Raya e o último dragão

(Raya and the last dragon / 2021) ***

Historinha: uma princesa precisa reunir as partes de uma pedra mágica para restabelecer um mundo harmonioso trazendo de volta entes queridos, com a ajuda da amiga draga (dragoa?)

(!) Este blog não acredita em spoilers! Uma coisa é saber o que vai acontecer com esse roteiro clichê, outra é mesmo assim se surpreender, se pegar emocionado, além de deslumbrado com o visual.

É, depois de um tempo vendo filmes, nós nos acostumamos a certos tipos de roteiro, né, e já sabia que a menina ia ser traída naquele momento, e até que ao final teríamos dragões… entre outros furos de roteiro, tudo bem, porque é uma aventura tão honesta e envolvente que a gente se deixa levar.

Gostei desse desenho de produção, com os diferentes conceitos para cada área como um video-game de diferentes fases, mas aproveitando o tema – como o fato dos druuns não sobreviverem à água, então os locais são adaptados a isso e a inspiração no sudeste asiático; o tatu-bola “tuk tuk” como meio de locomoção (e eu ri mesmo ao ver como ele tinha crescido!) ficou ótimo. As luzes e tonalidades são bem distintas e encanta os efeitos dos dragões pisando no céu.

Eles conseguiram seus próprios pinguins de Madagascar nas figuras da bebê e dos macaquinhos, e a aparência de dragão casou muito bem com a que deu sua voz original (Akwafina). Dos diferentes personagens, me comove o grandalhão que foi o último a sobrar de toda a sua tribo (pensem só!). Apesar de baterem repetidamente na tecla de saber confiar, não é que realmente me peguei desprevenida em lágrimas ao final? O final pode ser um feliz tradicional, mas é aquele conforto Disney de afago no coração.

E o que isso tem a ver com budismo?

Não sei se vocês sabem, mas dentro da história do Buda, existem vários momentos que seriam como lendas, envoltos por certos elementos mágicos e incluindo alguma metáfora nisso. Um desses momentos é o próprio nascimento do Buda neste mundo, dizem que o Rei Dragão fez chover água doce e quente dos céus, além de outros fenômenos que marcam esse acontecimento.

E não é que um dos dragões irmãos da Sisu tem o poder de trazer chuva? Aliás, no seu design creio que aquele topete seja inspirado na flor de lótus fechada (uma flor símbolo do budismo) – ou será que foi viagem minha?

Fato é que dentro do budismo uma das grandes celebrações do ano é o nascimento, que lembramos no início de Abril – e vejam só, bem nessa época, para os cristãos, celebra-se a Páscoa, que também traz a ideia de renascimento, não? Acho muito interessante essas “coincidências”.

No filme, essa aventura toda é para renascer, de certa forma, para um mundo com mais união apesar das diferenças, mais amor e harmonia.

Para a ordem budista que sigo também, o tempo do nascimento do Buda é para nós nos inspirarmos, pensarmos em como podemos nos desapegar de algo (que pode sim ser nosso orgulho próprio ou até alguma descrença) e “renascer” espiritualmente…

Quase uma rockstar – e o que isso tem a ver com budismo?

(All together now / 2020) *

Eu acho engraçado quando às vezes me deparo com algo que me lembra os Beatles e daí não tem nada a ver… tipo aquele filme com o Eddie Murphy – Imagine só (Imagine that / 2009)**, o pessoal responsável realmente gosta da banda, tinha várias referências e eu nunca teria imaginado que essa comédia que entra na brincadeira da filha pra faturar com seu trabalho teria isso… Aqui neste filme eu só vi que o título original era o título de uma canção dos Beatles no final, me interessei porque sabia que Auli’i Cravalho tinha feito a voz da Moana e acabei me decepcionando um pouco, porque confesso que não gostei muito da atuação “live action” dela. Sei lá, sabe quando parece que a pessoa tá sempre com o mesmo rosto?

