Gaston e a Fera

Um de seus desenhos favoritos da Disney era “A Bela e a Fera” (1991), baseado em um conto francês. Ela, a garota gentil, que gostava de sonhar com as aventuras nos livros e também convivia só, tendo de cuidar de um velhinho. Ela também era romântica e não ligava para aparências, podia muito bem encontrar o amor mesmo que não fosse num “príncipe encantado regular”.

Daí que aquele rapaz lhe lembrou o Gaston. A empáfia. Todo orgulhoso de si, achando-se o único possível candidato para a Bela. Como era possível que alguém tivesse tanto orgulho de si mesmo, achasse que está completamente certo, ficando cego e entendendo apenas o que quer entender, sem conseguir ouvir ninguém? E ele nem tem aquelas moçoilas suspirando por si, não. Simplesmente decidira que Bela tinha que se casar com ele, enfureceu-se diante da rejeição e ainda mais percebendo o sentimento da donzela por outro, enviou seus “exércitos” caçarem a Fera.

E foi quase assim que aconteceu. Este Gaston que não é o do desenho animado infantil, mesmo sem perceber, convocara seus exércitos, espíritos inferiores, para afastar o grande amor da vida dela. Ficou tentando conquistá-la, sem entender que não era por nenhum motivo lógico, ela não o queria simplesmente porque sempre amou outro. Claro que não poderia declarar seu amor para toda a cidade, porque as pessoas provincianas não conseguiriam entender. Gaston, cego, ainda tenta provar que poderia ser um melhor namorado, marido, sem entender que a história que ela tinha vivido com a Fera era outra, não seria com mais ninguém. Gaston não percebera que a humilhara diversas vezes, na tentativa de provar que era “o bonzão”, a rebaixara, a insultara, ela o repudiara. O próprio Gaston não percebera que estava prendendo Bela – só que não num calabouço ou masmorra, mas com amarras invisíveis. Como poderia ele ser tão egoísta para não desejar que a pessoa amada fosse feliz? Estava atando-a a si mesmo, impedindo que ela ficasse com o verdadeiro amor, ao enviar em sua direção todo o sentimento negativo, e seus comparsas, espíritos inferiores, invisíveis, que mesmo sem ele saber, combatiam todos. Desde que Bela conhecera Gaston, ela não teve sorte no amor. Conheceu pessoas, mas nenhum dera certo.

Há pouco tempo, num ímpeto raivoso, parecia que Gaston tinha finalmente compreendido, e uma portinhola das grades invisíveis que a impediam de voar se abria. Parecia que depois de anos de confinamento em um cubículo escuro, em que estava de mãos atadas e soluçando aos prantos, suplicando para que a deixasse livre, após percorrer o lúgubre corredor de um limbo, pôde ela pisar novamente num campo verde e claro, sentir um calor suave do sol que era absorvido pela pele. Pôde rever o amor da sua vida. Teve um vislumbre. Ele trouxera-lhe de presente seu sorriso terno, doces e um sabor novo, o olhar que há tanto esperava e talvez nem soubesse que esperava.

Mas Gaston não tinha desistido! Ainda de olhos vendados. Bela estava atada novamente pelas amarras invisíveis, dos espíritos inferiores. E ela duvidou. Talvez devesse deixar-se morrer naquela solitária?

Talvez ela também estivesse sendo cega? Iludindo-se, insistindo em algo que não era pra ser?

Mas tudo que aquele vislumbre lhe possibilitara foi perceber que a Fera era o amor da sua vida. Aquela Fera, que a princípio lhe parecera horrenda, também estando a lhe prender, na verdade provou mover-lhe um sentimento muito mais forte, com apenas um olhar. Bela apreciava ver a Fera mudar, e existia algo de mágico em sua história juntos. Talvez ainda faltasse a própria Fera perceber o amor, talvez faltasse Bela lutar um pouco mais para quebrar o feitiço, talvez ela precisasse salvar a Fera dos exércitos de Gaston?

E então, talvez, sob a chuva fina que eles tanto gostavam de sentir na pele…

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