Caderno de sonhos: pelos fios do seu cabelo

Era uma pequena cidade medieval, como um parque de atrações enorme, era longe uma atração da outra. Casas que pareciam castelos, ruas de pedras e estavam ali para uma espécie de congresso, com múltiplos espaços de pesquisa, e talvez lhe fora designado um local específico? Entrara nessa casa em que havia uma exibição tecnológica, algo do mais inovador, demonstração de super efeitos, peças voando, um robô que precisava das partes se unirem para formar o produto final.

E, de repente, ele estava ali também. Não se sabe o porquê, mas estavam deitados lado a lado então, observando uma apresentação. Não foram trocadas muitas palavras. Existia algo de sentimental entre ambos e não era preciso dizer. Dado momento, ele fala algo baixinho, ela não consegue ouvir, aproxima o rosto e, na tentativa de aproximar o ouvido da boca dele, com o deslocamento dos dois lados, quase seus lábios se tocam sem querer. Afastamento. Aquele certo estranhamento em que ambos devem pensar “o que acabou de acontecer? o que foi isso?”. A hipocrisia de fingir que não aconteceu nada. Ambos voltam o olhar quase que imediatamente para a tela acima. Mas ele se aproxima mais, como num aconchego. Ela não lhe nega carinho.

Passa a mão por entre os fios do seu cabelo.

Ele, ainda com a barba (e ela, que nunca gostara de homens com barba ou pelos demais) por fazer, tinha os fios mais macios e gostosos de acariciar de que ela havia se dado conta. Quase como um afago também de alma, sensação boa.

– – –

Após acordar, o que fora de súbito, num susto por precisar de hora, ela se perguntara por quê. Por que sonhara com ele? E porque, de tantos sonhos, estava se lembrando justo desse? No sonho, haviam sido interrompidos pelo final da apresentação; na rua com a multidão, avistara um outro que tinha interesse por ela, acenando ao longe. E, mais tarde, perguntava-se porque o mocinho de fios tão negros e tão macios tinha que ser tão imaturo? Porque justo ele, que conhecia tanta coisa a mais do que outros de sua idade, tinha que ser tão impertinente, tinha que lhe irritar tanto, tinha que lhe provocar (será que o fazia deliberadamente?), tinha que ter posicionamentos e comportamentos tão extremos que chegavam a lhe embaraçar às vezes? Se não o fosse, se fosse mais calmo e tranquilo, talvez ela gostasse mais do pensamento sobre ele e se deixasse querer ficar muito tempo deitada, acariciando os fios  – mas sonhos servem a isso mesmo, não? O inconsciente lhe dá o que o consciente lhe nega.

“Você não quer namorar comigo?”

“haha. Tá louco?”

( )

“Só se fosse uma relação puramente sexual”.

Ouvir jazz de vez em quando é bom.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s