A narrativa é de uma menina que acaba perdendo a mãe por um acidente causado pelo vício. A menina mora em um ônibus e tem que se virar com empregos aqui e ali, precisando ainda desistir do seu sonho de estudar música devido a uma cirurgia da única família que lhe sobrou: um cãozinho que ela sempre carrega consigo na mochila. Prato cheio para lágrimas? Bem, acho que depende da condução do projeto?

Sim, eu acabei soltando algumas lágrimas, mas não sei se foi pelas razões certas. Os amigos da menina acabam planejando um show de talentos em prol da cirurgia do cachorrinho, reunindo-se por alguém que sempre foi boa com eles. Apesar de ela sempre procurar fazer o bem para outros – animando senhorinhas de um coral, distribuindo donuts numa casa de repouso, incentivando os jovens talentos da escola – ela mesma é orgulhosa e em determinado momento o crush dela pede para deixar os outros a ajudarem.

E o que isso tem a ver com o budismo?

Sabe, uma vez eu fiquei meio encucada com uma espécie de crítica sobre o conceito de méritos. Costumamos dizer que devemos acumular méritos com boas ações para poder transferi-los – para espíritos, por exemplo, que já não estão neste mundo e não conseguem gerar méritos por si próprios. A crítica era sobre essa ideia de como se fosse um banco, como uma conta de poupança em que vamos acumulando méritos. Mas essa ideia é apenas uma ilustração, um jeito mais fácil de visualizar o conceito.

Acho que o mais importante não é focar em quanto mérito você está acumulando, mas nessa ideia de que nós estamos vivos aqui nesta existência terrena e podemos fazer algo bom em nossas vidas. Todas as ações boas vão gerar mais coisas boas, e isso pode acabar ajudando outros e retornando para você de diversas formas também. No caso do filme, a menina foi realizando essas boas ações, que retornaram para ela desse modo mais explícito, com as pessoas querendo ajudá-la inclusive financeiramente.

E outra questão é a da humildade. Às vezes precisamos admitir que precisamos de ajuda. Que não dá pra fazermos tudo sozinhos, e não tem problema nenhum nisso. Temos que nos permitir sermos ajudados também, até porque isso também faz bem à outra pessoa, e faz essa corrente de bem continuar fluindo.

As lágrimas vieram porque eu sou uma pessoa que sempre teve o pensamento de ser autossuficiente, independente, sempre meio que acreditei que precisava me virar sozinha e pronto. Talvez com a maternidade (a idade?) eu tenha amolecido um pouco, e nos últimos tempos eu tenho me aberto muito mais para aceitar a ajuda de outras pessoas também. Faz parte da nossa condição humana, nós estamos todos interligados, e não há nada de errado nisso.

Retrospectivas, casamentos e mais do que os filmes

Ontem, dia 03 de junho, fizemos um ano de casados! E nos últimos meses teve Retrospectiva do Casamento por este blog aqui, pra quem não pôde estar lá seja qual tenha sido o motivo (e olha que foi como uma trilogia, então você não deve ter visto ou São Paulo, ou Belém, ou NY…), confere lá. Nos últimos dias, inclusive, fizemos uma pequena viagem pro Rio Grande do Norte e pretendemos postar em breve.

Nesse meio tempo em que o blog esteve fora do ar (xenti, dois meses, é tanta coisa que nem sei por onde começar) teve também o casamento do príncipe Harry e da Meghan Markle, lindão, claro… e a gente só comenta aqui porque eu nem sabia que ela era atriz antes de saber do casamento… E eu confesso que eu escolhi no Netflix ver “À beira mar” só porque foi o último com o Brad Pitt e a Angelina Jolie antes de se separarem – e dirigido por ela, e fala de um casal em crise… hmmm

E vi aquele filme em que a Jennifer Aniston quer ser mãe e o eterno Michael de “Arrested Development” (Jason Bates) tem quedinha por ela, e depois ela como mãe naquele filme sobre o Dia das Mães e… é, eu acabo achando que a vida e a arte se confundem e ela não podia ter, então o Brad foi lá e teve um monte com a Angelina, e confesso que nunca torci pra esse casal porque achei ela uma bitch (desculpa aê, sei que é aniversário dela e tal) e todo o embrolho terrível, enfim, quem sou eu, mas acabei vendo esses filmes bem ruinzinhos. E confesso que depois que a Jennifer se separou, fiquei torcendo para voltarem.

