2017 – 0 Oscar mais triste da minha vida

Temporada de prêmios passando, Oscar taí e cadê aqueles posts de maratona? Pois é, minha gente, depois que o DiCaprio ganhou o dele, Oscar perdeu a graça.

Mas… Claro que parti na “missão”, tentando ver pelo menos todos os indicados a melhor filme – e gente, que tristeza. Digo, literalmente. Não me lembro de chorar em tantos filmes assim pro Oscar nos outros anos, vai ver eu tô realmente ficando muito velha e sentimental.

Vejamos, até o mais animadinho, o velho oeste moderno A qualquer custo, com a personalidade locona que cai como luva em Ben Foster, as farpas irônicas entre o policial que tá pra se aposentar e seu parceiro índio de longa data, os roubos, a garçonete, a perseguição, tem como mote central por trás de todo o estratagema a crise financeira, a exploração de grandes bancos, e tem que morrer uns por ali no meio, a vida é injusta e a gente garante o nosso né. Meio triste.

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Foi indicado a melhor filme, roteiro original (gosto muito, os diálogos, lembra da senhora explicando as opções do menu?; os personagens, a crítica de quem rouba quem), ator coadjuvante (não sei vocês, mas sempre adoro o Jeff Bridges) e montagem (caçadas e bangue-bangue sempre exigem boas montagens, além da gente ir descobrindo o plano todo).

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A chegada trata de uma intérprete que vai tentar desvendar uma comunicação com aliens misteriosos, não parece uma história que vai te fazer chorar. Adorei como criaram o sistema avançado de linguagem dos aliens, trabalho de linguista mesmo, lembrei dos anos de faculdade em Letras. Mas daí vem uns flashbacks, *cough, flashforwards, e de repente você se dá conta do peso das escolhas, mesmo sabendo de todo seu passado e todo seu futuro, amar uma pessoa sabendo de sua perda… Ah, a condição humana.

2016-arrival

Indicado a melhor filme, direção (sabe que nosso olhar e sentidos são conduzidos e eu gostei?), roteiro adaptado (concentrado em pontos contundentes), fotografia (eu gosto da fumaça e como os aliens escrevem), montagem (trabalhão! pedacinhos de informação pra revelações finais e sentimentos de falta de ar), mixagem de som, edição de som, desenho de produção.

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Não está entre os indicados a melhor filme, mas vamos dar uma palavrinha sobre Capitão Fantástico? O pai que sempre procurou o melhor para seus filhos, mesmo isso significando uma “sociedade alternativa”, além de deparar-se com a perda da esposa, tem que confrontar seus próprios ideais diante de acontecimentos reais. Sei que Viggo Mortensen não leva a estatueta, mas um trabalho esmerado, que tem tudo a ver com ele mesmo, meu voto é dele. Chorei – que dor ter que abrir mão de tudo que se acreditou até então.

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Já um ator respeitado por todo mundo, que também entra na direção, e tem fortes chances este ano novamente é o Denzel Washington. Esse nos leva pra um filme carregado nas atuações, Fences (e como não pude ver no cinema antes da premiação, ignoro seu título em português). Tudo bem, nesse eu não chorei, achei até meio chato, que bom que não terei que pagar ingresso por ele. Ê velho lixeiro amargurado, cheio de histórias pra contar, lutando contra a morte e o diabo, com um irmão com placa de metal na cabeça; mais coitada ainda da mulher que tem que aguentar até bebê de outra a essa altura do campeonato, e o filho que só queria jogar futebol. Triste.

Indicado a melhor filme, ator (papel forte, mas ele nem precisa de mais prêmio), atriz coadjuvante (Viola Davis, ela já teve momentos melhores, mas acho que este é seu ano no Oscar), roteiro adaptado (histórias de passados doloridos, na tela não comoveu tanto).

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Lion, sim, me fez chorar (e odeio chorar quando sei que o filme é feito pra chorar), apesar da grande propaganda do Google Earth. Tem a Nicole Kidman mãezona que adota filhos e sofre com cada um perdido à sua maneira. Não tem como, gente, depois de passarmos junto com o menininho sozinho as andanças pela Índia, orfanato, chega aquela cena da banheira… E eu não gosto tanto da parte do tormento com a namoradinha, mas como não deixar a lágrima sair no reencontro com a mãe biológica depois de tudo aquilo?!

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Foi indicado a melhor filme, roteiro adaptado (saber que existiu um menino assim na vida real é o que emociona), trilha sonora, ator coadjuvante (Dev Patel não está mal, mas nada excepcional), atriz coadjuvante (competente).

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Agora, o que me doeu a alma mesmo foi a cena daquele encontro furtivo na esquina com a moça do carrinho de bebê em Manchester à Beira Mar. A gente nem lembra mais do diálogo, mas o sentimento contido ali é profundo. Aliás, eu gostei muito mais do filme do que achei que ia gostar, um dos melhores trabalhos de direção e cenas que fazem sentido estarem ali, todas. E a montagem ajuda hein. O zelador que tem que cuidar do sobrinho após a morte do irmão, e no processo reabrir suas feridas enterradas, queimadas. A pesca com o menino, a rotina de trabalho (como adolescentes, perguntamos a mesma coisa, não pode largar isso?, pra depois entender que não dá mais pra trabalhar naquela cidade), ver a vida do sobrinho, a comida que queima, a caminhada na estrada, o susto de ele pegar aquela arma.

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Indicado a melhor filme, direção (um diretor que sabe respeitar tempos, permite que seus atores sejam competentes), roteiro original, ator (os irmãos Affleck fazem mais sucesso nos tipos caladões mesmo), ator coadjuvante (Lucas Hedges bem, sem exageros), atriz coadjuvante (Michelle Williams sofredora de sempre).

