Ingmar Bergman

Nestes meus novos rumos (estudar! estudar! estudar!) este blog fica mais didático, lembra? Cinema facinho, facinho, pra você que, como eu, sabe nada de cinema, tenha pelo menos uma ideia sobre o que esse pessoal louco fala.

Pois bem. Vamos pra Suécia. Dia 14 de julho é aniversário desse queridinho dos cinéfilos e cults, e as tardes frias de inverno podem ser bem convidativas a essas incursões. Meu novo amigo tem influências do teatro, revisava textos antes do primeiro roteiro. Alguns temas recorrentes são questionamentos espirituais, um olhar delicado e em dúvida sobre as mulheres, conseguimos fotogramas enigmáticos que poderiam formar um retrato psicológico ou uma pintura de emoção, close ups e sombras são marcas, frases poderosas e pontuais nos diálogos são souvenirs. Abaixo, os das últimas semanas, que valem revisitas, e outros roteiros recomendados.

Fanny e Alexander
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(Fanny och Alexander / 1982) ***

História: duas crianças sob opulência, sob severidade e sob as cordas do teatro de Deus.

:D: começamos pelo final, este é o que ele disse que seria o último, para se aposentar do cinema. Dizem ser o mais autobiográfico (sim, teatro, sim, infância, sim, uma mulher linda e confusa – aliás, que mulher não é?, sim, Deus). Alexander tem olhos curiosos ao seu cenário, verde e vermelho natalinos em cenários e figurinos grandiosos nos recebem à rica família, uma brincadeira amorosa da empregada, uma morte que é a guinada para nos levar à contra parte. O impacto das crianças com a nova realidade é ainda mais sentido por essa nova direção de arte, palidez e um padastro sisudo em escuro, a mãe ajoelhada acreditando que a religiosidade os salvaria, as grades na janela suspeitam que a história de fuga seja verdadeira, a mãe em aparência miserável e o castigo açoitado nos levam à última irrealidade – mágica, entre as marionetes, para um final feliz.

Sonata de Outono
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(Höstsonaten / 1978) **

História: a relação entre a mãe pianista famosa e a filha cari(/d)nhosa.

:D: o amarelado do outono, a estação pós-primavera, envolve esse ambiente. Uma casa de campo simples, a esposa do pastor é contente por apenas tocar na igreja e receber a mãe, de pompa e circunstância, de vestido vermelho espalhafatoso porque esperariam o preto. A distância da câmera até o leito do hospital já denuncia, a distância da mesma até a sala com o piano, em que Eva esperava ansiosa para entrar quando criança é a simbologia do filme todo. É sim incômodo ouvir o piano da simples dona de casa já esperando a censura (implacável) da aclamada outra parte. É sim incômodo ver Helena, contorcendo-se por alguma palavra de afeto. E é mais incômodo ainda entender que muitas famílias sofrem do mesmo incômodo.

Persona
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(Quando duas mulheres pecam / 1966) ****

obs: esse título em português é infame e não ousei colocar em negrito.

História: uma atriz em silêncio e uma enfermeira intensa indentificando-se em um verão.

:D: sem pedir licença, mas com um quê de imagens perdidas (aham, cof, cof, ou melhor, subconscientemente entendidas), sabemos que estamos diante de uma montagem não convencional, uma experimentação sugestiva que pode levar a várias interpretações. É isso, adoro esse tipo de viagem. E Bergman tem uma visão estética especial para este, e sabe como elogiar duas mulheres lindíssimas com sua câmera. Um corpo franzino que coloca os óculos pra ver um rosto enorme, a enfermeira avisada sobre a paciente e um pouco receosa a princípio nos faz surpreender ainda mais quando a vemos revelar uma culpa do passado. Aí percebemos como o grau de intimidade cresceu entre essas duas mulheres, durante só esse verão na casa de campo, em passeios, em leituras. A identificação é mostrada em metáforas visuais únicas e intensas, embora pareçam tão díspares – uma em seu silêncio narcisista e outra em rompantes emotivos (caco de vidro, querer jogar água quente, lágrimas noturnas). E os rostos se entrecruzam, o que é sonho? (expressões do subconsciente), o que é delírio, o que é desejo? O sangue sugado, olham para si como ao espelho, olham para nós como um espelho.

O sétimo selo
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(Det sjunde sigliet / 1957) ****

História: um cavaleiro pós-Cruzadas tenta salvar a alma jogando xadrez com a morte.

:D: deixei aqui pro final este máximo, que seria o que eu teria que recomendar caso tivesse que escolher só um Bergman. É, os críticos estão certos, uma obra-prima inigualável, mesmo pra olhos ingênuos como os meus (sim, convenço-me mais uma vez de que preciso ler a Bíblia, por completo). Só pelo contexto histórico já valeria: das Cruzadas, dessa época séc-XIV-por-favor-Deus-acabe-com-o-mundo, os cavaleiros do apocalipse, fome, peste… mas Bergman não só se inspira em quadros medievais pra montar alguns planos bem feitos, ele traz a alegria de pessoas simples na forma da tal “companhia de teatro”, morangos com leite nunca pareceu tão delicioso – e por que não, de quebra, colocar você pra pensar sobre a moral (o fiel escudeiro que não acredita em Deus é muito mais moral?) e a existência? O jogo de xadrez se alterna com diálogos magníficos, a dança macabra da fila de mortos é uma das cenas inesquecíveis do cinema.

*****

Outros roteiros recomendados (sim, meu caro Bergman, voltarei a visitá-lo):

– Juventude

– Sorrisos de uma noite de amor

– Morangos Silvestres

– Gritos e Sussurros

– e ainda existe uma tal trilogia sobre o silêncio de Deus…

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