Din e o dragão genial

(Wish Dragon / 2021) **

Interessante notar como de uns tempos pra cá surgem essas produções chinesas faladas em inglês, com um suposto público alvo óbvio, embora eu não sei se é filme chinês pra americano ver ou filme americano pra comunidade chinesa gostar.

De qualquer modo, acaba contando com nomes asiáticos atraentes, como o produtor Jackie Chan (que também faz a voz do gênio em mandarim), o sul-coreano John Cho fazendo a voz do dragão Long, Constance Wu na voz da mãe, Natasha Liu Bordizzo que na verdade é australiana e Jimmy Wong na voz do protagonista Din, que esteve também em Mulan e me parece ter um carisma natural, divertido e dá vontade da gente fazer amizade.

(!) lembrando que este blog não acredita em spoilers. Se bem que… talvez você já saiba mesmo o que vai acontecer aqui.

Com parte da produção bancada por Hollywood, a parte técnica não deixa a desejar aos filmes da Disney/Pixar, até porque a Sony mesma já tem certa experiência, se aventurando por outras animações antes.

Mas talvez o grande problema aqui seja exatamente esse, o de beber muito de outras animações anteriores e não conseguir trazer nada assim tão criativo ou original. Eu não sei se existe na realidade uma lenda de gênio dragão, mas continuamente meu cérebro acaba comparando ao Aladdin (1992) **** da Disney, como por exemplo o jeitão desbocado e caricato do gênio, no início temos o protagonista fazendo acrobacias pela cidade, é escolhido por ter um coração bom e puro, é encantado por uma donzela rica, o gênio não tem o poder de fazer ninguém se apaixonar, tem outros caras gananciosos atrás do bule de chá que traz o gênio.

Eu diria que o que rende melhores risadas é quando o gênio vai descobrindo sobre o mundo moderno – mas até isso é meio que uma “correção” de uma crítica que já fizeram ao gênio azul da Disney, que logo na apresentação já brinca com referências atuais da cultura moderna (principalmente norte-americana). Assim, é divertido ele descobrir sobre a água da privada, ou não acreditar que enfrentamos aquele trânsito todos os dias, além da ideia de príncipe que ele tem ser antiquada.

Funciona também alguns dos outros desejos em meio às cenas de ação, os cachorros e a perna comprida, o toque de Midas que vira contra o feiticeiro. Outro ponto positivo foi incluírem a origem do gênio e, na minha opinião, com uma conclusão bem satisfatória.

E o que isso tem a ver com budismo?

Acho que é a minha parte favorita, que o senhor que já foi um rico lorde na vida terrena não só precisa aprender o valor da família e dos amigos, mas conseguir ter esse amor ao próximo maior que si mesmo, a ponto de se sacrificar no lugar do outro, pensar primeiro na outra pessoa, tanto que a divindade lhe concede entrada pelos portões do paraíso com direito a fanfarra; mas como ele realmente aprendeu isso, prefere fazer um acordo, mesmo que isso signifique se prejudicar de certa forma.

Dentro do budismo japonês existem algumas figuras chamadas de bodhisattvas. Dizem que são seres que alcançaram o estado iluminado, como se já tivessem encontrado a salvação e não precisassem mais ter esta vida terrena. Contudo, eles preferem adiar sua ida ao mundo espiritual e ajudar para que mais uma pessoa consiga encontrar também essa “salvação”, libertação.

Esse momento do dragão obviamente me lembrou desse conceito de bodhisattva. E também que já ouvi falar que nós é que pedimos para nascer. Aliás, algo que também me lembra o final do filme “Matrix” (1999) ****, quando Neo já despertou e volta para libertar outros… Será que é verdade? Costumamos falar: “eu não pedi para nascer!” Mas e se tivermos mesmo a chance de nesta existência fazer algo por mais almas? É também por essa linha de pensamento que na escola budista que sigo o foco recai muito sobre as boas ações em prol do próximo, as ações altruístas. Quem sabe não seja assim mesmo e estejamos por aqui para isso?