Japão 2011 – Poslúdio

Sem “prelúdio” ou “interlúdio”, que eu poderia ter escrito, mas não foi, é preciso concluir a saga, não é? Porém, estas são notas dispensáveis, sugiro ao leitor que pule esta parte (são mais reflexões minhas do que sobre a viagem em si), e, na verdade, estende-se a um bom tempo depois da viagem. Então pule, leitor. Exceto se você, como eu, gostar daquela pitada de romance na trama. “Amar”.

É, eu tinha dito que ia ficar devendo – o final feliz. Mas o amor existe em tudo neste mundo e a gente pode incluir aqui também.

     Na mesma semana em que parti para o Japão tive alguns dias de comoção emocional, relembrando da separação com a última grande paixão da minha vida – toda a falsa esperança que eu criara, o desespero, o sentimento de traição, a depressão, as lágrimas infindáveis e inevitáveis, todas as coisas que eu não sabia e aprendi sobre relacionamentos (homens).

     Aí lembrei também de como eu sofri(o) por ser sozinha. Espiritualmente, indicaram-me uma vez um espírito que sofreu muito de solidão – e acredito ser verdade. Por mais que, aos 19 anos, eu já dizia que nunca ia casar ou ter filhos, a grande verdade é que passei grande parte deste tempo na Terra sofrendo por isso. Seja falta de amigos, um amor ou uma família carinhosa. Daí… tenho 2 causos pra contar.

1) Lá no Japão, a moça da Alemanha que dividiu o apartamento comigo tinha acabado de se casar. Ela se casara dia 07 e chegara no Japão dia 11. E disse que eu conhecia o marido dela! Mostrou-me uma foto pelo celular…….. era um rapaz de quem eu tinha gostado no ano anterior! Muita coincidência. Sério. Não existem coincidências. Sério.

     Este rapaz não tinha sido uma grande paixão nem nada, mas eu poderia ter ficado muito put@ com o universo, não? Poxa, com tantos lugares pra ela ficar, tinha que cair justo no meu apartamento? E eu ouvindo as histórias de cumplicidade dos dois? Mas eu não fiquei revoltada não. Tinha trocado só alguns emails com ele, encontrei-o 2 vezes no ano todo, nada demais. E a Veronika me contou. Contou sobre como ela tinha ficado mais de 10 anos sem ninguém, de como ela sofria por estar sozinha, de como ela implorara aos céus para lhe trazerem alguém e que muitas vezes não se conformava – por que só ela? Todas as amigas tinham namorados ou estavam se casando. Achava que ninguém iria querê-la mais. Achava que ia ficar sozinha pro resto da vida.

     Mas hoje ela conseguia perceber que fora melhor assim. Que “os céus” a estavam preparando para a pessoa certa – e o momento certo. Ela tinha conhecido o atual marido há muito tempo antes, mas foi só por incentivo de alguém do templo que eles começaram a sair e acabou dando certo. E ela me disse, se tivesse sido há apenas 1 ou 2 anos antes, não teria sido bom, pois não estavam em um bom momento.

   E eu fiquei feliz, de verdade. Fiquei feliz pelos dois, por ele ter encontrado alguém que precisava dele, que o merecia. Por ela ter encontrado alguém, pelos dois se completarem.

2) Casey. Nós temos muita coisa em comum! Já posso começar dizendo isso. Novamente, algumas coincidências e acabamos nos encontrando diversas vezes… teve Paris (e além do Chateau, andamos pela cidade nos emocionando com Notredame e a livraria Shakespeare & Co); depois encontrei-o no Festival da Alegria em julho; depois ele acabou indo com o pessoal de treinamento para novos funcionários na excursão a Yamanashi (e ele também adora sorvete, teve Hagen-daz na ida e um caseiro saborosíssimo na volta); aí este ano ele também foi um dos participantes do Saito Homa, ele me mostrou o estúdio de dublagem e nós combinamos de ir no Ghibli (porque ele adora Miyazaki também) no meu último dia de Japão 2011.

     Depois do Ghibli fomos tomar um lanche no Starbucks e conversamos bastante. Ele também entrou para a secretaria do templo no mesmo ano que eu, e contou sobre as dificuldades que passou – sobre um tempo em que quis largar tudo, sobre como ele odiava o ambiente japonês, sobre seu momento de grande “revolta”. E eu contei pra ele sobre algumas coisas do coração e ele também me contou algumas das suas. Ele também (! mal do século, da nossa sociedade?) falou que já se sentiu muito sozinho, e imaginou exatamente a mesma cena que eu já tinha imaginado que aconteceria comigo no futuro: ficar velhinho com um gato no apartamento e depois de algumas semanas alguém sentir um cheiro estranho, arrombar a porta e encontrar seu cadáver caído…

     Ele contou como era difícil pra ele encontrar alguém, que na adolescência tinha essa pessoa que gostava dele (e ele achava que ninguém nunca ia gostar dele!), mas a pessoa não conseguia se comprometer só com ele… contou de como ele já teve problemas de depressão (de tomar remédio mesmo) e que parecia mesmo ser um carma que o perseguia: as últimas pessoas também tinham sido assim, meio “confusas”, sem querer nada com nada.

