Mah nenhumzinho da Mostra este ano?

Teve uma época da minha vida em que eu pegava um Guia da Folha, por exemplo, dava uma pesquisada também em sinopses, premiações, e lá ia igual a uma louca encaixando horários, correndo de uma sala de cinema pra outra por São Paulo (geralmente na região da Paulista onde as salas se concentravam), sem saber direito o que comer, levando algum lanchinho se possível…

Era um tempo bom em que eu tinha mais tempo pra me dedicar a isso? Talvez. Desde que desisti do curso de audiovisual – e de fazer cinema, como um todo – eu sei que me distanciei muito dessa tal sétima arte que era tão central para minha vida… E hoje, confesso que me sinto bem à deriva, não reconheço mais os nomes dos atores e diretores em voga, tem tanta oferta de produção que eu nem sei bem se tenho algum estilo de preferência, passei a ser uma espectadora comum, não a almejante à cinéfila ou crítica de filmes, simplesmente alguém que vai ao cinema uma ou duas vezes por mês e assiste a alguma coisa que imagina ser boa disponível nos serviços de streaming… Nem me dar ao trabalho de buscar o tio Torrent ou outra via de download já me dou mais.

Tendo dito isso, eu até poderia arriscar um “Parasita” (o coreano vencedor da Palma em Cannes), mas só de pensar nas sessões que acabam tarde e que provavelmente vou me frustrar de novo… quantas vezes eu não acabei de fora dessas sessões dos “badaladinhos” da Mostra, porque ingressos pra elas são pra quem pode, não pra quem quer?

Também, em outros tempos, acho que eu me animaria com as sessões no Municipal – prestigiar a Fernanda Montenegro? Que tudo! – apesar de eu achar que é uma região ali meio perigosa de São Paulo à noite. E algum encontro de debate sobre meio ambiente? Ainda com Fernando Meirelles? Claro que encararia.

Mas os tempos são outros. E eu já expliquei minhas atuais condições, né, ser grávida e diabética não é tarefa fácil. São muitos cuidados extras, médicos e exames, sem falar nas outras preocupações, preparativos pra sair de licença, enxoval, chá de bebê…

Mas não dizem que quando a gente quer, a gente arranja tempo? Pois é, a disposição também muda com o tempo, né. Até o nível de cansaço e quão rápido ele se instala. Outro dia mesmo eu comentava que quando eu era mais jovem encararia de boas um dia inteiro de show – como Rock in Rio, Lolla etc… Ou uma noitada de balada até amanhecer pra comer um dogão antes de ir pra casa e dormir até de tarde… Mas hoje em dia? Nem pensar! 10 horas quero minha cama! Os noitões do Augusta e Belas Artes banidos para sempre, então? É, nem sei se ainda existem.

Só pra não ser aquela decepção total, compartilho com vocês que gostei da cobertura nas notícias do site da Mostra – nunca acompanhei, eles sempre foram assim tão diligentes postando todos os dias as sessões com presença de convidados ou debates? Pôxa, e eu perdi todo esse tempo…

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E vão do MASP teve, né, claro. Tá ali, é de grátis, saio do trabalho e caminho um tantinho, já foi. Este ano eles exibiram “O mágico de Oz” (1939)****, em homenagem ao Rubens Edwald Filho, pois ele gostava muito. Mas eu conferi um que eu não tinha visto ainda, “Todas as canções de amor” (2018)**, porque ganharam o prêmio da crítica pra filme brasileiro na Mostra do ano passado.

Mâs, assim… Não sei se gostei ou desgostei. É bem feitinho, tem umas referências até que legais – “Clarisse?” / “Lispector. Claro que não né, nossa Clarisse”. Uns diálogos de cortar o coração, mas que a gente sabe quando relacionamentos estão no fim é bem possível – “você já foi tão mais interessante” – ai. As canções escolhidas na fita são populares e tem aquele verso no lugar certo do filme. A fotografia é cheia de luz, gostei muito de uma das tomadas finais com o sol e “I will survive” de fundo. O casting do Bruno Gagliasso e da Marina Ruy Barbosa parecia uma boa ideia, porque tem tanta gente que acha eles bonitões e maravilhosos – embora não tenham me comovido muito. A montagem, que aqui faz toda a diferença, também se sai bem, brincando com os paralelos das duas histórias desses casais. E aí, do que desgostei? Não sei, só sei que foi assim. O filme é bem fechadinho, acabadinho, mâs… sei lá, não me empolguei, não me emocionei. Mas tudo bem, a vida é assim mesmo, fases e fases. Talvez seja só um reflexo desta minha fase atual, em que realmente pouca coisa no cinema me deixa feliz de verdade… e a vida continua, fazer o quê, né.