Caderno de sonhos: um filme na praia

Começara há alguns meses. Já ouvira que sonhamos todos os dias (as noites), apenas esquecemos que sonhamos. E sempre tivera sido assim, mas há alguns meses passou a ter sonhos intensos, daqueles com muitos acontecimentos, como se dias ou semanas ou meses passassem em uma noite só, sonhos vívidos, talvez mais vivos do que a própria vida. Ainda assim, passado algum tempo, já não conseguia lembrar.

Lembrou de David Lynch. Não de seu “Veludo Azul” ou “O homem elefante”, mas de seu “Mulholland Drive”. Como ele transferira tão bem para a tela de cinema o ato de sonhar. Pois se havia partes do sonho em que não gostaria de acordar mais, de tão boa a sensação, que não lhe acontecia na vida real, também havia a estranheza de bizarrices que inesperadamente surgiam. E acordava, “então era só um sonho? É claro que era só um sonho”. Saindo do filme, desculpe, do sonho, com aquela sensação estranha.

É hábito de muitas pessoas manterem um caderno de sonhos, para que assim que acordam, antes que o consciente possa levar embora a catarse do inconsciente, poderem ter um registro. E talvez, analisando-o, possam depreender algo que precisam perceber?

* * *

O primeiro registro no caderno de sonhos

EXT. PRAIA – NOITE – (como será que Kurosawa registrava seus sonhos?) Bem, lá estava o francês. O francês de seus sonhos. Vinham de alguma sessão de cinema? De algum festival? Caminhavam. Em direção à praia. Bebiam. Ou melhor, cambaleavam. Amigos boêmios! Exatamente como aquelas cenas de alguns amigos perdidos na noite, lembrou Claire Denis, um pouco. Sim, não eram só os dois, mas não havia outros rostos com nomes. Conversavam de algo? Sem importância. Davam risada. Era bom estar ali.

Corta para: uma mesa na praia, com um balde de gelo e duas garrafas de champanhe. Duas cadeiras. Seria uma celebração só para dois? Mas ela também estava ali. Não sabia se o outro amigo se incomodava. Sim, o francês a convidara. Era um recanto na areia. Beberiam ali? O sol amanheceria? Teria algum conflito pela sua noiva. Um rapaz de barba e camiseta com a face decepcionada, como se ela tivesse feito algo de errado. Mas o quê? Como se todos os amigos de curso a condenassem. Por quê? (não se lembrava)

Como Nolan registra seus sonhos? Talvez com uma luz ofuscante. Como Kurosawa registrava seus sonhos? Ah, é verdade, ele os pintava. Ele os amava? Creio que lhes intrigava.

Queria, sim, ficar ali naquela praia. Jogando conversa fora, dando risada. O inconsciente lhe dá o que o consciente lhe nega, embora seja melhor esquecer. Mas só por um ou dois minutos, fica ali deitada, em silêncio, na estranheza do acordar.

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