     Mas o bom da história é que nós dois, depois de termos passado por tudo isso, estávamos ali, acreditando. Tínhamos chegado à mesma conclusão. De que podíamos sim confiar em nossa felicidade, e não importa o que acontecesse, nós ficaríamos bem.

* * * * *

Depois que voltei do Japão, ainda passei alguns dias bem instáveis. Não somente pelo amor conforme descrevi acima, mas com vários tormentos mentais. Questões diversas – familiares, financeiras, do que faltava em mim para ser alguém contente (satisfeito com sua vida), mais iluminado, do que faltava no meu serviço. Até onde eu queria ir, o que eu realmente queria fazer? Voltei com a sensação de que eu deveria mudar – e não era mudança física (bom, essa também, vai) ou só na forma material e prática, era uma mudança de coração.

     Sentia que não estava ligada ao “amor verdadeiro” que os ensinamentos budistas que sigo procuram ensinar. Senti que faltava algo – que faltava amar mais. Amar mais ao meu próximo, às pessoas próximas, aos meus ancestrais, ao que eu faço ou gostaria de fazer. Não importa como vou ajudar minha família, ou as decisões práticas que eu tomar (de carreira, de estudo), não importa se vou ficar ou não com tal ou tal pessoa – no final, o que mais importa é isso. O que nos move desde lá no fundo da alma, que não podemos explicar, mas que sabemos existir, que envolve compaixão e cuidado, aceitação e coragem.

     Eu não sei se um dia eu vou casar e ter filhos (vai que acontece, né?), mas sei que vida sem amor não é vida, como dizem os poetas fáceis. E se me revolvia por dentro desde o final da jornada Japão 2011 até há pouquíssimo tempo, acho que finalmente me sinto mais em paz. A paz de ter me reencontrado com o amor essencial, que me faz sentir mais no mundo, mais na vida. Uma hora ou outra tudo vai dar errado, eu vou querer desistir de tudo e pode ser que eu já não sinta essa paz amanhã… mas nosso caminho é assim mesmo – e o amor sempre estará lá, para nos salvar.

 
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P.S. (para quem é da S.en) Este texto foi escrito, originalmente, na noite de sábado (05/11), em que realmente pensei em muitas coisas e percebi o quanto mudei. Em que realmente consegui sentir o coração mudar. E consegui sentir o amor verdadeiramente. No dia seguinte (06/11), teve outra sessão para elevação espiritual, e eu já não me preocupava se ia me elevar ou não. Eu não pensei mais se estava fazendo tudo certo, que faltava algo em mim só por querer sair do serviço no templo – independente das minhas escolhas futuras, eu tinha conseguido tocar na essência verdadeira do coração do Ensinamento. Era isso o que eu buscava, o que faltava, eu não precisava fazer tudo certinho e o tanto que eu achava, pois sua compaixão é enorme e me aceitariam mesmo que eu fosse buscar outro caminho na vida (considero que eu poderia ser até melhor nisso). Mas o importante mesmo era esse coração essencial e defender isso.

     Neste domingo eu não tive mais dúvidas, nem mais medo. Eu acreditava. Sabia que tinha encontrado algo especial e só queria que mais uma pessoa pudesse ter seu coração aberto dessa forma, que eu talvez pudesse ajudar alguém a sentir isso um dia também. Foi à tarde, lembrando dos ancestrais, da minha família, dos meus amigos, afilhados, da nossa líder espiritual e dos fundadores e seus filhos, de todo o amor para com as pessoas à nossa volta, realmente de coração aberto, foi a tarde em que recebi a elevação a “Kangi” (alegria). E eu agradeço a todos.

 

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5 Replies to “Japão 2011 – Poslúdio”

  1. Dê, minha caríssima madrinha!

    Somente tenho uma palavra pra dizer depois desse depoimento: LINDO.
    Só achei meio girly usar o “comer, rezar e amar”. hahaha. Tô brincando.

    E como eu havia dito no e-mail, isso só nos dá incentivo a continuarmos firme no caminho da Shinnyo-en, e chegarmos lá assim como você. Acho que essa jornada deve ter significado isso, né? Renovação. Isso é um treco meio duro na verdade, mas somente traz crescimento.

  2. Dê,
    obrigada por compartilhar!
    Textos lindos… fiquei emocionada várias vezes lendo seu depoimento.
    Vc com o seu sorriso, nos dá muita coragem para continuar no caminho.
    De coração.
    Estou sempre do seu lado!
    Parabéns !!!

    Erika

    1. Erika-sensei!
      Puxa, fico feliz mesmo que vcs gostaram… Vc se empenha tanto e eu queria ter pelo menos metade da força q vc tem! Mas saibam que podem sempre contar comigo, no que eu puder =) valeu, arigato!

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