Montanhas

– Eu era muito gorda? Muito feia? Muito burra pra você?

Reencontravam-se. Depois de todo aquele tempo.

– Não é bem assim.

Ele a fitava, esperava que ela não percebesse um certo marejado nos olhos.

– Deixa eu te lembrar que foi você quem me deixou.
– Como é???

A viagem a trabalho. Tinha sido o suposto motivo para o afastamento.

– Eu sempre fui atrás de você. Foi você quem sumiu, não quis saber mais de mim, me deu um “passa fora”.
– Eu não disse que nunca mais queria te ver, eu disse que ia ser complicado. Como foi, realmente.

A montanha no Japão. Alpes Andinos. Os altos da Manchúria. O monte na Alemanha. Kilimanjaro. E quantos mais?

– Eu nunca te esqueci. Por que você me deixou ir?
– Era sua missão. Você precisava matá-lo.
– E o que queria que eu fizesse depois? Eu tinha dinheiro, mulheres fantásticas, sangue quente.
– E eu? Eu não tinha nada pra te oferecer. O que eu deveria ter feito? Eu era assim, eu sou isto aqui, que você vê agora.
– Então foi erro seu. Não ter arriscado, apostado. Não ter conseguido ler os sentimentos implícitos – e como espiã, essa deveria ser sua especialidade. Erro seu não ver que não precisava oferecer nada, só seu amor, só você, verdadeira.

Aquele velho foi procurá-la depois. O velho, sábio, disse-lhe que ainda havia muitas montanhas a escalar. Que não desistisse no meio do caminho, como tantas vezes antes.

– Não. Ledo engano. Erro seu.
– ( )
– Erro seu achar que eu desistiria.

* * *

Y yo, desesperado
Y tú, tú contestando
Y yo, te esperando
Quizás, quizás, quizás
(Nat King Cole)

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