Oscar 2021: meus votos e comentários – parte 2

Continuando a série de três posts com meus comentários e votos para o Oscar 2021, neste aqui veremos as categorias mais “técnicas”. Mesmo assim, não cheguei a ver todos os indicados… Meus votos estão sublinhados.

Melhor roteiro original

“Judas e o Messias negro” = o líder do partido dos Panteras Negras e o traidor infiltrado em seu meio. Para mim, um dos destaques do texto foi no diálogo da moça que o chama de poeta; e creio que mesmo para quem já conhecia a história (eu não!) foi interessante o modo de condução da narrativa até o desfecho e a fala do cara real.

“Minari” = uma família coreana nos Estados Unidos, o pai que quer criar uma fazenda para vender suprimentos para as lojas coreanas locais, a mãe que progride no trabalho braçal de sexagem de pintinhos, os filhos crescendo nesse meio e a avó meio fora da curva. E quando a vovó zoa o garotinho, e quando ele tem que buscar uma vara pra ser punido, e a cena em que a mãe diz: “você preferiu a fazenda em vez da sua família lá dentro” – nooossa, hein?

Bela vingança” = uma mulher que quer dar uma lição aos homens que se aproveitam de mulheres bêbadas, além de vingar uma amiga. Abordando um tema pouco mostrado e contando com um desfecho de vingança meio inesperado, mas satisfatório, é bem provável que leve nesta categoria, sendo uma representante feminina aí.

“O som do silêncio” = um baterista que fica surdo e precisa lutar e aprender a continuar vivendo. Gosto muito dos acontecimentos, do desenvolvimento do personagem e de como ele chega a uma bela conclusão que eu chamaria de paz espiritual.  

“Os 7 de Chicago” = o processo no tribunal de sete pessoas acusadas por protestos violentos numa convenção em Chicago. Tem uns diálogos muito eloquentes e uma espécie de reviravolta quanto ao personagem que acaba instigando mesmo a violência, mas acho que este ano o roteirista veterano em textos políticos Aaron Sorkin não leva – ele já tem um por “A Rede Social” (2010)***.

Melhor roteiro adaptado

“Borat: fita de cinema seguinte” = depois de anos preso, Borat volta aos EUA para entregar um presente ao vice-presidente e acaba desenvolvendo uma boa relação com a filha. Aproveitando pessoas reais e situações irreais, o roteiro até que se deu bem ao incluir o tema da pandemia Covid-19 – pelo menos eu gostei, com direito a cena inspirada em “Os Suspeitos” (1995)***. É eficaz, rendendo suas risadas pelas bobagens e sarcasmo político, mas nenhuma obra prima, talvez sirva como uma espécie de registro alternativo dos nossos tempos. 

Meu pai” = baseado numa peça de teatro, um homem que vê sua memória se embaralhar. Achei tão perfeita essa adaptação do texto para o meio cinematográfico, nem consigo imaginar direito como seria apresentado numa peça.

“Nomadland” = uma vida de nômade em uma van pelos EUA, após uma crise financeira. 

“Uma noite em Miami” = um encontro entre líderes, cada um a seu modo, pelos direitos dos negros nos EUA: Jim Brown, Malcolm X, Mohammed Ali, Sam Cooke. Muitas conversas com diálogos que nos fazem pensar, principalmente ali no topo do prédio.

“O tigre branco” = baseado num best-seller, um jovem indiano humilde que é como um galo único a fugir do galinheiro, como roteiro tem algumas partes que achei expositivas e repetitivas, cansativas. Mas ilustra bem esse sentimento de indignação diante das grandes diferenças sociais, eu mesma nunca tinha visto um filme sobre a Índia moderna tão esclarecido (ei, a melhor democracia do mundo?) e objetivo, e não teria visto sem essa exposição que uma indicação ao Oscar traz.

Melhor design de produção

“Meu pai” = quase todo se passa num apartamento, com alguns elementos que vão mudando…

“A voz suprema do blues” = outra época passada, o principal cenário é um estúdio de gravação que serve de conflitos e muita argumentação.

“Mank” = também uma época passada, cenários grandiosos – estúdios de cinema, locações, mansões, uma casa no interior para o escritor.

“Relatos do mundo” = velho-oeste norte-americano, paisagens, muitos figurantes para cada cidade por onde passam, jornais antigos, uma casa abandonada, uma “roça” familiar; foi muito trabalho, mas o filme em si não tem tanto destaque e não deve levar o prêmio.

