Férias no interior – I

Deixou-se sentar um pouco sem pressa. Olhou pela janela, o céu azul claro, o pedaço de plástico balançando com a brisa suave. Acabara de se refrescar com um copo de gelo trincando, dia quente. Tinha ido ao mercado, com o carrinho de feira. As folhas secas caídas pela escada da frente, móveis empoeirados, o sol das quatro da tarde batendo por entre as frestas. Janelas e portas abertas, para arejar. Passou um pouco de margarina no pão doce com coco, foi sentar no banco improvisado do quintal. Estava de volta. Àquela casinha de campo, do interior.

 

Depois daquela correria era bom sentir aquela calma, como um marasmo. E o silêncio, sem buzinas e poluição, um galo cantando em horário errado.

Onde estivera? Em temporada de tormentas. Mantendo a mente ocupada, em terapia tentativa, como se isso pudesse lhe dissipar a depressão de não ter amigos, achar que todos estão fazendo algo de importante (menos você).

 

Tudo largado. Sabia que ia passar dias limpando aquela casa. Desde o final de ano revirava tudo, a poeira volta, trazida por ventos imprevistos. Não tem jeito, é um trabalho constante. Tinha que se acostumar. Tinha que ir aos poucos, com paciência.

 

Deitou na rede.

– Ah, se você soubesse o quanto eu te amo.

O quanto te amei. O quanto vou te amar. E foi tudo do jeito que tinha que ter sido. Do jeito que não foi das outras vezes, não foi por impulso. Desejou ter sido diferente, depois. Nem um olhar, nem uma palavra de carinho, nem uma demonstração de que queria se alongar ao seu lado. E achou que aconteceria o que deveria, o que precisava querer: não iria querer mais. Mas agora, naquela rede, sentia a mesma coisa no estômago, ainda. Amava. Ainda.

Por que tudo não podia ser diferente? Não tem jeito, é constante. Tinha que ir aos poucos, com paciência.

 

“Do que o verdadeiro amor é capaz (…)

Te ver é uma necessidade (…)

Sem essa de que estou sozinho / Somos muito mais que isso (…)

Quero viver a minha vida em paz / Quero um milhão de amigos (…)

Deve ser cisma minha, mas a única maneira ainda de imaginar a minha vida é vê-la como num musical dos anos 30

– e, hoje em dia, como é que se diz eu te amo?

Vamos fazer um filme”

(Legião Urbana)

 

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2 respostas para “Férias no interior – I”

    1. hahaha que bom, Bia! Os melhores textos devem ser aqueles que não se findam em si, mas levam cada um a pensar em algo… queria escrever assim! haha ;) Madame Tussauds?! Vou ver jááá!!! ^^

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