Oscar 2021: meus votos e comentários – parte 3

Por último, nesta série de posts sobre o Oscar 2021, meus votos (sublinhados) para as categorias mais “fáceis”, para a grande maioria, de identificar e votar (creio eu).

Melhor atriz coadjuvante

Maria Bakalova – “Borat: fita de cinema seguinte” = que mulher loka, gente. Imagina? Ter que fazer outras pessoas acreditarem nessa personagem como se fosse alguém real, tem algumas cenas que ultrapassam o mau gosto, mas e aquela entrevista com Giuliani? Xenti.

Glenn Close – “Era uma vez um sonho” = ah, como eu queria que ela ganhasse um desses prêmios… mas, poxa, por este filme aqui acho que não vai rolar não, hein. Sim, está muito bem como a vovó que cita “O exterminador do futuro 2” (1991)*** para endireitar o neto, mas… só ganha se formos considerar o conjunto da obra.

Olivia Colman – “Meu pai” = interpretação digníssima, como tenho visto ser usual para esta artista. Pensem em como ela passa com tudo de si a dor de ser preterida por uma irmã que nem está mais lá, sendo que podemos imaginar todos os esforços e sacrifícios para cuidar do pai… Porém, como ela já ganhou recentemente, acho que o Oscar não vai para suas mãos este ano.

Amanda Seyfried – “Mank” = ah, é uma graça de atriz, aqui representando com charme a jovem que busca sucesso e ao mesmo tempo tem sensibilidade para servir de ombro amigo a Mank, mas… Oscar acho que não, né.

Yuh-Jung Youn – “Minari” = sim, outra vovó! Mas esta aqui um pouco mais interessante, traz um certo alívio cômico para o drama da família até que ela também tem tribulação a carregar. Cativa o netinho que inicialmente não a reconhece como uma avó de verdade, é quem planta “minari” e com limitação, ainda quer fugir após causar um grande estrago. Lagrimazinhas que roubaram a cena e valem meu voto.

Melhor ator coadjuvante

Sacha Baron Cohen – “Os 7 de Chicago” = correto, talvez impressione mais porque está fugindo um pouco do personagem cômico que o grande público se acostumou a ver.

Daniel Kaluuya – “Judas e o messias negro” = muito contundente, convence como um líder forte e seguro, apesar da “timidez” no lado pessoal. O maior favorito nesta categoria (e a gente já não sabia que ele era bom desde “Corra” (2017)***?)

Leslie Odom Jr. – “Uma noite em Miami” = eu particularmente achei um trabalho excepcional. Principalmente pelo fato de ele também cantar muito bem, além de servir de forte contraponto enfrentando Malcolm X!

Paul Raci – “O som do silêncio” = talvez a performance mais “branda” de todas aqui, ou eu diria mais delicada. Nem por isso menos difícil. E ele incorpora a linguagem dos sinais, e aquela cena em que ele sabe que vai magoar o rapaz, mas precisa negar ajuda por seus próprios princípios?

Lakeith Stanfield – “Judas e o messias negro” = fiquei na dúvida se ele não deveria estar concorrendo a melhor ator principal? Um bom trabalho, incorporando o cara que não se pode deixar pegar, que parece concordar com o partido, mas também precisa se esquivar por outro lado. Pra mim, conseguiu deixar em seu semblante o medo estampado, bem como é mostrado na entrevista com a pessoa real, aliás.

Melhor atriz

Viola Davis – “A voz suprema do blues” = ah, Viola também já tem uma estatueta em sua casa, né. Não tô muito a fim de dar este pra ela não, embora entenda que é bem possível que ganhe. Transfigurada em uma personagem de presença forte, com agressividade verbal e no olhar marcantes, está bem sim, não estou dizendo que não está.

Andra Day – “Estados Unidos vs Billie Holiday” = a novinha, com muito mais créditos musicais, que tirou a sorte grande em poder interpretar este papel. Sim, caiu como uma luva.

Vanessa Kirby – “Pieces of a woman” = a primeira meia hora deste filme é só o parto (que pela sinopse, a gente já sabe que dá errado), daí é que aparecem os créditos. Mas só quem é mãe e já passou por isso vai entender tão bem toda aquela situação – e outras que poucos filmes mostram de pós-parto, como o leite vazando ou ter que usar “fralda” por uma menstruação muito forte ou incontinência urinária; pensa então em como lidar com a dor e rever a parteira de frente num tribunal. Nem precisava do restante, pra mim ela mereceria um prêmio só pela primeira meia hora.