Vamos falar de algo bom, um dos destaques do mês de abril foi “Um lugar silencioso” (2018)***. Que filme mais bem aproveitadinho, hein, quem diria que o John Krasinski, eterno Jim do “The Office”, teria uma mão tão boa. E ainda ao lado da esposa, Emily Blunt, pegou um bom gancho com a menina surda e a esposa grávida, que gera complicações arriscadas no cenário estabelecido de aliens que matam pelo som… vários detalhes que somam e alguns momentos de perder o fôlego, valeu o ingresso.

 

Porém, meu grande destaque de abril foi “Ready Player 1” (2018)***! Com certeza! Mais do que “Vingadores: Guerra infinita” (2018) ***? Pff… óbvio, tu não me conheces. Tudo bem, este último filme foi muito esperado pelos fãs, até que conseguiram aproveitar legal tantos supers juntos, e Thanos foi mais interessante do que eu esperava: grandes sacrifícios para salvar a humanidade? Hmm, é meio que um anti-herói, ou não?

E já que estamos falando de super-heróis, eu fui sim conferir “Deadpool 2” (2018)***, que também foi melhor do que eu esperava? Mais do que boca suja e piadinhas, e uma nova integrante com o melhor super poder: a sorte! hahaha Esse poder fez a gente ficar de olhos grudadinhos na tela acompanhando tudo, numa ótima sequência de ação.

Mas o do Spielberg… como os leitores sabem, sempre preferirei o meu padrinho imaginário. Não dava nada pelo trailer, mas passar por essa aventura nostálgica dos anos 80 foi gostoso demais, incluindo a trilha sonora, o T-rex do diretor que é pai dos Parques dos Dinossauros; amigo do Kubrick, com o desafio importante do “Iluminado” (1980) ****, que não estava no livro; direito a ótima trilha sonora e mais uma agradável caracterização do Mark Rylance; Delorian, cubo do Zemeckis (outro amigo); o Gigante de Ferro!, Godzilla e muito mais. Que “Stranger Things” que nada, isto aqui sim é anos 80/90 na veia. Até quis ter feito um post só de coisinhas divertidas a notar, mas não rolou.

2018-readyplayerone

Não rolou porque eu passei quase dois meses doente. Pois é, pois é. Tive piriri, achei que tinha melhorado, gripe, hormônios descontrolados (e sangrar três vezes no mês é demais pra mim; assim como um período prolongado de 10 dias), imunidade baixa, foi triste. Na verdade, tivemos muitas coisas tristes, Nelson Pereira dos Santos (que me lembrou de como eu fiquei embasbacada na época da faculdade, quando descobri que dava para ver filmes inteiros pelo YouTube!), outros jornalistas, incêndio, greve dos caminhoneiros. Mas a gente acaba se concentrando nos nossos próprios problemas, não é verdade?

E o que isso tem a ver com o budismo? A essência geral dos ensinamentos budistas que sigo é buscar sempre a felicidade do próximo. Chega ao ponto de querermos tanto que a outra pessoa seja feliz que esquecemos das nossas próprias infelicidades. Além disso, as adversidades nos fortalecem e podemos sentir felicidade mesmo quando nos deparamos com as dificuldades, porque tudo é motivo para agradecer.

Pois, admito, é mais fácil na teoria do que na prática. Junto com a doença “física” eu me peguei indagando se esses sintomas eram erupções de um interior que não aguenta mais e está para explodir. Porque quando a alma não está sã, o corpo também dá sinais. Há muito sinto-me cansada. Fiz retrospectivas pessoais, do que eu já vivi e dos sonhos que outrora tive. Acredito que luto contra uma leve depressão, que volta de tempos em tempos. Passar meses sem vontade de sair ou sem fazer as coisas com prazer não é lá muito normal.

