Ok, então vamos falar de Nomadland

Pois é, o Oscar passou e eu acabei não dedicando um post bonitinho para cada filme indicado a melhor filme do ano, mas vamos falar um pouquinho pelo menos do vencedor, vai.

Primeiramente, aviso que tenho uma estima a mais, por motivos bem pessoais, pelos road movies, ainda mais projetos como este, que compartilha experiências de pessoas reais e advoga um estilo mais livre de viver. Sim, eu vi “Na natureza selvagem” (Into the wild/2007)***, “Livre” (Wild / 2014)***, e tenho simpatia por certas quebras de padrões sociais. Houve tempos na minha vida em que eu gostaria de ter virado nômade, viajando pelo mundo afora, morando num trailer (na verdade, ainda considero essa aposentadoria, depois que minha filha se formar, quem sabe?)

Além disso, a diretora Chloé Zhao, tem a minha idade, é a primeira asiática e uma das poucas mulheres na história a levar um Oscar nessa categoria. Os pouquíssimos leitores deste blog já devem ter adivinhado que eu fiquei me imaginando lá, com um projeto bem meu, talvez lírico, com certeza incluindo cenas da natureza, como seria eu levar um Oscar, mesmo nesta altura da vida, hein? (e asiática, e mulher)

Puxa! Mas vamos lá.

Historinha: uma mulher abraça a vida nômade nos EUA.

O que mais gosto no roteiro, além da trajetória da personagem principal, que vai de uma mulher que perde certas condições materiais e enfrenta cada dia e trabalho por vez, muda, se liberta, é a inclusão dos relatos dos nômades na vida real. E a direção também trabalha muito bem assim, incorporando esses elementos numa montagem que combina bem os diferentes momentos e imagens para construir um pensamento e sensações de modo fluido.

Acho o máximo quando ela enfrenta o parente dizendo que é absurdo esse sistema em que passamos a vida inteira pra pagar por um imóvel que nem temos condições de ter – digo isso por experiência própria, de pais cujo sonho sempre foi ter casa própria e nunca conseguiram, e são um retrato de muitos brasileiros, creio eu.

Alguns estão nessa vida devido a crises econômicas, mas o relato que mais me marcou foi o da senhora que diz que já viveu tudo o que precisava e presenciou momentos únicos, belos e extraordinários. Me identifico, às vezes eu penso que não preciso viver mais nada. E como iríamos preferir morrer?

Na conclusão de sua trajetória compreendemos bem que, apesar de ter convites para habitar um local fixo, nossa protagonista prefira seguir esse outro caminho. Após visitar a casa de uma vida passada, numa cidade fantasma que existiu somente em prol de uma indústria, Fern claramente não pertence mais àquilo, existe todo um horizonte maior para o qual ela está livre para encarar.

Aliás, Frances McDormand também levou seu prêmio por melhor atriz, e não é que esteja mal, pelo contrário, me pareceu que é um papel tão natural a ela, que nem deu trabalho. As outras atuações nem sei bem o que é considerado ator, visto que a maioria está ali como si mesmo.

Outra curiosidade foi me surpreender em saber do trabalho na Amazon, que a Frances realmente se passou por uma das trabalhadoras lá. Até indaguei por que o filme não foi lançado pelo Amazon Prime, hehe.

E o que isso tem a ver com o budismo?

Como em todas as boas obras, sempre existe alguns vários pontos que eu poderia relacionar ao budismo, mas acabo focando em um ou outro.

Não sei exatamente por quê, mas desde bem jovem eu associava o budismo ao desapego, principalmente material. Que, é claro, precisamos de um mínimo para viver bem, mas não demais, que o lado material não é o mais importante. Talvez isso se deva ao conceito budista de impermanência, de que tudo muda, constantemente.

Calma, não vou defender que todos deveriam se tornar nômades e desapegar de vez dessa vida padrão consumista (casa dos sonhos, carro do ano, roupas e itens que nem vamos usar…). Simplesmente, o que me parece ser mais presente aqui é a questão do livre arbítrio. No budismo não falamos em castigo, punição. Sim, existe um tal de carma, mas não é algo que lhe prenda a ponto de saber como o mundo foi criado e qual sua única missão na Terra. Todos nós temos escolhas e somos livres para seguir por um caminho ou por outro.

Talvez o que devamos nos perguntar é como podemos seguir nesta estrada de vida aprendendo a apreciar cada dia, porque nada é “para sempre” nesta terra. Quando você estiver próximo da morte, ao final de sua trajetória por aqui, quais escolhas terão feito sentido? O que realmente vai ficar, vai ter importado?