Temos que falar (dos inesperados méritos) de Soul

Venho enrolando para escrever este post desde o início do ano, foi um dos primeiros que vi neste ano e gosto de começar meu ano com essa espécie de tradição de ano novo, começando o ano com um filme bom sinto que o ano todo será bom.

Pra dizer a verdade, eu não dava muita coisa pra esse filme quando vi o trailer, sendo bem preconceituosa mesmo: “ah tá, eles precisam fazer um filme com personagens negros por causa dessa onda de necessidade de representatividade, daí pegaram o estilo musical para dar uma roupagem mais estilosa brincando com o próprio tema de almas, pós-vida em que inevitavelmente reconhecem que temos que aproveitar a vida…”

Claro que, de certo modo, eu não estava totalmente errada nessa rotulação, mas Soul (2020) *** me pegou de calças curtas. Eu me peguei inesperadamente abraçando a tela da TV (não literalmente, mas acho que entenderam) com aquela lágrima furtiva, por um toque bem simples – nem vou chamar de ponto de virada, ou deveria? – no ápice, finalzinho de tudo.

(!) Relembrando que este blog não acredita em spoilers! Uma coisa é saber o que vai acontecer, outra é acompanhar a trajetória dos personagens embalados por boa música e incitação das sensações, deixando-se arrebatar afinal, por mais surpreendente que isso possa parecer.

Aqui também aproveito para deixar o adendo: existem milhares de críticas e textos sobre filmes por aí afora, a diferença é sempre porque cada um tem uma experiência e, portanto, olhar e referências únicos. Talvez eu devesse enfatizar mais isso por aqui o fato de eu gostar ou não de um filme acaba sempre dependendo muito da minha própria vivência (* = não gostei; ** = gostei; *** = gostei muito!).

Pois bem, o personagem principal de Soul é um professor que durante toda a vida lutou por um sonho, ser um bem sucedido músico de jazz. Acontece que a vida foi passando e finalmente quando ele acha que vai conseguir realizar, tem sua grande chance… ele morre. Geralmente eu gosto das questões metafísicas, mas é interessante que não quiseram mostrar o que acontece após a morte, e sim imaginar um possível universo antes da vida. Só aí já temos uma boa sacada, com uma alma milenar que ainda não encontrou um propósito, ou digamos, a chama, a faísca, aquela vontade de viver.

Daí, para que o professor Joe (voz de Jamie Foxx, que, não acho ser por acaso, também tem no currículo a encarnação impecável do Ray Charles) consiga voltar e realizar sua parada, com direito a troca de alma num gato, ajuda de um navegador psicodélico que resgata almas perdidas, incentivo a uma jovem com todo o potencial e talento pela frente que só precisa de um apoio moral, uma conversa significativa no barbeiro que não exatamente seguiu sua vocação inicial, mas gosta do que faz; ele e alma 22 (voz da Tina Fey) se desventuram com boas risadas principalmente devido às descobertas do mundo por 22. E Joe finalmente consegue realizar seu sonho.

Eis que… surge aquele sentimento… então? Era isso? E agora?

A lição de moral é desfrutarmos dos pequenos momentos da vida, aproveitar o caminho e não nos preocuparmos tanto com o nosso destino final. Mas o que mais me emociona em Soul é essa diferença de discurso: não, você não precisa fazer de tudo e realizar um grande sonho para ter sucesso e ser feliz. Porque estamos tão acostumados a ver esse discurso em tantos filmes e outros meios, não? A gente tem que bater metas, a gente tem que se superar, tem que lutar, mas no final vai valer a pena, se não for assim, seremos perdedores. E então? Seremos mesmo? Óbvio que não. A vida não se trata somente de realizar grandes feitos. E as milhares de pessoas que também estão vivas, mas não acharam cura para doença nenhuma, nem ficaram marcadas na história?

Aliás, é engraçado como vários personagens famosos, dos mais diferentes campos de conhecimento da humanidade, já foram tutores de 22, mas o que ela precisava era mesmo de um “zé ninguém” (“average joe”) pra sentir a vida de verdade, como a vida pode ser muito maior do que ela poderia imaginar.

Eu digo isso com toda a alegria do meu coração, porque me identifiquei demais com Joe. Sempre tive grandes sonhos (fazer cinema, roteiro, direção, edição, ganhar Oscar, casar com o DiCaprio), mas a vida não funcionou, apenas assim – e tudo bem. Tudo bem porque a cada passo do caminho eu procurei aproveitar cada momento dando seu valor e da melhor forma que consegui. E será que se eu realmente conseguisse um Oscar aos 18 anos eu teria dado valor? E será que mesmo se eu conseguisse há poucos anos fazer um filme com o Spielberg eu não diria o mesmo, não teria o mesmo sentimento que Joe – e agora? Era só isso?

Sim, já tive muitos arrependimentos, sofrências e a sensação de que minha vida foi perdida, em vão. E por isso, ouso dizer que este filme é para um público mais velho. Bem, as crianças podem assistir, elas vão se divertir também, mas talvez seja ainda melhor rever depois dos 30, 40, 50, 60 anos…

Toda essa jornada nós acompanhamos em tela com a habitual excelência técnica da Pixar, o que torna tudo mais aprazível. Em mínimos detalhes eles conseguem divertir e serem criativos sempre, eu poderia ter feito um post com as “coisinhas divertidas para se notar em Soul“, mas este post tinha que sair um pouco mais especial. Foi como um presente imprevisível, inesperado, que aceitei de muito bom grado – e merece sim, apesar de ser barbada, os prêmios de melhor animação e trilha sonora que deverá ganhar no Oscar deste ano. Por falar nisso, vocês também já ficaram imaginando, como eu, que a Pixar deve ser uma fábrica de formação de mentes criativas? Pois é realmente um trabalho incrível, seja no visual, nas concepções, no roteiro, na direção dos atores, no som, nas piadas internas. A gente fica até um pouco decepcionado quando vemos algumas falhinhas, ou não entregam algo tão excepcional, não? O que deveria ser normal, mas como é Pixar, a gente se decepciona um pouco – como em Onward, mas sobre os outros longas de animação indicados eu deixo pra comentar em outro momento.

Nas minhas imaginações, eu também já estive com John Lasseter numa sessão de criadores assistindo a um dos filmes do Hayao Miyazaki…

“Julia Child só fez sucesso aos 49!” – eu poderia, sim, morrer hoje (mais sobre isso nos comentários de Nomadland, a vir). Mas… quem sabe eu ainda não tenha uma chance de fazer algo? Afinal, continuamos vivos. Apesar da covid.

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