Embora eu quisesse ser o exemplo perfeito e servir de inspiração, esta é a verdade: eu preciso lutar, todos os dias. Para ir trabalhar. Para buscar contentamento. Para encontrar algo que me dê esperanças de uma vida verdadeiramente feliz. Sei que não existe uma solução fácil. Eu queria poder me conformar, ou desistir de tudo. Mas eu luto. Procuro por pequenas saídas que sejam, pequenos respiros.

Um deles é escrever. Nem que seja aqui, no blog – e agradeço a todos que visitam, porque mesmo eu achando que ninguém lê, acaba me estimulando ver os números de visitantes. Outro é o cinema. Ainda dentro dos ensinamentos budistas, dizem que há alguns sofrimentos típicos pelos quais os seres humanos podem passar, como o de se separar de entes queridos, de não ficar com a pessoa que ama, de não conseguir realizar o que se quer na vida. Há alguns anos eu desisti de fazer cinema e venho entendendo cada vez menos do universo da sétima arte. Desapegando disso, fiquei à deriva pensando o que eu poderia querer mais do que os filmes. Claro que eu ainda gosto deles e continuamos escrevendo. E, na verdade, algo que sempre quis com os filmes era passar mensagens boas e inspirar as pessoas.

Um dia talvez eu tenha uma resposta melhor para este momento que estou vivendo.

Agora, preciso me focar na saúde. Nunca tive um mês tão ruim na diabetes, desde que passei a medir regularmente e tentar um controle. As glicemias em jejum sempre acima de 200. Daí, encontrei um livro sobre saúde pelos alimentos e de forma natural. E inclusive ele fala sobre evitar a depressão suicida com o poder dos alimentos, vejam só. Claro, eu devo procurar a prática de exercícios físicos também. Sobre esse novo desafio, contarei no outro blog.

Eu tinha algumas metas a cumprir até o final de maio que foram cumpridas, para que eu pudesse me renovar. Ainda não sei bem como ter mais gratidão e me sentir mais feliz e contente. Mas estamos na luta. Um passo de cada vez.

 

Existe vida budista em “Não me abandone jamais”?

(Never let me go / 2010) **

Ai, gente. Que filme mais triste. Doído. Um dos roteiristas deste filme é também autor de romances, inclusive “A praia”, que ganhou aquela adaptação risível do Danny Boyle. E mais recentemente contribuiu com “Sunshine”, “Ex machina”. Mas e daí? Daí que um ponto em comum no trabalho de Alex Garland que identifico é a possibilidade de uma realidade “alternativa” que é meio perturbadora.

Na historinha, começamos sendo apresentados para uma espécie de orfanato, com várias crianças diferentes convivendo. A narrativa vai se desenrolando e vamos descobrindo mais aspectos daquelas vidas que nos assombram. Uma professora explode e escancara que aqueles jovens terão todos o destino de servir apenas para doarem seus órgãos. E nesse meio vemos surgir uma paixão ingênua de uma garota que ganha uma fita com a canção que dá título ao filme, depois tem o garoto que gosta “roubado” pela colega, e a gente acha que isso vai passar, pior que não, eles continuam se relacionando já pós adolescentes, até que ela decide se voluntariar para ser cuidadora – o que não é nem melhor, porque mais cedo ou mais tarde ela será ativada para também se tornar doadora. É uma jornada doída, e sentimos por aquela garota, que poderia ter estado mais tempo com seu amor.

Dou palmas a quem escolheu o elenco, porque a garotinha que depois será vivida por Carey Mulligan é muito igual a ela mesmo! As opções em fotografia e desenho de produção também são coerentes, com aquela realidade meio “estranha”, nunca sendo muito colorido, mas bucólico e cheio de luz com a gente torcendo para que Tommy (Andrew Garfield) revele seus verdadeiros sentimentos. É até bobo no que Tommy acredita que fosse a seleção dos trabalhos de arte, mas talvez até pelo carisma desses dois atores juntos, nós também temos esperança de que exista outro destino para esse casal. A gente também fica com raiva da outra rapariga (Keira Knightley), e acaba chorando mesmo com sua tentativa de redenção – ou seja, isso deve significar que a direção trabalhou bem.

