Um post para o Dia dos Namorados

Eu reclamo que o Dia dos Namorados é uma data puramente comercial, mas tirando o ano passado, quando eu estava observando a lua cheia do outro lado do mundo, a data rendeu este post aqui e este outro, posts que eu gosto bastante. Então que tal transformar nosso antigo conceito? Que tal se a forma de revolta seja silenciosa e celebrarmos, sim? Mas ao invés de consumir algo caro pra dar de presente, que tal se simplesmente oferecermos um abraço caloroso, ou um poema, uma canção, uma flor espontânea, um “olá”, um “obrigado”, um ombro, um ouvido, um sorriso sincero, uma esperança, um sonho? Há muitas maneiras de celebrar, mesmo em gestos pequenos. Talvez mesmo esses sejam difíceis e exijam coragem. Então por que não dar esse passo a mais hoje? Aproveitar este dia pra mais do que só dar um presente material, dar algo para a alma? Porque é sempre tempo de celebrar o amor.

* * *

And now for something completely different.

* * *

Um velho rapaz veio um dia me perguntar, como um desafio, se caso aquele antigo namorado estivesse disposto a um relacionamento, eu recusaria. Creio que não respondi direito naquele momento, meu argumento sempre é de que estou bem sozinha, por que é tão difícil pras pessoas entenderem que isso é possível? Mas gostaria de retificar aqui essa resposta.

Sim, o velho rapaz tem razão. Eu aceitaria aquele namorado. Não é porque eu trabalho e estudo, com a correria do dia-a-dia atarefada, que eu diria não para alguém. Não é porque estou sozinha, que aceitaria qualquer um. Mas eu o aceitaria.

Um outro amigo me disse que percebeu como relacionamentos passados o ajudaram a amadurecer e mudar. Eu reencontrei o tal namorado faz um tempo, e lembrei de tudo isso. Embora, não seria voltar, seria como algo novo. Pois tanto tempo se passou, experiências, lugares, pessoas. E querendo ou não, amadurecemos de alguma forma.

Uma outra amiga comentou que as pessoas não mudam. Tudo bem, também não acredito que mudem por completo, mas eu mudei um pouco. E sei que essas mudanças se devem ao caminho budista que sigo. Um caminho que admite que o treinamento é pra vida inteira, é todos os dias.

E como seria? Sem a exasperação de outrora. Não ficaria cobrando por algo que eu gostaria que ele fizesse (e ele nem soubesse o que eu queria). Não teria nem como reclamar de não poder vê-lo alguma semana ou final de semana (pois no momento os dois tem suas rotinas atarefadas, e entendendo nossas personalidades, faz todo o sentido). Não me desesperaria por todas as amigas dele, e teria menos ciúmes por qualquer atividade que ele fizesse sem mim (afinal, eu tenho minhas atividades também). Compreenderia mesmo caso precisasse de um tempo só com os amigos (e eu também não tenho esses momentos?). Não ficaria pedindo por atenção, com a insegurança de achar que estou sendo deixada de lado, que ele está priorizando a outra pessoa mais do que eu (porque isso seria exatamente o egoísmo que os budistas tentam evitar). Ouviria suas elucubrações com interesse, admitiria quando desconhecesse algo e o admiraria, elogiaria seus esforços (apoiando-o, pensando no que deixaria o outro feliz, como buscam os budistas). Agradeceria por gestos simples, mas doces; sorriria mais, reclamaria menos. Apreciaria uma tarde de paz e de preguiça. Perguntaria mais dele e quereria provar menos de mim. Exigiria menos dele e exigiria menos de mim. Olharia mais em seus olhos quando se deitasse ao meu lado. Ou simplesmente olharia mais em seus olhos.

Quereria viver tudo o que não vivemos, tudo o que ainda não foi. Um Noitão do Belas Artes. Queria alguém pra ir uma vez por mês ao cinema pelo menos, apreciar a sétima arte, que é um amor em comum. Uma ópera no Teatro Municipal ou um concerto na Sala São Paulo de vez em quando, quem sabe um show, um musical. Filar um pedacinho do seu hambúrguer vegetariano. Queria andar pelo centro da cidade só pra observar o movimento da vida. Planejar uma viagem. Comprar-lhe algo de presente. Ficar um dia fazendo maratona de série ou de filmes. Ir na sorveteria. Na praia. Conhecer lugares novos junto com ele. Queria observá-lo fazendo panquecas verdes pra mim. Queria me impressionar com suas teorias, receber citações de livros ou notícias. Um passeio verde pelo menos uma vez por mês, uma trilha, um jardim, deitar na grama e tirar fotos das nuvens. Queria que tivéssemos uma nova história.

E aquele velho rapaz (ou qualquer outro) me confrontaria por tudo isso ser ideal demais. Aquele amigo não se importaria e talvez até me incentivasse. Aquela amiga se indignaria e só entenderia o acontecimento depois de algum tempo.

Mas eu aceitaria, sim, uma nova história. Existem algumas pessoas com quem cruzamos na vida que conseguem deixá-la mais viva. E eu não aceitaria qualquer um, porque seria injusto com qualquer pessoa se fosse menos que um sentimento. Mas eu aceitaria alguém em quem reconhecesse um sentimento especial – e como eu já vivi, sei do que estou falando, velho rapaz. Aos novos namorados, meu amigo, eu lhes faria um único lembrete: de que não é fácil. As coisas dão errado, uma hora ou outra a gente briga, enfrenta desafios e dificuldades, monotonia ou tristeza, porque essa é a beleza de se estar vivo. E poder lidar com todas as mudanças e aprender, evoluir, minha amiga. Amor de verdade é a vida inteira, todos os dias – como o treinamento budista.

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2 Replies to “Um post para o Dia dos Namorados”

  1. Fiquei emocionada com o seu post, rs.
    Desejo um dia feliz para uma amiga que não vejo tanto, mas que admiro muito!
    E que todos possamos amar e ser amados, seja pelos familiares, pelos amigos que passam (e muitos que ficam) em nossa vida, seja por um alguém especial que fará parte da nossa jornada (por alguns momentos ou pela vida toda). Viva o amor!
    Beijos.

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