40, e eu achava que ia ser diferente

A rainha morreu. Minha gata morreu. Godard morreu! Tudo bem, todos estavam bem velhinhos já e tiveram um bom tempo aqui na terrinha pra aproveitar a vida como pudessem.

Mas estas últimas semanas eram para terem sido diferentes, ou assim eu achava. Eu voltaria super bem de Gramado, para onde fui conferir pela primeira vez o Festival de Cinema deles, após dois anos sem evento presencial por causa da pandemia, e escreveria um post registro por aqui, e bye bye tristeza porque o inferno astral já tinha passado aeô.

Eis que volto e me vejo envolta numa aura de tristeza, tão, tão grande. Cheguei e senti como se não tivesse uma pessoa que me amasse verdadeiramente para me dar um abraço de feliz aniversário. Cheguei e me senti uma inútil, que não faz falta a ninguém (pior coisa que pode-se dizer a um virginiano!). Minha gata esteve internada durante a minha viagem e eu já pressentia há algum tempo que sua hora estava chegando. Quando retornei, ela também voltou para casa, e eu até me espantei. Voltei e tentei arrumar alguma coisa em casa, de limpeza mesmo. Coisas pra colocar em ordem, um montão de roupas pra lavar – que ainda nem terminei de lavar tudo.

Depois, minha pequena veio na sexta-feira com uma tosse e dito e feito, nos dias seguintes ficou com febre; eu ainda tomei muito sol a pino sem beber água e sofri de madrugada – não sei ao certo se em parte foi insolação ou desidratação, acabei também com a garganta ruim e febre, terça muito mal de cama e o resto da semana de molho junto com a pequena. Muita dor no corpo, cansaço e moleza, não acho que foi covid porque ainda sentia gosto e cheiro. E este tempo precário de Brasília, faz mais de 200 dias que não chove! Está muito quente e está muito seco. Pensando que eu poderia estar me sentindo bem melhor no Canadá (sabe, fazendo aquele College Program em pós-produção de audiovisual).

E quando eu parecia estar me recuperando, daí, minha gata morreu. A minha companheirinha, que se mudou tantas vezes de casa comigo, nesses 15 anos. Quando eu me imaginava uma velhinha solitária escritora, ela estava do meu lado – que bobo, é lógico que ela não viveria assim tanto tempo quanto eu. Se bem que eu sempre imaginei que ia morrer cedo, sempre quis, tipo com uns 50 e poucos anos. Se bem que isso era naquele meu plano original da infância, quando eu ganharia um Oscar aos 18 e seria até presidente do Brasil em algum ponto. E Godard, que cansou de viver. Entendo-o, acho que eu já tinha cansado de viver aos 20 e poucos.

Lá pelas tantas, já no final, Elvis diz: “eu estou com quarenta anos”, em “Elvis” (2012) *** E ele diz como se ele não tivesse feito nada de importante. A gente pensa, “é claro que fez, pô”, Elvis nunca será esquecido, foi marcante na história e na música, mas talvez ele diga isso por todo o potencial que tinha, pra fazer ainda mais. Porém, ali foi o resumo perfeito do meu sentimento atual no geral.

Quando minha gata voltou, eu fiquei me perguntando por que nós ficamos, às vezes mais, outras menos, por que continuamos vivendo mais um pouco. Eu já tinha conversado com ela, disse que ela poderia ir para o outro plano de existência, que eu não queria que ela sofresse em sua passagem. E eu, nesses tempos, assim com essa crise existencial, também me perguntando o que ainda estou fazendo por aqui. E o Leonardo DiCaprio, que dispensou outra modelo antes dos 25 anos – não que isso seja assim tão relevante, mas, pôxa, as coisas não mudam? Eu achava que ia ser diferente.

Ou talvez, eu quisesse que as coisas fossem diferentes. Mas não são. É a vida. Como cantaram os grandes poetas de todos os tempos, a vida é assim. E mesmo eu querendo estar contente, afinal, não me falta nada, tenho onde morar, tenho o que comer, nada falta à minha filha; mesmo assim, talvez eu precise mesmo deste momento de luto. Que a vida está me impondo neste instante. Eu queria estar me sentindo mais feliz, como tantas vezes eu já quis. Nem posso dizer que foi porque eu tive que encarar a realidade e desistir de ser guia espiritual, depois de 10 anos de serviço budista. Nem posso dizer que é porque aquele curso de cinema nunca deu certo pra mim. Ou trabalhar com dublagem, ou tocar música, ou aprender japonês pra valer. Talvez seja um conjunto de tudo isso. Um luto por tudo o que não foi, e não será. Às vezes a gente precisa se permitir ficar triste também. Porque isso também faz parte da vida.

Talvez a partida da minha gata, de certa forma, represente o final de uma era. Era de quê, eu não sei. Não sinto vontade de fazer muita coisa. Talvez seja o final de um tempo em que tive que “sobreviver” de alguma forma, aos trancos e barrancos; e finalmente agora posso me dedicar de outra forma à vida. Sem falar que tenho agora outra criaturinha cuja vida foi confiada a mim para apoiar em sua jornada até se tornar independente por ela mesma. Quem sabe, o tempo dirá. O texto de Gramado deve vir, sim, quem sabe algum post sobre “Sandman”, Agatha Christie, os Emmy, “Anéis do poder”, a segunda temporada de “Starstruck”, por que não me interessei por “She-Hulk”, nem achei graça o último “Thor”… Quem sabe venham os roteiros e textos loucos que eu invencionava desde criança? Talvez não haja muito mais o que fazer agora. Talvez eu escreva, ah, que saudades da minha moradinha no Jardim Secreto… Quem sabe. Por enquanto, me deixo estar um tantinho. De luto.

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