Frances McDormand – “Nomadland” = ah, garota! Outro dia vi uma headline comentando que ela poderia ganhar um Oscar pelo mínimo de trabalho que já teve como atriz. Eu dei risada, porque Frances parece ter muito dessa personagem ela mesma, alguém de alma livre, meio desacreditada em relação aos moldes da sociedade, independente, forte e que encararia dificuldades com braveza, se viraria muito bem. Ao natural, com rugas à mostra e cabelos desgrenhados (eu me identifico!), nem precisou ser “enfeiada”, como o Oscar costuma admirar e agraciar suas atrizes. Engraçado como até alguns dos nômades acreditaram que ela era um deles, nem sabiam ou imaginaram que era uma atriz de Hollywood.

Carey Mulligan – “Bela vingança” = nem sempre precisamos de um estardalhaço de atuação, e com modos mais contidos ela consegue sim personificar muito bem o sentimento dessa personagem que ficou meio perdida na vida após uma tragédia e simplesmente não consegue deixar de lado a morte da amiga. Essa sensação da perda é algo com quem muitos podem se identificar, bem como a vontade que nos dá às vezes por mais justiça, e não é à toa que torcemos por ela, mesmo que use de alguns meios que não concordemos muito.

Melhor ator

Riz Ahmed – “O som do silêncio” = muitíssimo bem o primeiro candidato muçulmano a melhor ator na história dos Oscares. Compreendemos como deve ser desesperador para um músico, ainda mais baterista, perder a audição e passar pela raiva, pela indisposição a ficar naquela comunidade, pela aceitação e procurar mudar, apesar de querer, como qualquer humano faria, uma “cura”. E aí, então, enfrentar ainda a sensação de não pertencer até poder ter paz. Nunca, em toda a projeção, esses sentimentos parecem falsos.

Chadwick Boseman – “A voz suprema do blues” = provavelmente vão dar o prêmio póstumo para ele, e tudo bem, ele fez um bom trabalho sim, nesse personagem meio revoltado com suas dores de vida e na luta eloquente – sabemos do sofrimento ainda criança e como sua destreza de jovem músico representa força pare ele “superar” os brancos. O que me irrita um pouco é essas versões filmadas do teatro, que parecem servir apenas para exibir os talentos dos atores – talvez seja exagero meu, mas sinto isso aqui assim como foi com “Um limite entre nós” (Fences/ 2016)*. 

Anthony Hopkins – “Meu pai” = avassalador, sabe quando alguém transcende? É quase inacreditável que um profissional com seus 80 e poucos anos consiga ter um desempenho assim. E nem precisava mais trabalhar, tendo no currículo trabalhos marcantes, mas se entrega de corpo e alma, nunca tem um trejeito ou fala inútil, nunca duvidamos do que aquele homem está vivendo, seja pelo olhar ou postura física, sentimos com ele a confusão que o projeto todo propõe. Sim, valeu a pena o diretor fazer uma versão em inglês especificamente para trabalhar com este ator. E se Oscar fosse justo, sem dúvidas este prêmio seria dele.

Gary Oldman – “Mank” = será que as pessoas vão se lembrar desse personagem como um bêbado que vomitou num jantar pomposo na mansão de um bam-bam-bam de Hollywood da época? Este ator já demonstrou seu talento por diversos personagens, e está bem na pele desse roteirista que relembra bastidores enquanto escreve sua maior obra, mas não me fez torcer por ele em nenhum momento.

Steve Yeun – “Minari” = só por ser o primeiro asiático indicado nesta categoria, esta indicação tá valendo. É um bom trabalho, interpretando esse pai que representa tantos imigrantes e lutas pessoais. Na luta por uma vida melhor, não é fácil ter até a pessoa mais próxima parecer não te apoiar, tentar fazer o certo, ceder, mas querer vencer, celebrando nem que seja pequeníssimas conquistas, errar. E até mesmo desconfiar, ou estranhar um novo amigo meio doido. 

