A ganha-pão

(The breadwinner / 2017)***

Com a recente volta ao poder do Talibã no Afeganistão, eu achei mais do que apropriado registrar por aqui algum comentário sobre este filme, um dos poucos que vi sobre o assunto, mas que apesar de ser uma animação, mostra muito bem como era a vida para uma mulher sob esse regime fundamentalista. É realmente muito triste pensar que todos os avanços e progresso nos direitos humanos conquistados em relação principalmente às mulheres do país (quem aí não lembrou logo da Malala?) possam entrar em retrocesso, como um passo atrás para a humanidade. Aliás, que tempos são estes, não é mesmo? Que além de uma pandemia global tenhamos que enfrentar outros tipos de “sombras”, mais uma vez, em nossa história.

Eu sou descaradamente uma criatura da prole formada por animações de princesas Disney, então não consigo ver nada além de acertos neste filme, que talvez só tenha ganhado os holofotes pela “sorte” de ser uma produção apoiada por alguém de Hollywood (a produtora é da Angelina Jolie). E confesso que se não fosse uma indicação ao Oscar talvez eu nem tivesse ficado sabendo da existência. A diretora é irlandesa, mas capta e retransmite ao público perfeitamente essa realidade específica. Fiquei me imaginando com 12 anos conhecendo a história dessa protagonista jovem, admirando-a como uma das princesas heroínas (não menos valente que nenhuma dos grandes estúdios).

A trama da narrativa principal poderia ser clichê – uma menina se passa por menino para poder ajudar a família – se não fosse tão importante existir esse registro, lúdico e ao mesmo tempo de denúncia, que serve a qualquer público, desde a mais jovem consciência como um ser humano existindo de direitos e responsabilidades.

E o modo como a desenvolvem, com os respiros de entusiasmo de qualquer espírito jovem que ainda sustém esperanças e sonhos, pontuados pelos eventuais medos e perigos das diversas situações em que se encontra a personagem principal, na luta para salvar seu pai e sua família, tem um ritmo que não cansa, uma coordenação que emociona sem ser melodramática.

Até a narrativa paralela em forma de fábula, contada pela menina Parvana, acompanha bem esse ritmo com elementos da “vida real” dela e um destemor crescente na reta final. Os personagens nos cativam, Parvana é uma menina comum, que tem preguiça de ir buscar água, que questiona o pai a princípio sobre a relevância de se contar histórias, ou sobre a venda de um vestido. A irmã tendo que se casar como “solução” para a situação da família, quando o suposto marido vem de supetão buscar todos já nos deixa temendo pelo futuro deles. O pequeno irmão que gosta da história por causa do elefante, como todas as crianças, sempre nos encantam e são um alívio para as durezas enfrentadas. A mãe, forte da maneira que lhe é possível.

E não sentimos “dó” gratuitamente, o filme é esperto no dinamismo da violência velada enfrentada – até pelo teor da produção, não se poderia mostrar graficamente um assalto à mãe, mas vale, por exemplo, quando o pai é solicitado a se levantar para conversar com os opressores, com o plano revelando sua deficiência física. Tem momentos em que não é preciso escancarar, nós entendemos bem o que está acontecendo. Até para os coadjuvantes há cenas bonitas e tocantes, como do senhor cuja carta lida revela a morte da esposa. A amiga Shauzia também tem seus bons momentos, mostrando o caminho dos doces e apoiando até o final.

Na parte técnica, os traços e paleta de cores são agradáveis, e gosto que inclusive a animação da parte da fábula combine com a da trama principal. Louvável que os dubladores basicamente sejam todos afegãos, e o detalhe das partes escritas que Parvana consegue ler serem no idioma local, não legíveis para a maioria de nós.

Acabei com a sensação de ter conhecido um outro tipo de vida, bem distante da minha realidade, mas torcendo para que não passe de mais um grandioso erro dentro da história das sociedades humanas. Será que ainda vamos ter que errar muito para compreender o quão grave são esses erros cometidos?

E o que isso tem a ver com budismo?

Eu nem vou comentar com vocês que até imagens búdicas foram destruídas em investidas talibãs de extrema intolerância religiosa ou cultural. O que mais ressoa para mim, na história de Parvana e do pai, é o que Buda sempre pregou: o respeito ao próximo. Por quê, em nossa história, sempre houveram pessoas consideradas piores, inferiores? E daí surgem os grupos explorados, ou que não tem os mesmos direitos. Se nós conseguíssemos considerar o outro sempre, seus sentimentos, talvez deixaríamos de cometer muitas atrocidades. Se considerássemos que cada um tem um potencial para ser um Buda, tem o seu valor. Fora isso, também existe o lado da ação. Parvana fez o que pôde, dentro de suas possibilidades. Muitos podem pensar que o budismo é só teoria abstrata, filosofia, mas existem vários pontos que podem e devem ser colocados em prática. Apesar de boas intenções, é preciso agir também, dentro do que for possível. Talvez não possamos salvar o mundo inteiro de uma vez, mas só de ajudar pessoas próximas, como Parvana fez tudo por sua família – desde contar histórias para o pequeno, estimular a imaginação com a amiga, fazer o favor de ir buscar água para a irmã embora houvesse algo desagradável ou até perigoso envolvido – são ações, e por mais que pareçam pequenas, ao considerar o outro geramos o bem ao nosso redor, o que nos faz bem também.

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