Um episódio de BoJack para as mamães no puerpério!

Já faz um bom tempo em que eu acho que algumas obras audiovisuais chegam para mim exatamente na hora em que preciso encontrá-las, como se o universo conspirasse comigo pelo cinema ou pelas séries, já que eu gosto tanto disso… E recentemente eu tive minha primeira gravidez, tendo nascido a minha primeira baby.

Sabe, tem várias coisas que eu não fazia ideia, acho que na questão de ter filhos, tem coisa que a gente só descobre passando pela experiência mesmo. Eu fui sentindo e vivendo cada fase procurando na internet pra saber se era normal, não tive “desejos” loucos, tive algum enjoo, mas não saí correndo pra vomitar tanto como mostram os filmes ou séries – geralmente mostram a gravidez e o parto de uma forma que não é bem assim na realidade mesmo… Mas eu tive quase de tudo que uma gravidez tem direito, dor nas costas, azia, refluxo, inchaço nas pernas, vontade de fazer xixi toda hora, incontinência urinária, insônia, falta de ar, pesadelos!

E pouca gente também sabe sobre a fase imediatamente pós-parto que a mulher passa, o puerpério, que pode incluir ali um sentimento de tristeza ou “baby blues”; além das dores pós-cirurgia, no caso da cesárea; hormônios e nervos à flor da pele que faz a gente chorar às vezes sem nem saber por quê. No meu caso em particular foi um pouco pior, pois voltamos ao hospital, teve algo inesperado e passamos dias na UTI e mais alguns internados…

Daí, esses dias eu finalmente estou vendo a última temporada da série que vim a gostar de acompanhar e acabou, BoJack Horseman. E que episódio fantástico foi o segundo da sexta temporada! Até poderia ser o reflexo das mães do nosso tempo… ou das mulheres que acabaram tendo que lidar com tanta coisa, trabalhar fora e cuidar da casa, que acabam ficando sobrecarregadas. Tem uma parte que é bem satírica disso, do encontro das mulheres que “fazem de tudo”.

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O episódio se centra no personagem da Princesa Carolyn, que ficou a temporada anterior inteira atrás de um bebê, porque ela decidiu adotar, apesar de não ter um parceiro e depois de alguns abortos. Só que ela é aquele tipo de mulher que se dedica muito ao trabalho, um trabalho que pode envolver ter que cuidar de muitas coisas diferentes; a chegada de uma nova vida, principalmente por ser ainda recém-nascido, se prova muito mais desafiadora do que ela podia prever.

Como é um desenho animado, eles brincam com a imagem, fazendo ela se desdobrar em várias – ou vemos vários “clones” dela fazendo diversas atividades ao mesmo tempo: trocando fraldas, colocando no bebê conforto, dando leite, brincando, acalentando e protegendo o bebê – e como é um porco espinho, ela tem que usar luvas de forno para não se furar! Hahaha. Também tem vários itens de bebê agora espalhados pelo apartamento, roupas, brinquedos, livros sobre criar os filhos. Quando chega a noite, ela só tem forças para cair na cama; dali a pouco o bebê está chorando de novo…

A organização do evento para as mulheres que conseguem lidar com tudo é outra bagunça na cabeça, e haja memória (e o jogo de palavras dos roteiristas!) – água Fiji para os Fugee, sem queijo fetta pra Greta (Gerwish) nem brie pra Brie (Larson)! As babás não ficam e ainda bem que tem o Todd à disposição, pois quando vai buscar seu “cliente favorito” Mr. Peanutbutter, que foi visitar BoJack na clínica de reabilitação, ela acaba sendo internada sem perceber, até recobrar as energias!