Melhor direção

O que vejo em direção é sempre como tudo foi orquestrado pelo maestro, que faz uso dos recursos narrativos disponíveis desta forma de arte para contar sua história, passar sua mensagem, impactar ou emocionar, ou fazer refletir, o espectador.

Thomas Vinterberg – “Druk – Mais uma rodada” = lances trêmulos e imagens por vezes borradas ou com alguma alteração para estados alterados; close para enfatizar aquela primeira taça irrecusável, e o clima do drink também irrecusável que já sabíamos estar passando do limite, barco de morte iminente, sobriedade com a esposa.

David Fincher – “Mank” = pra mim, a que empolga menos, me chega como uma direção fria e calculada, embora ele deva ter um carinho especial, a ponto de creditar somente o pai no roteiro. Se fosse pra fazer jus ao “Cidadão Kane” (1941)***, acho que poderia ter trabalhado melhor, quem sabe até incluindo as inovações técnicas que o filme homenageado trouxe?

Lee Isaac Chung – “Minari” = sabe quando a gente diz que este é o filme singelo, que meio que acalenta um pouco o coração? Os planos da fazenda e da natureza, a sensação de isolamento já quando chegamos com a família naquele ex-trailer velho no meio do nada, a ênfase no cansaço e os respiros em meio às adversidades; a dinâmica dos atores que realmente vemos como se fosse uma família real – e não idealizada, o que nem poderia ser, já que o intuito é exatamente sentirmos os sofrimentos e falhas de qualquer sonho (americano ou não) – isso tudo faz parte da direção. 

Chloé Zhao – “Nomadland” = eu quero dar meu voto para uma mulher, prontofalei. Mistura atores com pessoas reais de forma natural, e sem medo de filmar o que é necessário, de às vezes nos deixar no silêncio, de não apelar pra sentimentalismo (mesmo assim nos emocionando, sem evitar a família) nem exposição gratuita. É a favoritassa e deve levar a estatueta mais cobiçada desta temporada de prêmios do cinema.

Emerald Fennell – “Bela vingança” = sim, ela consegue colocar os atores no lugar em que gostaria e pairar com sua atriz principal para nós mesmos contemplarmos uma possível esperança de um amor, uma relação “normal”, mas acho que a sequência da despedida de solteiro, algemas, se solta, as ações e as consequências – isso é o que vai ficar na memória.

Melhor filme

Bem, eu já vim comentando até aqui conforme passamos pelas diversas categorias, e acho que não tenho muito a acrescentar, se pensarmos na combinação de todos esses elementos de destaque. Claro que a escolha é sempre muito particular a mim, considerando meu próprio histórico, vivências, interesses… mas talvez também seja assim para os membros da Academia? Cada um deve ter algum critério para ter mais ou menos consideração por uma ou outra obra. Aqui, fazemos a votação como eles lá fazem, a melhor nota do filme que mais gostei decrescendo para o que menos gostei da lista. E como de costume, vamos torcer para que não haja um “empate técnico” que faça algum mediano levar o prêmio…

8 – “Meu pai” = preciso comentar aqui que eu não esperava que esse filme me arrebataria como fez!

7 – “Nomadland”= só pelo tema, eu sabia que ia gostar de conhecer esse tipo de vida e que também me daria vontade de jogar tudo pro alto e ir contra o “sistema”.

6 – “Minari” = tá vendo? Não é só você que tem uma família disfuncional, e não é só com sua família que acontecem tragédias.

5 – “O som do silêncio” = o árduo processo de se refazer a si mesmo.

4 – “Judas e o messias negro” = um trabalho exímio para termos vontade de justiça e pra lembrarmos de nunca desistirmos da luta, porque desistir sim poderia ser vergonhoso.

3 – “Mank” = não é que eu mesmo me surpreendi com esta escolha? No final das contas eu bem tenho afeição com os bastidores do cinema, sim, de qualquer época. Mais afeição até do que o gostinho de uma vingança feminina.

2 – “Bela vingança” = pra ser honesta, não esperava a indicação a melhor filme (só para atriz, roteiro e direção). Vale por expressar um grito das mulheres, mas não chega a ser um dos grandes a ser lembrado na história do cinema.

1 – “Os 7 de Chicago” = interessante, bons personagens por bons atores, diálogos espertos, mas me perde naquele final honroso e glorioso e… provavelmente eu vou esquecer dele em alguns anos.

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