Viagem pós dia dos namorados (agora vamos falar de amor)

– Ela cansou de esperar.

– Muito bem, com tantos projetos, você vai ter que me situar aqui. Nós já estamos no segundo ato?

– Vix, faz tempo.

– Sério? Ok. Vamos passar alguns diálogos.

– Dia 12, esta semana: “sim, eu sou uma dessas pessoas chatas que reclama que o Dia dos Namorados é a data mais comercial que eu conheço. É só dar uma pesquisada pra ver como a data foi criada, ela fica menos bonita”.

– Ela diz que não se importa de não ter namorado, de estar sozinha, mas reclama da pressão externa?

– Muito. Que as pessoas acham que ela é uma encalhada, mas na verdade ela tem opções, ela poderia ficar, curtir, há caras interessados. Ou seja, é uma escolha dela, mas as pessoas não entendem.

– Conflito de gerações, claro. O pessoal mais velho que foi condicionado e educado a acreditar que a pessoa só pode ser feliz se estiver casada. Mas esse não é o conflito principal?

– Lógico que não. A premissa é: a garota que deixou de acreditar no amor encontra a alma gêmea.

– O primeiro plot point?

– Depois do primeiro obstáculo, que é ele não ficar com ela, ela chega em um ponto em que se convence que ele é o grande amor da vida dela, e finalmente passa a acreditar nisso.

– E então, vem a luta até poder ficar com ele na resolução final – o segundo ato.

– Exatamente.

– Pista e recompensa?

– Vamos usar algumas, mas não demais. Já apareceu alguma coisa com música, mas a gente ainda quer colocar um lugar físico, algo bem visual mesmo, sabe? E também referências culturais.

– Flashback?

– Alguns elementos de vida passada, que ela descobriu anos antes, numa sessão de regressão a que ela não deu muita bola.

– Ok… deixa ver… me parece que tá indo tudo bem. (consultando notas) Pelo que eu tô vendo aqui ele tem pretendentes. E são fortes.

– Ele tem muitas pretendentes, garotas que aos olhos dela seriam seu par perfeito. São do estilo dele, gostam das mesmas coisas que ele, são lindas, sexy, magras, inteligentes, cultas, engraçadas, animadas, carinhosas, companheiras… ah! extravagantes. Ela tem um grande problema com isso, pessoas que são bem mais expansivas do que ela.

– E um dos pontos em que ela terá que trabalhar é exatamente acreditar em si mesma, acreditar que, apesar de todas essas pretendentes, ela é a garota pra ele. Mas ainda não chegou aí? Vejo aqui ela dizer: “como euzinha, tão simples e ignorante, posso ter a audácia de achar que sou a garota pra ele?”. Há quantos anos estamos trabalhando nisso? A insegurança…

– Nós começamos trabalhando a paciência. Ela sempre teve pouca, fazendo coisas por impulso, sempre quis soluções práticas.

– Você entende que a protagonista tem que estar bem diferente no final da jornada, comparando de quando ela começa, certo? No clímax e no terceiro ato.

– Sim. Ela já está mudando, decidiu que não vai desistir desta vez. Já chegou a pensar: “se foi tão extraordinário a mim encontrá-lo, será que não poderia também ser extraordinário a ele?”. Vai por mim, ela não vai desistir.

– Espera aí. Há pouco você disse que ela cansou de esperar.

– Ela cansou de esperar pelo amor como a maioria dos mortais. Não sei exatamente de que dia, mas ela escreveu uma nota assim: “As pessoas esperam demais. Elas vivem esperando. Esperam que o outro ligue, que o outro dê presente, que o outro pense 24h em você, que o outro reaja de tal forma, aja de tal forma, pense de tal forma. Eu cansei de esperar”.

– Acho que a gente pode dar uma melhorada nisso aí.

– Calma, calma. Tem mais: “Alguns livros de autoajuda aconselham a nos darmos o valor, a não ficar ‘rastejando’ atrás do outro, bem, existe uma forma de interpretar isso. Na verdade, isso também é carinho, é respeito, é amor. Quando você respeita o tempo do outro, quando acredita no outro, confia, quando acredita em si e no amor de vocês dois, isso é amor. Não significa que não podemos procurar o outro, simplesmente, que antes de julgarmos, podemos tentar olhar como se estivéssemos no lugar da outra pessoa”.

– Isso é bom, hein. Disso eu gostei.

– Ela não vai esperar amar como as outras pessoas mais. Ela decidiu que não vai mais esperar pelo amor como é concebido pela maioria. Acredite, isso exige um bom tanto de coragem; levou tempo pra construir esse traço de personalidade.

– E agora, então, ela vive mais tranquila?

– Em paz, mais feliz consigo, sim. E ela realmente acredita nesse amor. Admitiu não ter mais nada pelo que esperar. Não ter mais nada a querer. Ela finalmente encontrou tudo o que poderia desejar, mesmo sabendo ser difícil, sabendo das falhas, mesmo sabendo que talvez nada dê certo, mesmo com a possibilidade de ela ficar só. Mesmo assim, ela não espera mais, ela acredita que encontrou o verdadeiro amor, e isso já lhe basta a esta vida, já lhe é felicidade.

– O amor de contentamento verdadeiro é o amor pela felicidade do outro. Felicidade verdadeira, que não se espera nada em troca.

– Ela já não espera. Várias experiências a trouxeram a este ponto, sentir o amor verdadeiro ao sentir a felicidade do outro. E isso a libertou de qualquer outro “amor humano” que poderia esperar.

 

*****

 

– E então, depois dessa conversa, eu voltei.

– Com as asas!

– Ainda não terminou. Nosso departamento está em crise, dizem, temos esses projetos, novos agentes, uma força tarefa imensa pra colocarmos o amor realmente nas vidas da Terra. Se nada der certo, perderei as asas. E vou voltar. Mas você não me reconhecerá e não mais lembrarei de você.

– (pausa) Isso acontecerá com quantos cupidos? Quantos anjos? Existe algo que eu possa fazer?

– Conscientemente não. Muitos mortais nem podem ter este tipo de conversa.

– Mas as viagens são exaustivas. Você merece tomar um drink comigo.

– É. E você já está no segundo ato.

 

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