Clássico: Laranja Mecânica

(Clockwork Orange / 1971) ****
1971-clockworkorange

Historinha: um jovem ultraviolento é cobaia de um experimento na prisão.

:D: Apenas um dos filmes mais controversos da história do cinema, que vi há anos e me deu a certeza de que Kubrick era bem perturbado, nem precisa ser revisto (já que suas imagens marcantes vão ficar gravadas na memória), nem precisa de comentários de uma bobona como eu, mas… quem tem blog é pra escrever, né.

! Spoilers ! (se é que podemos falar de spoilers para um filme feito há mais de 40 anos?)

Eu revi o filme porque o CineSesc passou em tela grande (e no final deste ano ainda tem exposição especial de Kubrick). Não é o que eu mais gosto do diretor, mas descobri que ele ainda vivia inteiro na minha caixola, alguns filmes são marcantes demais mesmo. Ano passado eu vi o documentário sobre a repercussão na época em que foi lançado, a óbvia polêmica causada e como o diretor ficou triste ao ver criminosos reais usando-o como referência clara, a ponto de bani-lo da exibição no Reino Unido. (Permitido apenas para maiores de 18, Laranja Mecânica só pôde voltar a ser exibido depois da morte de Kubrick; por meses algumas locadoras colocavam placas sinalizando que não tinham o filme…)

Este aqui não é um exemplar pra estômagos ou visões de mundo fracas. Tem que encarar de frente e com coragem. A primeira cena que Kubrick filmou foi a do estupro da esposa do escritor, o diretor estava entediado e McDowell improvisou o cantarolar, acreditam? Depois de alguns anos, o ator encontra Gene Kelly numa festa e este nem o cumprimenta – claro, imagina se você protagoniza uma das coisas mais lindas do cinema, debaixo de chuva artificial e com febre, pra depois virar algo disgusting pros sentidos?

E haja cenas fortes. Belas músicas clássicas fazem contraponto com o grupo de droogs – logo depois de enfocar o humilde narrador cuja história vamos acompanhar, o plano vai abrindo para nos mostrar esse teatro decadente. Bem no início já tem estupro sem pudor algum, ataque a um velho bêbado na rua, quem disse que quem não aguenta bebe leite? (O nome russo do bar realmente significa “bar de leite”). Alex, “disfarçado” por cílio postiço, de branco, chapéu coco e botas de ataque, é um jovem que gosta de discos e faz ménage com garotas durante o dia (sequência filmada sem cortes, em 28 minutos?). Aliás, que delícia ver o filme depois de tantos anos e notar o disco de 2001… E à noite, tem as manhas de bater nas pernas de um colega só pra reafirmar sua posição de líder do grupo, depois indo atacar uma senhorinha que vive com gatinhos – calma, os golpes são coloridos.

Em seguida o jovem é preso e vira uma cobaia. O filme ainda conta com toques de humor aqui e ali: perde-se a conta de elementos fálicos; Alex lê a Bíblia não se arrependendo, mas imaginando-se um carrasco; Alex implorando para que Beethoven não fosse usado para a “reabilitação”. Nosso teatro então lança os holofotes para distintos senhores aplaudindo e sorrindo uma ciência com propósito de lei autoritária, enquanto um jovem se esgoela passando mal no chão. E a reinclusão na sociedade chega a ser tão cruel quanto o próprio tratamento – a mãe que o substitui, os colegas que viraram policiais e tentam afogá-lo.

Chegamos ao final com Alex recebendo comida depois da reversão de seu “tratamento”, jogando na nossa cara que em certos aspectos a humanidade não muda… O filme foi baseado em um livro de Anthony Burgess, que criou uma linguagem própria misturando russo e inglês, mas muitos dizem que supera o valor do livro. Talvez porque o cinema tenha esse poder de instauração rápida, e as imagens em movimento em mãos hábeis podem impressionar muito mais. Este foi um dos filmes mais “baratos” que Kubrick filmou, mas ele nunca nos poupa, nunca deixa de ousar, cria cenas fortes e de apelo visceral que baqueiam na poltrona. Se é preciso coragem da plateia, tem que ser muito perturbado pra entregar uma obra assim – e é isso que faz dele um dos melhores diretores da história do cinema.

