Num bar à beira da estrada de tijolinhos dourados

Ela se sentou, não é que aquela novela realmente tinha tomado os rumos previstos? À maneira própria de seu autor, é claro, ainda assim.

Ele lhe perguntou qual era o dilema.

Ela disse-lhe que nenhum. Que conseguiria ter um relacionamento aberto.

Ele lhe perguntou por que os homens na Terra tinham criado a monogamia.

Ela não soube lhe responder ao certo.

“Seria egoísmo? O satisfazer do ego, a posse, a sensação de poder sobre algo.

“Seria proteção? Contra doenças, por exemplo.

Ele lhe perguntou como tinha sido o trajeto.

Ela descreveu o tornado. O não saber o que fazer, a dor de cabeça de se jogar, se não fosse pelo irmão não teria arrumado nada, Totó, metade das coisas ainda encaixotadas, apatia, novos planos, o leão medroso para ajudar, indagava agora quando o espantalho viraria homem, quando usaria sapatinhos vermelhos e quando, finalmente, o homem de lata ganharia um coração.

Ele quis saber o quanto D(orothy) havia mudado.

Ela lhe confessou que quase nem se reconhecia mais. Não teve chororô, nem quarto escuro repleto de depressivismo, nem profundezas lancinantes, xingamentos raivosos, dor no âmago, nem mágoa nem míngua.

Ele se surpreendeu por ela ter desejado dar um tempo e por ter deixado de lado seu orgulho. “E então, comentou, fora assim que ele a convencera não ser o cara pra ela. Se ela estava tão bem, é porque não era ele.

Ela lhe contou quais seriam as regras para seu relacionamento aberto. O parceiro poderia ter relações com outras, contanto que não lhe passasse doenças. E ele não precisaria lhe contar detalhes, apenas avisar que sairia com tal e tal pessoa em tal e tal noite. E eles compartilhariam momentos juntos – simples mesmo, um filme, uma dança, um passeio no parque, um poema, um jantar, uma reunião musical com amigos, um feriado com parentes, um longo abraço, uma noite enlaçados. Era só isso que ela queria. Compartilhar, com o amor de sua vida.

Ele entendeu que talvez os homens tivessem criado a monogamia porque não se tratava mais de procriar, queria-se um outro para compartilhar amor.

Ela hipotetizou que, talvez, para alguns se pode compartilhar amor igualmente com mais de um.

Ele objetou, porém, sobre ela. E todas as outras circunstâncias de sua vida? Também indagou de onde vinha tanta paz de espírito, mesmo diante de todas aquelas circunstâncias?

Ela não soube lhe responder ao certo. Mas foi um caminho, que apesar das pedras – ou, exatamente por elas, tinha a trazido até ali. Tornado – livre.

Ele, finalmente, concluiu: se fosse o mágico, era isso o que ela pediria a ele, então? A estrada dourada para a paz, a todos?

Ela, finalmente, concluiu: sim. Mas tudo começa com um coração – e era isso o que ela pediria ao mágico. Um coração aos homens de lata.

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