Silenzio

– Esse povo fala demais!

– E a gente não tá acostumado?

– Até parece… Kadafi, Mao, Napoleão, até Hitler? Eu não entendo nada de política, o que eu ia tá fazendo lá?

– Não é política, era pra discutir psicologia humana.

– Eu achei horrível… sangue, trucidado… Acha?

– Mas o Egito… bem, deixa pra lá. Você disse que foi uma diretora brasileira que te indicou?

– O fundo do coração.

– Nem eu gosto tanto assim, já admiti falhas.

– E ela viu aquele documentário das filmagens de Apocalipse Now. E ela entendeu a loucura. É uma loucura, realmente, uma loucura querer fazer isso.

– E a história de que todos essas pessoas raspando o cabelo na verdade estão camuflando uma doença alienígena muito pior, que só o alto escalão, os poderosos, sabem?

– Hahaha. E por que o Lula ia ser um dos escolhidos?

– … Ah, sei lá. O filme é seu!

– Hein?! Ma che! Que filme! Que filme! (gesticula com as mãos)

(risos)

– E como foi o encontro ontem?

– Ah, eu poderia casar com o Marcello, se ele fosse desses tipos, do meu destino. 

– Tão bom assim, é?

– E ele ainda me apresentou o Monicelli.

– Molto vino depois, eu presumo.

– Peraí. Os rumores era de que eu encontrei o Kadafi ou o Papa?

– Os 2. Você adorou a campanha dos líderes se beijando!

– Será? Não sei.

– E então, tudo mentira?

– Será? Não sei. Só sei que foi assim: vi umas fotos do povo no Occupy Wall Street. E tinha umas plaquinhas sobre a falta de altruísmo, algo assim. É isso, entendeu? Eu queria fazer isso, um filme sobre revolução espiritual. É a eclosão que a humanidade está esperando, estamos neste momento, tudo tem que mudar!

– Você tá ficando meio louca, né? Vai chamar o Lynch?

– Quem ganhar mais de um milhão de dólares em 60 anos vai ter que doar para os mais pobres dos países mais miseráveis. É um futuro em que será valorizada a natureza e será incentivada a vida simples, os humanos terão uma mente mais aberta, mais liberta…

– D, coloca uma coisa na sua cabeça. Você nunca vai fazer filmes. Na vida real, pelo menos. Você não quer fazer filmes, você quer um sonho de cinema. É como aquele seu amigo, que não quer amar, quer se apaixonar em um filme – e, portanto, vai sempre se frustrar e ficar descontente, exceto se aprender a aceitar e lidar com sua realidade.

(silenzio)

 

 

– Bem, já faz um tempo que não te viam perambulando tanto por aqui.

– Tô pedindo férias da minha vida.

– Vai deixar seu clone em piloto automático lá na Terra?

– É. Ela pode ver toda a saga Crepúsculo, até Amanhecer.

– Que horror.

– Não, é filme de amor teen mesmo.

– Não, eu digo, que horror. Ah, não fica triste, vai.

– Não tô triste não.

– E então, era tudo boatos?

– Eu te digo com quem encontrei. Encontrei com o Kuro-chan*.

– Um dos maiores mestres do cinema e você chama ele de “Kuro-chan”?!?

– Ué. O Truffaut é “Françô”.

 

* * *

* = Akira Kurosawa

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