me acompanhar nesta jornada? Não tens medo?
– A tua força és descomedida. Continuo. Não por promessa ou dívida. Por acreditar. Se existiu alguém na face desta vasta terra, com quem já encontrei e acreditei que pudesse salvar a toda esta gente… És tu.
– Como? Como sabes que ao subir ao poder, simplesmente não aniquilarei toda esta gente fraca e vil?
– Pois sei que tuas lágrimas não são por nojo. Nem por medo. Não são porque não querias estar aqui. Tuas lágrimas discorrem da falta de luz. Do desperdício de tempo. Por saber que dentro de cada pedaço de vida, mesmo neste lugar, existe algo que cinge.

Reflexão.
– Por quê? Por que esperam pelos grandes nomes, por grandes feitos? Por que a impotência, a falta de crença? Não sabem que podem ser heróis só pelos pequenos gestos, à sua volta, apenas com o que está ao seu alcance…
– Partiremos sem tardar após o breve descanso, majestade. A jornada ainda é longa.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s