Orgulho LGBTQI+ e uma comédia romântica

Então parece que este mês é do orgulho LGBTQI+ – e confesso a vocês que eu, na minha perdida da década, tinha é parado no LGBT e nem sabia que a sigla tinha crescido. Este mês de junho geralmente São Paulo seria uma cidade que veria a famosa parada, que já foi cenário até daquela série de grande produção das (hoje) irmãs Wachowski, Sense 8. Série que tem umas cenas bem picantes, por falar nisso, tem personagem lésbica e trans, e tudo o mais, e levanta a bandeira com todo o orgulho, o que não é de se admirar, considerando as criadoras. Este ano não vai ter parada, mas me peguei, através do cinema, relembrando desta época de uma maneira um tanto inusitada: por uma comédia romântica! Quem diria!

Eu adoro comédias românticas, deveria escrever um longo post só sobre as minhas favoritas, quem sabe, mas admitamos que a maioria dos exemplares desse “gênero” pode trazer uma narrativa bem convencional. Na maioria das vezes é o cara e a garota, que se conhecem, tem algo que impede ficarem juntos e no final, é claro, ficam juntos. Dentro do panteão das comédias românticas, tem uma que eu queria rever e por acaso quando eu fui procurar ia passar no Telecine e eu pude assistir – assim, de gracinha, ó deuses do cinema, vocês devem se divertir ao me ver ganhar de presente os filmes assim e ficar tão feliz.

Só tinha uma vaga lembrança dos tempos de pré-adolescente, mas Alguém muito especial (Some kind of wonderful / 1987) ***  me surpreendeu agora que sou bem adulta. E não é que os diálogos não são os habituais previsíveis, nem soam forçados ou elaborados demais. E o filme não envelheceu mal em seu tema, sendo mais sensível do que poderíamos esperar. Tem uma garota que é um estilo meio punk-rock, mas que se apaixona pelo melhor amigo, que por sua vez se interessa pela garota mais linda e popular da escola. Sim, a trama é a mais velha do mundo, mas é um filme escrito pelo John Hughes, minha gente! Esse cara que teve ótimos momentos de roteirista, principalmente retratando a juventude de uma forma mais real, relacionável e não menos cool do que muitos por aí, gerando alguns dos melhores filmes para esses jovens anos 80 (incluindo eu) – hello, Curtindo a vida adoidado (1986)****, Clube dos cinco (1985)***!

Daí, hoje eu estava vendo uma lista de frases que provavelmente a gente já ouviu alguém dizer, ou talvez nós mesmos digamos, nesse tema LGBTQI+… que nós temos que parar de dizer. Não é que me lembrei dessa comédia romântica dirigida pelo Howard Deutch. Aliás, um adendo divertido a se notar: o cara se casou com a Lea Thompson, que faz a menina mais linda do filme (e a mãe do Marty Mcfly, só pra constar), e eles tiveram uma filha que hoje em dia… faz comédias românticas! hahaha. Voltando ao filme e ao tema em questão, a personagem da Mary Stuart Masterson (a melhor amiga Watts) é questionada em determinado ponto sobre usar cuecas, no vestiário feminino. E o próprio amigo vivido pelo Eric Stoltz comenta com o pai que ele não é lá muito popular, tendo uma amiga homossexual. Ou seja, ele mesmo acha que a menina, com esse jeito dela, não sentiria atração por um homem.

Não é quase que uma subversão que Watts realmente seja apaixonada pelo amigo? É John Hughes jogando (mais uma vez?) na cara de todo mundo que não importa os estereótipos que possamos ter inculcado na nossa convivência social, jovens são (e devem ser) livres para experimentar e para se descobrirem, se divertindo no caminho. E daí que ela se veste como um menino, fora do padrão para a época?

Por trás daquelas frases que a gente tinha que parar de dizer na lista havia exatamente esse conceito. Temos que parar de esperar um “padrão” para aprender a respeitar a liberdade de escolha e orientação de cada um. Tinha aquelas frases típicas, como parar de falar “voz de traveco”, ou mesmo que “só porque é gay não precisa dar pinta”, “você não parece gay”, “que desperdício!”, entre outras. Diz aí, John Hughes já cantava essa bola muito tempo atrás.

E o filme ainda tem alguns outros pontos a favor. Aquele carro velho da Watts é ótimo! E a menina popular pode sim ser sua amiga. E a irmã chata pode sim se sensibilizar quando parece que você vai se dar mal. E o valentão pode sim ser um artista. É um filme de comédia, mas seus personagens não são planos, o que faz toda a diferença. Taí, eu nunca ligaria esse filme à esse tema, mas são por esses momentos surpreendentes que mais nos divertimos no cinema, e na vida, não?

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