 

E o que o budismo tem a ver com isso?

Acho que todos nós já nos perguntamos de que vale a nossa vida? Quer dizer, o que estamos fazendo aqui? Um ensinamento básico para praticarmos pelo budismo que sigo é a importância de pensar no próximo. Ter ações altruísticas, pelo bem de outras pessoas. Vocês já imaginaram esse tipo de vida do filme, em que eles só servirão ao propósito de servir para ajudar outros desconhecidos? Será que nós conseguiríamos viver bem assim? Mas e por que não? E se nossa existência humana for realmente só uma passagem, para aprendermos e evoluirmos, e isso envolva uma compreensão que só é possível realmente doando-se pelo outro e entendendo e valorizando o que o outro também nos possibilita?

No final do filme Kathy se pergunta se as pessoas que receberão o benefício seriam diferentes, nós temos só este tempo de vida, afinal. E o que vamos fazer com ele?

Fome de poder / O mínimo para viver

Fome de poder (The founder / 2016)**

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É o filme que me fez querer parar de vez de comer no Mc Donald’s. Bem, isso já tinha me passado pela cabeça antes, que eu nem gosto taaanto assim dos sanduíches deles, se for pra comer hambúrguer, que seja um bom de verdade (porque tem tanta coisa errada num combo pra gente que tem diabetes…). O maridão também já fez o “voto” de nunca comer porque é uma das empresas gigantes que querem dominar o mundo (hahaha, mais ou menos isso).

Daí este filme conta a historinha não dos irmãos que dão nome à lanchonete, mas do cara ambicioso – que quer dominar o mundo. Então… bem, acho que deu pra entender. Ele foi o cara que transformou uma boa ideia de dois irmãos metódicos e persistentes em um sistema, franquia, máquina de dinheiro. Eu gosto bastante do Michael Keaton, que faz o “fundador” do filme – um nome curioso, já que ele não é o verdadeiro fundador e lá pelo final do filme a gente percebe um certo ponto fraco ali na trajetória dele; ah, se ele tivesse nascido com o nome certo!

Porém, seu personagem deixa esse sentimento ambíguo na gente. Pôxa, gostamos dos irmãos Mc Donald’s, que falharam e se reergueram e queriam entregar um hambúrguer gostoso, pensando na qualidade. Daí vem esse cara e praticamente toma tudo deles, então não queremos torcer por esse personagem. Que também tem sua luta, mas também vai lá e dispensa a esposa que sempre tentou apoiá-lo e sofreu com sua ausência. Não sei. É um filme que não deixa a gente muito feliz quando acaba.

Gostei da escalação dos outros atores também, a cena dos irmãos coreografando funcionários num chão riscado de giz é ótima (e me perguntei se realmente aquilo existiu), nos quesitos técnicos tudo ok, mas o que fica é a sensação de que não quero mais comer no Mac.

***

O mínimo para viver (To the bone / 2017) **

Uma coisa a gente tem que admitir. O Netflix às vezes consegue entregar umas produções que tocam em temas delicados e talvez não ganhariam espaço por um estúdio grande ou outro meio. Teve um outro título, The fundamentals of caring (2016), que toca também numa questão delicada, um garoto cadeirante e a relação com um novo cuidador. E até que conseguiram um trabalho bom, cada personagem tem sua bagagem e contribuição na trama, conseguem nossa afeição e interesse.