Mr. Peanutbutter está tendo uma crise de remorso por ter traído a pug Pickles (que fica super contente quando ele chega em casa, assim como os cães vem pulando na gente quando chegamos em casa) e pede para o diretor Flea Daniels (voz do Lee Daniels!), que já está trabalhando em outro filme com a Chloe (voz da Grace Moretz!), editar o filme mais recente baseado num cartão de aniversário, mas Princesa Carolyn também precisa editá-lo para que tenha mais força feminina – “menos ‘man’ e mais Leslie Mann”; daí o diretor desiste do projeto. E nesses dias em que esteve com Todd, como chamavam a bebê de “Projeto sem título da Princesa Carolyn”, porque a mãe não consegue se decidir por um nome, ele acaba vendendo como uma série para TV depois de dar as respostas certas ehe, mas vem bem a calhar para Carolyn vender o material do Mr. Peanutbutter e incluindo até a tal de Karen Kitada – que uma vez já foi muito requisitada, mas acabou fazendo uma pausa para a maternidade e daí ninguém queria mais trabalhar com ela!

Finalmente, depois dessa confusão, Carolyn perde o baile de gala evento das mulheres, mas acaba desabafando com Vanessa Gekko, sua antiga “arqui-inimiga”. E esse diálogo seria o exemplo típico do que uma mãe no puerpério poderia pensar – embora Carolyn não tenha passado pelos 9 meses de gestação: ela desabafa que não sabe se realmente ama a sua filha. Porque ela adora o trabalho e isso é algo que ela entende, e embora ela “ame”, não tem certeza. Vanessa faz uma comparação que a gata consegue entender: quando tem algum projeto de algum cliente, mesmo que ela não goste do projeto, ela faz o melhor que pode a cada dia, para que o projeto sobreviva, porque esse é o trabalho dela; então imagine que a bebê é sua nova cliente.

Na vida real, é bem verdade que uma mãe possa passar por isso. Antigamente ninguém falava isso, todo mundo só falava no grande “amor de mãe”, mas nem sempre a mãe sente de imediato aquele amor grandioso e incondicional pelo seu filho, seu bebê. E isso é normal. Tudo bem não sentir o que todo mundo lá fora acha que você precisa sentir. Tudo bem não saber o que fazer às vezes. Tudo bem não dar conta. Tudo bem passar dias só cuidando da bebê, sem conseguir fazer outros afazeres domésticos, ou pensar no trabalho, ou lidar com todas as visitas ou todos os palpites que todo mundo dá. Tudo bem chorar. Todo dia, a qualquer hora. Cada mãe enfrenta circunstâncias diferentes, cada bebê é um bebê (mesmo que seja a mesma mãe!). O que a gente pode é só fazer o melhor que a gente consegue, a cada dia, na tentativa de fazer essa nova vida sobreviver.

E, na verdade, acho que isso pode ser expandido como um conceito geral que essa série animada tem a coragem de jogar na nossa cara, desta sociedade que se preocupa tanto com a imagem e é super-informada, mas perdida. Que está tudo bem. Nós somos humanos e nós podemos sentir tristeza, efêmeras alegrias, sentir dificuldades e errar. A vida não é um comercial de margarina – ou uma série de TV dos anos 90 em que tudo dá certo no final do dia, ou a “vida perfeita” daquela celebridade feliz no Instagram. A gente aprende, a gente muda – ou tenta mudar, pelo menos – e a gente continua. Tudo bem não “cumprirmos” com as expectativas, com o que os outros esperam ou que achamos que exigem de nós. Todos os personagens de BoJack tem que lidar com as suas falhas, com momentos de fraqueza, com a tentativa de fazer algo diferente e com a tentativa de sobreviver, um dia de cada vez.

Agora imagine euzinha, nessa fase delicada do puerpério, ter que ir pra UTI, enfrentar a enorme culpa de ter feito algo errado ou ter deixado acontecer. É claro que chorei. Ou mesmo antes disso, nos primeiros dias após o parto, todo aquele cansaço físico e lidar com coisas que eu achava que tinha que ser e não foram; e eu nunca quis ter filhos, agora já “cumpri” essa missão – só que não? Sim, chorei. Mas a gente sobrevive, porque temos que seguir em frente. Desistir também não faz sentido nenhum, se formos racionalizar.  Então, se por acaso algum leitor perdido por aí estiver se sentindo pra baixo ou “fraco” (de alguma ou outra forma), se tiver alguma mãe no puerpério: tudo bem chorar.

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