Notas D – março 2012

Direito de amar
asingleman
(A single man/2006) ***
História: um professor em fotográficas perdas e memórias amorosas.
:D: o mais marcante aqui são os inúmeros quadros que podiam ser cartões-postais artísticos, de iluminação cuidadosa. Mas a arte é de imagens em movimento e existe razão de ser. Pois dois amantes numa praia como num ensaio em preto e branco de revista fashion tudo bem, mas uma foto só não seria capaz de traduzir o sentimento daquele acidente na neve, das lembranças de um beijo, do primeiro encontro, daquela troca de cigarros, do banho de mar, da solidão de uma Juliane Moore maquiada como perfeita diva de um glamour da Los Angeles de época, da preparação para o fim. Bonito e triste.

As férias da minha vida
(Last Holiday / 2006) **
História: uma atendente à beira da morte decide viver o luxo e tudo que nunca fez antes.
:D: se ela tinha tanto dinheiro guardado, ela não poderia ter pagado o tratamento? Queen Latifah é simpática, e o filme cumpre sua função: em catarse, realizamos tudo aquilo com ela e isso nos faz sentir bem. O legal é que ninguém teve que ensinar nada – a gente sabe muito bem o que quer, só nos falta mesmo dinheiro e um empurrãozinho da consciência. E Georgia cativa a todos com simplicidade, o vilão, no final também tinha lá seus problemas e o médico indiano foi bobo, mas até que engraçado, Depardieu como chef, a mordomo loira emocionada. Uma comédia leve, de vez em quando a gente merece um descanso.

Caché
cache
(Caché / Hidden/ 2005) ***
História: fitas anônimas atormentando um homem e seu passado.
:D: quando vi este pela primeira vez era um daqueles noitões (em que a gente pagava um preço tal, varava a noite vendo filme e ainda ganhava café da manhã – ah, belas artes, que foi que fizeram com você?). Era o último da noite, dei várias pescadas e achei que tudo não passava de um sonho. É bem verdade que este filme de Haneke suscita várias questões – e esta é a melhor provocação, que este diretor sempre consegue entregar. Mas apesar de, lá pelas tantas, termos uma cena significativa de Georges indo dormir (tudo só aconteceu na mente dele?); e apesar de haver algo de político ali, o que fica pra mim é o instinto selvagem, egoísta e tirano inato aos homens. Digo inato exatamente porque me parece que o diretor acredita ser facilmente aflorado na juventude (A fita branca, Marcas da violência). Me lembra de O senhor das moscas. Mas deixemos isso de lado, que o nosso motivo aqui é o filme. E acompanhamos uma família classe média alta e culta aparentemente “normal” tremer na base. À cada fita que chega uma tensão diferente, escancarando a falta de comunicação (entre o homem e a mulher, entre os pais e o filho), revelações que levam a takes medonhos, meandros inquietantes, realmente é um pesadelo aquele machado, em suma: perturbador. Como um Haneke tem que ser.

A missão
themission
(The mission / 1986) ***
História: um padre e um ex-mercenário em missão jesuita pelas florestas da América do Sul.
:D: uma exploração bastante proveitosa dos cenários naturais, de parte da história, com reconstituições primorosas. De Niro está dedicado e Jeremy Irons convence, o tribunal e a procissão são bem montados, professores de história devem recomendar. Boa trilha sonora e… alguém me abana, Aidan Quinn de tirar o fôlego, meninas.

Os bons companheiros
thegoodfellas
(The goodfellas / 1990) ***
História: os casos e amizades de um rapaz que sempre quis ser gangster.
:D: as reviravoltas na máfia não me comovem tanto quanto romances (sim, inclui-se aí até a trilogia de O Poderoso Chefão, que todo mundo venera…). Mas temos que admitir que Scorsese soube muito bem como fazer isso aqui, com personagens fortes, dinamismo, sem mimimi, um tapa – somos envolvidos por esse universo assim como o Henry de Liotta. Um esquema após o outro, carteiro encurralado, cigarros, casamento, plano de um grande roubo, comidinha na prisão, mortes sequenciais, drogas, “ler” o pensamento de um colega é a grande sacada – nós mesmos já sabíamos o que ia dar aquele comentário no bar, quando o personagem de Joe Pesci volta… putz.

Jogo de amor em Las Vegas
(What happens in Vegas / 2008) *
História: casados por acaso em Vegas tem que conviver pra não perderem a grana que ganharam.
:D: Ah, é uma comédia romântica, o que se espera? Espere tudo que tem uma comédia romântica, tudo previsivelzinho mesmo, com algumas risadas ali ou acolá. Cameron Diaz fazendo caras e bocas, Ashton Kutcher também, exploradas as diferenças entre homens e mulheres na convivência, aos extremos, não fica nenhuma cena memorável.

Amor à flor da pele
amoraflordapele
(Fa yeung nin wa/ In the mood for love / 2000) ****
História: dois vizinhos descobrem a traição dos parceiros e vivem suas próprias histórias.
:D: Belíssimo. Eu já nem lembrava direito deste encontro amoroso, foi uma grata surpresa perceber como o filme é delicioso e poético a mim, mesmo depois de tanto tempo – ou, exatamente porque amadurecemos, acho que são as “amorgruras” da vida. Kar-wai é essa coisa comigo. Aguça os sentidos e me faz querer escrever poesia. Sem nenhuma cena explícita, a gente consegue sentir na pele, na atmosfera, o amor. Um funcionário, uma secretaria, seu marido e a esposa dele em um caso e o que estes dois fazem? Recriam momentos, como será que começaram? Ah, sim, o amor nos pega inesperadamente, numa indagação, num consolo, numa amizade, num sonho, num cruzar, numa convivência aparentemente banal. Adoro as cores, as sombras, os lentos movimentos, as sutilezas. Queria eu também encontrar alguém pra escrever contos junto, uma amizade amorosa inesquecível, mas que essa dança não nos levasse à separação… Quizás, quizás, quizás…

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