Já neste filme, eu não sei se ligo tanto assim pro médico vivido por Keanu Reeves (no início não parece tão controverso assim?) e talvez tenham forçado um pouco a mão na “vontade de viver”. A questão delicada aqui é o tratamento da personagem Ellen, que sofre de anorexia nervosa. A anorexia é um tema controverso, e eu não costumo ver filmes do gênero, então o ponto que achei interessante é como eles mostram alguns aspectos reais da doença. Algumas coisas que eu não sabia, como o corpo produzir mais pelo para compensar a falta de gordura para se esquentar; a obsessão com exercícios físicos (corrida ou abdominais sem limites); a maneira de se preocupar incessantemente nas calorias que devem perder. A atriz emagreceu de dar dó, a maquiagem ajuda. Ou seja, conseguem passar que é uma doença, sim, não é “besteira” e não é bonito de se ver.

Talvez um dos problemas do filme seja alguns momentos bizarros. Tudo bem, a causa para Ellen ser anoréxica não é tão simples e plana, esse é um ponto positivo do filme. Mas a cena em que a mãe amamenta a filha, apesar de tocante, é difícil de descrever. E a construção de uma relação de amizade é aceitável para mim, mas aquele colega que era dançarino querer “ir pros finalmente” ali no quintal também foi meio bizarro. A sequência do sonho talvez um pouco exagerada e não tão necessária? E se era pra chegar ao fundo do poço, o que foi a visita à instalação de arte (que na verdade pra mim foi só chuva falsa, mas era arte, né?).

Enfim, talvez seja eu que esteja de má lua, mas eu definiria o filme como “meio bizarro”.

***

And now, for something completely different. Sobre os ensinamentos budistas.

Eu diria que algo que me fez sentir com ambos os filmes é como às vezes nós subestimamos o impacto de nossa própria vida para as outras pessoas. Até onde nós podemos chegar achando que estamos certos? No filme do fundador do Mac, vemos um cara que tem garra, mas o quanto ele fez a esposa e os criadores originais do Mc Donald’s sofrerem? No filme sobre anorexia, Ellen acha que tem as coisas sob controle, mas o quanto sua família próxima está sofrendo e querendo vê-la feliz?

Os ensinamentos que sigo são da vertente Mahayana do budismo, o que significa que buscamos ter atos altruístas. Pensar no próximo. E não precisa ser algo grandioso, começa com as pessoas ao nosso redor. Lógico que no caso da Ellen é uma doença. Mas e quando nós mesmos temos o controle de “ceder” um pouco, temos a escolha de pensar um pouco mais, ter mais consideração pelo outro?

 

Resgatando o tema “existe vida budista em Matrix?”

Matrix (1999) **** é um dos meus filmes favoritos de todos os tempos. Eu morava no Japão na época em que foi lançado, nem me considerava budista de todo, mas o filme acabou se tornando um dos que mais gosto. Por esses dias é que eu percebi que nunca tinha escrito sobre isso antes aqui, por que o subtítulo deste blog pessoal é a pergunta “existe vida budista em Matrix?”

Este blog surgiu primeiramente como uma via de expressão (quantos desabafos já passaram por aqui!) e também registro de algo dos filmes que vi para a memória fraca desta própria autora (hence, os inúmeros posts com descrições de episódios de novelas e séries que foram inclusos também). E, como um blog pessoal, nada mais justo que combinar os elementos que compõem a pessoa que vos escreve – o que envolve filmes e também budismo.

Tivemos algumas tentativas anteriormente de combinar um pouco dos dois, do cinema, que sempre gostei mesmo sem saber por quê, e serviu de muita inspiração na minha vida; e do budismo, que sempre gostei mesmo sem saber por quê e serve de muita inspiração na minha vida. Talvez daqui pra frente esses posts combinando esses dois lados apareçam mais por aqui.

1999-thematrix-movieposter

E Matrix? Dando uma busca rápida pela internet é possível encontrar vários textos que trazem diversas referências religiosas inseridas no filme, sendo o budismo um tema de destaque. O Budismo que eu pratico, que vamos chamar aqui de “Budismo S” não é daquele tipo em que você precisa raspar a cabeça e ir morar isolado numa montanha para meditar. Nós temos monges também, mas eles são pessoas comuns, que trabalham na sociedade, podem se casar e ter filhos. Os ensinamentos que recebemos devem ser colocados em prática no nosso entorno e qualquer pessoa pode se tornar uma pessoa “desperta” – um termo para a pessoa que entende algumas percepções maiores sobre a vida, algumas verdades que nos ajudam a entender o sofrimento e a condição humana, e nos ajudam a seguir por esta existência.