Tenet” = boas locações no exterior, já começar com aquela cena de ação irrompida na ópera! Tem o barco, o enorme avião no aeroporto que abriga obras de arte, a perseguição de carros, a tomada no deserto.

Melhor figurino

“Emma” = não vi o filme, mas conseguimos imaginar, por outras adaptações dessa história, conhecendo um pouco do universo da autora, Jane Austen. Muitos belos vestidos e adereços anos 1800? Anya Taylor-Joy é uma sortuda, por poder usar figurinos tão bacanas – sim, estou considerando aqui “O gambito da rainha” (2020)***.

A voz suprema do blues” = eu gosto do par de sapatos amarelos, além de estar muito correto os ternos e os vestidos desse grupo de músicos, da moçoila fogosa e até dos proprietários do estúdio.

“Mank” = aquele glamour da Hollywood antiga, belos ternos e ainda o pessoal dos comícios.

“Mulan” = armaduras chinesas de guerra e uma bela composição com a personagem que é mulher, mas se veste de homem para lutar no lugar do pai. Creio que muito bem inspirado nos trajes chineses reais, só que o filme não foi lá aquela coisa, então fica aí com essa indicação somente.

“Pinóquio” = não vi esse, mas novamente dá para imaginarmos, não? (e nem estou considerando tanto a versão animada da Disney, tá).

Maquiagem e cabelo

Acredito que os comentários sobre maquiagem e cabelo se relacionam com os acima, de figurino.

“Emma”

“Era uma vez um sonho” = acho que estão contando que “enfeiaram” Amy Adams e envelheceram Glenn Close? Foram competentes, mas nada que chame tanta atenção para um Oscar, exceto essas duas atrizes, que já somam várias indicações e nunca ganharam?

A voz suprema do blues

“Mank”

“Pinóquio”

Melhor fotografia

Pra dizer a verdade, eu não entendo tanto assim de fotografia. Sei que tem a ver com as luzes, cores, talvez posicionamentos, nitidez ou embrutecimento das imagens, entre outras coisas?

“Judas e o messias negro” = pra mim, o grande diferencial são as tomadas noturnas, se bem que a sensação das conversas no restaurante também é outra.

“Mank” = filmado todo em preto e branco para lembrar o filme homenageado “Cidadão Kane” (1941) ***, incluindo até simulação de “manchinhas” pontuando troca de rolo de filme… pode até ser que leve?

“Relatos do mundo” = as leituras feitas à noite com os diferentes locais, a coloração das terras conforme necessidade, ou um início de noite bem captado.

Nomadland” = também contando com muitas paisagens, muitos climas diferentes, interiores meio lânguidos? Natureza calma – e aquela cena da revoada, não?

“Os 7 de Chicago” = as ênfases necessárias, no tribunal ou outras conversas dos envolvidos, ruas com muitos jovens, reunião no parque ou enfrentamento com policiais.

Melhor som

Aqui tá tudo junto agora, né? Não só a captação dos sons pontuais, mas a mixagem, misturando com a trilha sonora e exacerbando os sons que se quer aumentar ou diminuir por um motivo ou outro. Ainda bem que não indicaram “Tenet” (que pelamor, cada susto em transições de cenas mais silenciosas e outras de ação!).

“Greyhound: Na mira do inimigo”

“Mank”

“Relatos do mundo”

“Soul”

O som do silêncio” = é meu voto porque não tem jeito, né? O próprio tema do filme é esse, como não prestar atenção ao som ao redor, ou à falta dele, zunidos, sons metálicos (título original do filme)? E acredito que leve mesmo a estatueta dourada, pelo menos este.

Canção original

Três destas indicadas considero ter um fundo político e de engajamento, o que não é ruim, não. Só não vou escolher uma dessas pra não ser injusta com as outras ;).

“Fight for you” – “Judas e o messias negro”= H.E.R. já ganhou melhor canção do ano no Grammy, hehe.

“Hear my voice” – “Os 7 de Chicago”

Husa’vik – “Festival Eurovision da Canção: A saga de Sigrit e Lars” = este é o que vai ser transmitido da Islândia! Muita gente gostou dessa brincadeira com Will Ferrell e Rachel Adams, né? E a canção representa a essência do próprio filme…

“Io sì” – “Rosa e Momo” = muito bela, para encerrar aquela relação de altos e baixos, com um menino flertando com o crime, mas de coração aproximado para realizar um último desejo pensando no melhor para aquela pessoa que o ajudou. Muitos brasileiros gostam de Laura Pausini, e ainda conta com Sophia Loren no clipe.