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Outro que chorei embora fosse claro que foi feito pra isso? Até o último homem. É, conhecendo um pouco de Mel Gibson, poderíamos esperar grandiloquência; ó, o herói americano; ó, o homem de fé! Tinha que ter luta e guerra, o Andrew Garfield é engraçadinho e fácil de a gente gostar; a namorada é um doce, e mais do que a parte do treinamento militar o que pega a gente mesmo é o campo de batalha, é aquele esforço enorme pra sobreviver e salvar. E além de tudo isso, ali pelo meio, tem aquele pai… um bêbado desacreditado que, apesar de tudo, ainda fará o que pode para ajudar o filho. É nessa superação de si mesmo como ser humano que o filme ganha mais valor.

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Indicado a melhor filme, direção (um pouco mais clássica aqui, né? Mas tá valendo), montagem, ator, efeitos sonoros, mixagem de som.

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Um que foi mais divertido de acompanhar foi Estrelas além do tempo. Que coisa primorosa poder conhecer as vidas dessas três mulheres que eu nem sabia que existiram! Só por serem tão boas em matemática eu já as admiro (sério, aquilo seria impossível pra mim), mas se desafiaram a algo a mais e seja pleiteando uma vaga pra engenharia, seja se antecipando ao progresso dos “computadores”, ou atrevendo-se a mostrar suas habilidades, enfrentaram aquele ambiente intimidador tendo uma visão maior. Este filme sim dá um pouco de gás na gente, a gente torce por elas e fica feliz pelas suas conquistas. O triste aqui é só saber que realmente existiu uma época em que os banheiros eram separados por cor, constatando como às vezes a humanidade pode ser estupidamente contra ela mesma.

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Indicado a melhor filme, roteiro adaptado (interessante e divertido!), atriz coadjuvante (Octavia Spencer é boa atriz, ganha logo nossa estima, mas não uma atuação que vai ficar na memória).

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Aliás, engraçado como tem dois atores (Janelle Monáe e Mahershala Ali) em Estrelas além do tempo que estão no outro indicado que seria uma resposta #oscarsowhite – Moonlight: sob a luz do luar. Nós vemos três fases de uma vida: Little, Chiron e Black, o menino importunado pelos colegas que encontra uma figura masculina para admirar, vira adolescente que ainda sofre bullying e acaba não aguentando mais, cresce para se tornar forte como o tal cara das drogas, mas sem esquecer uma noite na praia. É triste ver a mãe drogada e sabermos mesmo sem ele dizer que ele não sabe ainda bem quem é, só queríamos um pouco mais de afeto nesta vida, menos preconceito e violência…

Foi indicado a melhor filme, roteiro adaptado, direção (boa; o menino aprendendo a nadar, a disposição de corpos, o reencontro ao final), fotografia (queria ter visto a pele deles quase azul sob a luz da lua!), montagem, trilha sonora (eles misturam uns momentos clássicos ali, não sei se funcionou pra mim), ator coadjuvante e atriz coadjuvante (Naomi Harris).

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Ufa! E falando de filmes felizes, eu deixo para o final deste post aquele que eu achava que seria o único filme que me deixaria contente e com um sorriso no rosto após sair da sessão. La la land: cantando estações. O musical de cores vibrantes, com sequências lindas de danças românticas e sonhos que se realizam! Só que… Não foi bem assim. Na verdade, foi o filme que me deixou mais triste e até pensei em escrever um post desabafo só pra ele, mas por questões de tempo, vamos deixar isso por aqui. E aquela melodia melancólica que achei que não ia grudar, ficou na cabeça. Eu vi a mim mesma jovenzinha na pele da personagem de Emma Stone, com sonhos de Hollywood e frustrada com a realidade. Só que eu sou uma daquelas pessoas que ela menciona quando o personagem de Ryan Gosling vai buscá-la na casa dos pais, para quem os sonhos não se realizam, só mais alguém que teve que achar outra coisa pra fazer da vida. Claro, é engraçado ele tocar numa banda temática dos anos 80, eu adoro ele explicando com entusiasmo sobre jazz, porque aquilo é sua paixão, é bonito ver eles sapateando após “contemplar” uma paisagem, gosto do passeio no planetário, achei lindíssima a dança com estrelas espelhadas por água no chão. Mas também tem o lado da realidade, as pessoas e os sonhos mudam, e foi tristíssimo a sequência final, quando ele toca toda a história deles e em determinado ponto, inclui como tudo deveria ter sido, como gostaríamos que a vida tivesse tocado. E quem nunca teve um momento assim? Em que a gente para pra tocar uma outra versão nas nossas mentes, por mais sucesso que possamos ter alcançado…

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Indicado a melhor filme, direção, roteiro original, fotografia, desenho de produção, figurinos, trilha sonora, canção original – 2 indicações: “Audition (The fools who dream)” e “City of Stars”, efeitos sonoros, mixagem de som, melhor ator e melhor atriz.

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Ah, como eu queria ter feito cinema, há muito tempo atrás, quando ainda era jovem… E o Leo nem era tão rico e famoso, a gente podia ter se casado. Ah, como eu queria continuar a viver na minha L.A. imaginária, em que eu realizo o sonho de fazer filmes, fico milionária e tenho o amor da vida, posso ajudar o mundo a ser um lugar mais feliz, tudo é colorido e brilhante.

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Mas o Leo já ganhou o Oscar dele. Eu não tenho mais pelo quê torcer. O sonho acabou e vou ter que aprender a tocar outra música. Por isso lhes digo… este é o Oscar mais triste da minha vida.

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