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4 respostas para “Clássico: Laranja Mecânica”

  1. Uau! Ótima resenha, Dê.
    Eu adoro Laranja Mecânica. É um dos meus filmes prediletos, e quando eu o vi pela primeira vez, achei simplesmente genial. Eu tenho o livro também, é pequeno e foi muito bem adaptado pra língua portuguesa e depois que você lê o livro, você vê que Kubrick adaptou com uma baita maestria o livro (como ele sempre fez), mas tem alguns poucos detalhes que o livro é melhor e outros em que o filme é superior.
    Por exemplo, a cena do estupro ao som de Singin’ in the rain é épica. E só tem no filme. Já o final do livro é totalmente diferente e incrivelmente melhor! O filme é fidedigno ao livro até o penúltimo capítulo. Justo o último capítulo que é o desfecho foi simplesmente cortado pelo Kubrick, e esse último capítulo é o que faz todo o sentido. Não sei o que diabos o Kubrick tinha na cabeça, acho que ele quis tratar que psicopatia não tinha cura, pois acredite, no livro o Alex DeLarge acha até uma “cura” (se é que podemos chamar disso).
    E no livro explica melhor que não é apenas leite. É leite com adrenochrome, uma substância que existe e causa furor, adrenalina, deixando eles prontos para causar altas confusões na Sessão da Tarde. Seria esse furor que ajuda eles a praticar a ultraviolência.
    Enfim, é um filme épico e genial. Mas você não falou muito do método de Ludovico, haha. Eu quando vi o filme pela primeira vez eu fiquei mais abismado com o método de Ludovico do que o estupro da mulher que tinha pêlos púbicos louros, hehe.
    Fazer uma pessoa sentir ânsia de vômito toda hora que fosse praticar um ato de violência parece que até existiu na teoria para dar “sentimentos” a pessoas psicopatas, pois o psicopata não tem arbítrio de certo ou errado. O Alex acha que tudo o que ele faz não é nada demais, e ele deixa claro a todo momento no filme.
    O pior que, mesmo hoje, existem diversos outros tratamentos experimentais para psicopatia que beiram a insanidade desse método Ludovico. O último que eu vi era trancar o cara num local sem estímulos, completamente concretado, minúsculo, num tratamento de choque similar ao Ludovico. Laranja Mecânica foi escrito há mais de cinquenta anos, mas dá pra ver que os métodos de hoje não seriam nem um pouco estranhos para o gênio escritor que foi o Anthony Burgess. ;)

    1. Oi Alain!
      Pelo jeito você gosta mesmo do filme! Sei que no final, tem um Alex de “terno e gravata” ou alguma coisa assim? Bem, 2001 – uma odisséia no espaço, eu adoro o livro, e me fez muito mais sentido que o filme. Mesmo assim, é o meu filme preferido do Kubrick. Aí, depois de ver este, preferi nem ler o livro, rs. Mas no filme ele também fala que não é só leite, ele fala dessa substância.
      Sobre o método Ludovico, acho que Kubrick quis chocar ao máximo na primeira metade, de forma que o espectador comprasse a ideia de que seria necessário um método, de justificar a experiência. E acredito que ele quis enfatizar exatamente que o método não é eficaz (por isso mesmo “cortou” o restante do final do livro) e que há muito mais envolvido na constituição da natureza humana…
      Enfim, o filme é ótimo e as discussões que gera, melhor ainda! :)

      1. Bingo! Falou tudo. O método de Ludovico era pra vender como se fosse uma cura. Mas no livro é tudo muito similar, inclusive a linguagem dos drugues. E em ambos você pensa que o Alex tem um problema sério de psicopatia, e o filme deixa isso bem claro até o final.
        A diferença do livro que tem essa cena a mais é que o Alex, depois daquela parte que ele cumprimenta o ministro com toda imprensa e diz que ele tá curado, ele volta pra vida normal dele. Depois de ter passado anos na cadeia e no tratamento, ele encontra alguns dos drugues que andavam com ele. Só que eles abandonaram a vida de crimes e viraram pais de família, com empregos, e o Alex tenta voltar pra aquela vida sem limites de quando ele era adolescente, mas com seus amigos já com suas vidas formadas, ele percebe que aquela era hora de sair daquela alienação, encontrar um trabalho e em outras palavras, “virar homem”.
        E esse final deixa aquela dúvida básica, se o Alex era ou não psicopata, ou se era apenas um jovem mimado e rico. Se me perguntassem qual dos dois era melhor, eu prefiro o final do filme, hehe. Dei uma pesquisada rapida aqui e li em um lugar que o Kubrick não colocou esse final do livro porque ele não foi publicado na versão americana até 1986. Sabe-se lá diabos o porquê. =P

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