“Speak now” – “Uma noite em Miami” = devo confessar que não conhecia o lado musical de Leslie Odom Jr, mas ele me surpreendeu como Sam Cooke e fez também “Hamilton” ao lado do Lin-Manuel Miranda.

Melhor trilha sonora

Penso que a trilha não seja apenas uma canção, mas todo um movimento sonoro, de melodia, incluindo as canções, claro, construído para acompanhar e expressar determinada trama. Infelizmente, estazinha que vos escreve não é tão multifuncional assim, e eu precisaria rever cada um dos indicados e prestar atenção somente na trilha para poder votar com seriedade. Mas penso sempre: qual trilha ficou marcante a ponto de lembrarmos logo ao pensarmos no filme?

“Destacamento blood”

“Mank”

“Minari”

“Relatos do mundo”

Soul

Melhor edição

Combinar as imagens, ordená-las (ou desordená-las)…

Meu pai” = é fantástica, sem cenas perdidas ou a mais, todas tem um sentido ali. Como somos levados e surpreendidos, a cada momento que é vivido ou lembrado, a cada fala repassada ou transfigurada, e numa gradação de compreensão (por parte do público, incompreensão do protagonista que afetuosamente seguimos, escalando nossa emoção).

“Nomadland” = tem muita chance, apesar de ou especialmente porque não sabemos muito bem quanto tempo passou, com algumas falas bem encaixadas e momentos desencaixados.

“Bela vingança” = sabe no início, quando corta e ela aparece com um líquido vermelho, mas era só hot dog? E quando no ato final a gente fala “ih, f3rr0u”, pra então perceber que deu tudo certo? Tempos corretos, ótima edição.

“O som do silêncio” = é uma beleza, combinando com a edição sonora, então… quando a gente fica com ele ali na salinha, ele esmagando o donuts; ou desacompanhando na festa da namorada; eficiente também na transformação, junto das crianças…

“Os 7 de Chicago” = talvez o que tenha mais chamado a atenção é a pequena revelação com o paralelo de uma conversa e um discurso, mais ao final. Mas claro que temos os desenvolvimentos políticos e do próprio processo julgado, como percebemos as manipulações, as cenas iniciais com a apresentação dos personagens é bem dinâmica.

Melhores efeitos visuais

Epa, que este ano foi bom e até nesta categoria consegui ver todos os indicados! Me lembra a época de jovenzinha, quando o que eu adorava era ver os efeitos especiais dos filmes de aventura das sessões da tarde…

Amor e monstros” = boa diversão, com risadas honestas neste universo em que monstros tomaram conta da Terra e nosso herói, apesar de muito inapto, paralisado diante do perigo, decide sair e enfrentar tudo para encontrar uma possível namorada. Sim, os monstros são ótimos – até do caranguejo prisioneiro por choque elétrico eu gostei, e as explosões, a interação com o Boy, funcionam bem. Meu voto vai pra este simplesmente porque foi o mais divertido de ver, e se os efeitos fossem muito capengas tiraria parte da graça.

“O céu da meia-noite” = não me entusiasmei muito com o filme em seu todo, achei meio previsível. Sempre tem que ter algum que se passa no espaço, né; nave bonita, tecnologia avançada com direito a memória virtual, um trailer que vai inundando no lago congelado, a cena mais fenomenal eu diria que é a ferida da astronauta, com as gotículas de sangue se espalhando naquela falta de gravidade (por que sempre que um astronauta inventa de dar um passeio fora da nave a gente já sente que vai dar m3rd@? Ecos de “2001”?)

“Mulan” = treinamentos, avalanche, muitas lutas coreografadas.

“O grande Ivan” = ah, é um belo trabalho sim dar expressão aos animais, em especial o personagem principal, Ivan, parece tão real – e o filme é baseado mesmo numa história real! Apesar de sentirmos carisma pelo dono da atração, interpretado por Bryan Cranston, é bem válida a questão de libertação dos animais e que possam viver em um habitat mais próximo do natural. Eu daria uma chance por esse motivo, caso você esteja procurando por um filme “família”.

“Tenet” = sim, sim, Nolan e seus grandes efeitos. Explosão do avião, tiros e estouros ao contrário, uma visita à la “Missão Impossível” na Índia, prédio que volta e é explodido de novo… e sei lá mais quais invencionices podem garantir mais um prêmio aí.

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