Na verdade, a palavra “Buda” se refere a esse ser “iluminado” (que despertou). Não sei se vocês se lembram da história de Neo? Era um cara comum, que levava sua vidinha, até que é levado a despertar para a verdadeira realidade. Esse é um dos pontos de cruzamento com o budismo. Neo depois precisa treinar para lidar melhor com a Matrix e lutar contra os caras que querem deixar todos na inércia e no sonho para lhes sugar a força. Ele precisa treinar até descobrir seu verdadeiro potencial e ajudar outras pessoas. E é mais ou menos assim mesmo o treinamento budista.

E pra falar um pouco mais, Morpheus e Neo não apenas despertaram, eles são como bodhisattvas. Aqueles que despertam, mas continuam ajudando outros a despertarem. Tudo, porém, é a escolha da própria pessoa. Morpheus oferece a Neo nada além da verdade, se ele quiser continuar no mundo de ilusões, tudo bem. Morpheus também não pode apenas explicar intelectualmente a Neo, ou caminhar por ele, Neo precisa caminhar por si próprio para entender. Mas qualquer pessoa da Matrix pode despertar.

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Existem muitos outros pontos que eu poderia citar e muita coisa pra conversar… quem sabe num outro post? Na minha humilde opinião, grandes filmes são aqueles que a gente gosta de ver e rever, que sempre vão lançar motivos de reflexão e debate, que vão ficar com cenas emblemáveis gravadas na nossa memória. Além dos efeitos especiais que marcaram uma era e todo o estilo parodiado mil vezes, era um jeito novo de ver e fazer cinema, um filme de ação empolgante com questões filosóficas. E eu adoro o fato de que Keanu Reeves foi Neo e também o Buda – em O pequeno Buda (Little Buddha/1993)**, de Bernardo Bertolucci).

Matrix é um filme que pode fazer a gente até duvidar – se está vivendo mesmo ou apenas sonhando. E não é disso que o cinema é feito? O Budismo pretende ajudar a vermos sem as “ilusões” e a vivermos melhor com isso. E é aqui nesse ponto de cruzamento em que nos encontramos.

Ascent

(2016) ***

Fiona Tan was nominated for the Rotterdam Film Festival for “History’s Future”. I’m not sure how did she manage to release two docs at the same year (in fact I can imagine, since they are different processes) but I went and watched this session that is closer to my workplace – and the theme that is closer to my life. For the basis of this film, she gathered about 4,500 pictures of the Mount Fuji in Japan, of over 150 years of history.

Though I thought it felt too long (maybe due to the very nature of the project, since her motion pictures are more pictures than motion) I actually enjoyed the feeling of being transported by these means of capturing time that is photography and let myself really imagine climbing up that Fuji mountain while thinking of the many stories told, including old tales of princesses and a monk who died of fasting, or the old times during war and the beginning of photos in Japan. It’s funny how sometimes our eyes let themselves be deceived and we have the impression to be seing the image move, when it is in fact not so, and to notice how the narration adds to the pictures being displayed instead of simply throwing philosophies at us but trying to make links.

I’ve loved to imagine the clouds at the top of the mountain as the smoke from burnt letters, to feel like I was there at the top watching the sun come up, to remember spring times and think of the passing of time, to be surprised by black and white photos that reminded me of “Hiroshima, mon amour” (1959)**** only to the next second start hearing a piece of its dialogue, to know more about how Godzilla was not just a toy.

“the essence of the flower is to fall”

Like the buddhist saying that nothing is permanent, all life is destined to change and to an end at some time, however the mountain seems the same, so many have been up and down, someone’s time had been up and down… But there is also beauty in it, right?