Perdão por precisar de tanta vida

Estes primeiros meses não foram fáceis e de vez em quando eu me sinto muito cansada. Às vezes eu só queria ser uma jovem normal, sabe? Trabalhar, fazer algum curso, sair no fim de semana, comprar uma roupa nova, ir em shows, dançar, ver séries baixadas no computador, pedir uma pizza por preguiça de cozinhar, dormir até mais tarde no domingo, brigar com o namorado por besteira, casar e ter filhos.

 

Mas nem sempre foi assim, desde bem jovem tudo o que eu queria era viajar pelo mundo inteiro e ser livre e independente, sem amarras a nada, a ninguém. Acho que é a iminência da meia-idade, bate à porta a crise, não reclamando de tudo que era para eu ter feito e não fiz, mas simplesmente me mostrando que nascemos para certos aprendizados.

 

Não adiantou eu tentar fugir, não fiz a mesma besteira que os meus pais, mas o carma é o mesmo a superar. Não foi sanado na outra geração, então vamos lá, a bola da vez é minha.

 

Até parece fácil se eu disser que entro meio-dia no serviço, mas é que troquei o meio período por outro trabalho: diarista, sem remuneração. E uma coisa é morar sozinha, outra é cuidar de alguém, é ter responsabilidades por outros. Marca consulta, leva pro hospital, busca remédio, pensa o que cozinhar. Limpar a casa encardida onde antes habitavam cinco – e não é pouco! Só quem bota a mão na massa é que sabe (quanto tempo pra limpar uma geladeira!), lavar e passar roupas, lavar pratos todos os dias, tirar o pó, varrer dentro e fora de casa, limpar o banheiro e a sujeira do gato… Fazer cálculos, pagar contas, fazer compras economizando, atender cobranças de dívidas dos outros. Não poder se vestir como quer, nem fazer os cursos ou conseguir estudar, nem ter mais físico pra varar noites em claro. Sair correndo pro trabalho e não conseguir fazer tudo o que precisa.

 

É assim. Peço desculpas se não tenho algo mais brilhante pra contar… virei essa pessoa comum? Não tá sendo fácil pra mim. E como qualquer um, eu também às vezes só quero dormir e nunca mais acordar. Mas não funciona assim. Esta é a minha vida e eu tenho que lidar com isso.

 

Como é que funciona? Existe um sentido. Existe o meu aprendizado – como vamos mudando e como hoje o olhar é diferente, como mudamos para melhor. Ajudar a alguém, mesmo que seja “só” alguém próximo, já é uma contribuição ao universo. E funciona com esperança, acreditando (acredito que vou ajudar meus pais a superarem, acredito que tenho força pra seguir); com perseverança e disciplina pra agir (não desisto, ainda busco meu próprio aprimoramento, tento soluções para colocar em prática os ideais); com reflexão e sabedoria.

 

De tal modo que o cinema entra como terapia. Cada um tem algo de especial e particular que lhe dá inspiração pra continuar a pulsar, não? Para alguns pode ser a pintura, a música, os esportes. Pra mim é o cinema. “Viajar”, conhecer outras personagens, viver outras vidas só por aquele momento, só por aquele momento esquecer-se um pouco de si, pra depois encontrar um pouco de si. Deixar-se provocar, refletir, consolar, acalentar por essas experiências.

 

Este post é só pra isso. Explicar o que anda acontecendo, contar que sou só esta garota comum, desabafar que sobrevivo e pedir perdão por precisar de tanta vida às vezes.

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2 pensamentos sobre “Perdão por precisar de tanta vida

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