Luca

(2021) ***

As Olimpíadas de Tóquio 2020 acabaram com um marco histórico de medalhas para o Brasil e representação feminina ganhadora e inédita. Achei nada mais justo e apropriado, vendo a fadinha Rayssa Leal lá no pódio com seus 13 aninhos, dedicar um post para este filme da Disney. Aliás, foi a única prova de final valendo medalha que consegui acompanhar. E afinal, uma das coisas que faz os principais personagens mirins deste longa animado interagirem é o esporte, uma competição tradicional desta ilha na Itália.

Antes, porém, de comentar como achei divertido o povo aquático transmutado e descobrindo a vida na terra firme, preciso comentar da questão LGBTQIA+… teve gente falando que este era uma versão infantil para o filme “Me chame pelo seu nome” (2017)***, porque também se dá num verão na Itália com descobertas e talz, mâs… euzinha, honestamente, não vi a homossexualidade na relação dos amigos não. Aliás, ouso dizer que tô começando a ficar irritada que tudo agora tem que ter algo a ver com as minorias – seja homossexuais, negros, empoderamento feminino… Sim, a representação é importante, quanto tempo se passou sem que a maioria branca hétero pudesse respeitar o “diferente”, entendo os movimentos. Mas tô ficando cheia de que em TUDO o pessoal tá querendo ver isso – me julguem, eu sou sincera e nem tenho tantos leitores assim. Lá com Frozen também, não vi nada além de uma mulher que só queria ser ela mesma, não vi nada de gay ou qualquer outra coisa. E aqui também. Aliás, se eles não tem interesse romântico também poderiam ser assexuais, não? Mas, novamente, nem acredito nisso. Só acredito que naquele momento esses personagens têm uma trajetória que não inclui o lado romântico amoroso sexual – e acho isso ótimo. Porque a vida não é feita só disso não, viu.

Historinha: um menino peixe faz amizades inusitadas, descobrindo possibilidades de vida maiores.

:D Como em todos os filmes Disney/Pixar, nem temos o que falar do visual e da técnica, que nunca deixam a desejar. A aparência no fundo do mar e na transformação dos personagens quando estão em terra acerta em cheio – e aqueles cachinhos do Luca? E o jeitão das “mamas” italianas? Inclusive, na dinâmica de “perigo” de serem descobertos alternando a água, e por isso, apesar de serem os melhores nadadores, a parte da natação ter que ficar com a menina da terra, Giulia. Engraçado também como o personagem do pai da Giulia se parece muito com o pai do curta A lua (La luna/2011), que é do mesmo diretor, Enrico Casarosa. Mas claro que as referências que mais gostei foram as das animações do Ghibli, o nome da cidade fazendo alusão à Porco Rosso (1992) *** foi a mais óbvia, mas e aquele gato gordo, gentem? Ainda, no início da animação eu meio que pensei “é uma nova versão de A Pequena Sereia (1989) ***, né não?” Muito parecido, a fascinação que a Ariel tinha com o povo da terra, colecionando objetos, ter que se esforçar conhecendo o mundo dos humanos.

Porém, aqui entra a graça desta história. É sobre e para crianças, ou jovens impetuosos que tem um mundo inteiro para conhecer à sua frente e em seu futuro. O roteiro mostra bem essa energia juvenil das invencionices – aqueles testes com a bicicleta! Achar que tendo uma Vespa eles poderiam ganhar o mundo; enquanto brincam, apesar de saber que tem que ir pra casa, querer ficar mais um pouquinho… Ou mesmo a Giulia, finalmente podendo fazer parte de uma equipe para vencer o chatão do bairro. E se eu reclamei que tô ficando chateada com tanto escancaramento da defesa das minorias, este roteiro aqui é esperto o suficiente para nos brindar com momentos engraçados, tocantes e lidar com o tema na forma fantasiosa do povo do mar ser caçado como monstro, para então ser descoberto e todos verem que é possível conviver. Palmas, até para os créditos finais que dão indícios de como se deu o futuro desses amigos, desses “diferentes”, convivendo.

Queremos provar o Trenette al pesto (salivando!), o tio do Luca das profundezas nos lembra um peixe que existe na realidade, e nem sentimos dó do pai da Giulia por ele não ter um braço – olha que beleza de direção de arte. Sim, temos som que valoriza o mar, temos sons de crianças numa cidade de porto italiana, não temos canção chata, temos fotografia com luzes, cores e tons acertados aos seus momentos, temos filme antigo do Mastroianni como easter egg. Nos emocionamos com a ação da competição e quando Luca na bicicleta é descoberto por toda a cidade, edição efiz. Vamos às lágrimas na despedida na estação de trem. Tá bom demais pra um entretenimento despretensioso, não tá não? Mesmo achando que aquela sequência de devaneio na Vespa tomou tempo demais, tem muito mais pontos positivos do que negativos nesta aventura.

E o que isso tem a ver com budismo?

Creio que muitos hão de concordar que uma das falas marcantes do longa foi quando o personagem de Alberto diz: “vai ficar tudo bem, você já me tirou daquela ilha”. O menino, primeira amizade de Luca acima da superfície, esperava pelo pai há muito tempo, isolado numa ilha, achando que sabia de tudo do mundo na terra. Às vezes a pessoa mesmo não percebe que está se deixando ficar pra baixo, ou presa a algo que não é bom, ou se conformar que ela não pode mais. E às vezes é necessário ter um amigo, uma companhia, alguém para apoiar e estar ao lado na aventura, na caminhada. Para aprender junto talvez, descobrir coisas novas, perceber outras coisas. É maravilhoso quando Luca descobre com Giulia sobre as estrelas e o espaço, que ele tenha vontade de alçar voos maiores e ir para a escola! Às vezes nós precisamos de uma mão amiga para podermos dar outros passos.

Na ordem budista que sigo, sempre é enfatizado muito sobre compartilhar os ensinamentos. Isso não serve apenas para angariar mais um fiel, converter mais um. É exatamente porque às vezes precisamos de alguém para estender a mão, para descobrirmos outro caminho. E muitas vezes nem percebemos que precisamos, até que descobrimos. Compartilhando experiências e conhecimentos, ajudamos outras pessoas, acreditamos no potencial delas para serem melhores ou levarem vidas melhores. E caminhando juntos, aprendemos muitas outras coisas mais. Por isso, o Buda considera a comunidade budista como uma das joias essenciais no budismo. É muito precioso ter amigos para seguir nas caminhadas que sejam, e talvez não tenha sido por acaso que você tenha cruzado com determinadas pessoas nesta vida.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s