Avenida Brasil

No último dia 1º de maio terminou a reprise da novela “Avenida Brasil” da Rede Globo. Por acaso, a novela foi exibida originalmente em 2012, e foi em 2012, dia 1º de maio, que meu avô materno faleceu. Fiquei pensando se talvez tenha sido parte da razão de não ter acompanhado a novela na época. Essa foi uma das novelas de maior sucesso do canal, imagino eu, muito popular, a ponto do país parar para vê-la – coisa que eu me lembro de ter visto só no último capítulo de “A próxima vítima” (mas devem ter existido outras ocasiões semelhantes, sendo os brasileiros noveleiros como são).

A bem da verdade, no entanto, desde que eu comecei a faculdade eu perdi o hábito de ver TV. Já não me era muito interessante na época do cursinho pré-vestibular, daí eu trabalhava e ia direto pra faculdade à noite, sem tempo algum. Depois de formada, simplesmente não me interessava mais, eu preferia ver algum filme no pouco tempo disponível. Mas este ano parece que eu me reaproximei da TV, estando lá no hospital o dia inteiro, só indo pra casa algum dia do final de semana, e cansada até para ver as coisas baixadas no computador para ver offline. Não que eu acompanhasse algo realmente, às vezes tinha alguns minutos livres e daí comecei a ver algumas cenas do “Vale a pena ver de novo”. Xenti, aquela cena em que a Nina é enterrada viva, hein?!

Voltando para a casa, continuei assistindo aos episódios, exatamente porque eu tinha perdido da primeira vez. E que sorte a Globo tem de passar um sucesso desses em épocas de quarentena! Com certeza deve ter marcado mais uma vez uma alta audiência noveleira desses últimos tempos, em que imagino que muita gente prefere mesmo é os canais de streaming – que dá pra pausar e voltar quando quiser, e nem precisa perder tempo com as propagandas. Embora, aham, eu sou como a Lorelai, aproveito esses tempinhos pra ir ao banheiro ou pegar algo pra comer…

A Globo sempre tem uma produção caprichada, mas a impressão que me ficou foi que esta novela, em particular, foi uma das primeiras a parecer com coisa de cinema. Talvez principalmente por uma fotografia mais rebuscada; hoje já virou lugar comum de todas as outras novelas, mas lembro que na época eu tinha me impressionado com isso. No modo de usar a câmera, os enquadramentos e as luzes. Pra mim era como uma pequena revolução, assim como foi The Office (a versão americana) pra mim, bem diferente das sitcoms dos anos 90, hein.

Revendo essa fase final da novela, constato essa primazia, e como a direção de arte é bem feita também, com poucos deslizes. Talvez os brasileiros nunca tenham ido ao lixão antes numa novela, e por que não acompanhar um ex-craque de futebol e outros futuros promissores jogadores, no chamado país do futebol? Super bola dentro. Fora a trama principal de vingança, que cria aquele suspense e faz o público torcer – o melhor cenário para uma novela – o autor conseguiu criar personagens memoráveis, se aproveitando do carisma de diversos bons atores. A direção foi acertada naquela dinâmica familiar dos jantares na mansão, com um falando em cima do outro; diversas cenas em que um não deixa barato para outro personagem; e apesar de um ou outro estereótipo, como foi divertido acompanhar! Até mesmo o núcleo mais cansativo, na minha opinião, do Cadinho e suas três mulheres. Todo mundo sempre vai lembrar que, caretices à parte, a maria chuteira podia ficar com um suposto gay filho de uma ex-atriz pornô e um rapaz simples do interior formando um “casal de três”… E o pessoal do salão da Monalisa; a Tessália, morenaça que é claro merece o Leleco ou o rapazinho sonhador lutando por ela; o bar do Silas, como tantos bares existem neste país pra ver um jogo de futebol; as empregadas Zezé e Janaína, cada uma com seu jeitinho e que também representam a classe trabalhadora – aliás, uma empregada se vingando da patroa perua bruaca? Como não dar certo?; a Lucinda mãe do lixão e o Nilo loucão que poderia muito bem representar um mendigo que você aí já viu por alguma rua de cidade grande, meio louco, com barba e cabelo por fazer; o casal de pilantras Max e Carminha menos melhores que Bonnie e Clyde. Claro que a Carminha da Adriana Esteves foi um show à parte, o Brasil vibrou com ela, para o bem ou para o mal, mais até do que torcer pra Nina conseguir se vingar e ficar com o Jorginho – aliás, ouso dizer que teve uma hora que a gente até já se irritou com a Nina, por não acabar logo com tudo, mas daí valeu a pena porque vimos a Carminha rebatendo nas suas jogadas estratégicas e virando o jogo, haha.

Da trilha sonora nem precisamos falar, porque música de novela vai tocar direto nas rádios, lembro bem essa época em que todo mundo cantava o “oi, oi, oi”; “tchu tchu tcha”; “assim você mata o papai”… Por falar nisso, a outra versão, “Vem dançar kuduro” está na trilha sonora de “Velozes e Furiosos 5” (2011)***, o filme da franquia que se passa no Rio!

Com uma narrativa cheia de reviravoltas e um monte de casais formados (mesmo na vida real!), o autor foi abençoado com atuações boas e marcantes, e conseguiu mesmo levar o público, prender a atenção, apesar da longa duração das novelas no Brasil. Quando fui para o Japão, em que as novelas, os “dorama”, tinham a duração das estações, é que percebi como são longas nossas novelas!

Eu costumava acompanhar mais delas quando era criança, talvez por ter mais tempo pra gastar diante da TV, então é difícil eu defender novelas por aqui. Lembro de ter gostado muito de “Rainha da sucata”, “Mulheres de Areia”, “O Rei do Gado”, “Quatro por quatro”, entre uma ou outra das 7 também, além de Ana Raio e Zé Trovão do rodeio e a Juma do Pantanal, e as mexicanas do SBT, claro. Mas esta daqui realmente valeu a pena ver de novo, dentro desses anos mais recentes, em que nem acompanho nada, valendo assim um registro. Pra provar que quando uma história é bem contada, bem apresentada, é como a magia do cinema acontecendo, mesmo que seja para a telinha.

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