Alexandre e o dia terrível, horrível, espantoso e horroroso

(Alexander and the terrible, horrible, no good, very bad day/ 2014)**

(!) Este blog não acredita em spoilers. Mesmo que você saiba tudo o que pode acontecer, ainda há possibilidades de risos aqui e ali.

Historinha: um menino deseja que seus familiares tenham um dia ruim no seu aniversário.

Como um bom filme dos estúdios do Mickey, para a família toda assistir, a produção e a parte técnica não tem muitas falhas e os acontecimentos que devem ser cômicos são bem previsíveis, com aquela moralzinha no final pra tocar nosso coração. A escolha de elenco foi boa e a dinâmica da família funciona; gostei que o menino faz um personagem que adora a Austrália e ele é mesmo de lá, e é engraçado como a Jennifer Garner parece ter realmente abraçado a maternidade e estar curtindo – por isso escolher esses papeis de mamãe? Pela Disney também ela fez uma mãe em “A estranha vida de Timothy Green” (2012) e um exemplo mais recente é o “Dia do sim” (2021) pela Netflix.

Não sei exatamente o que alteraram do livro em que foi baseado (escrito em 1972!), mas as coisas azaradas que acontecem com a família nem são tão ruins assim, eu acho, tipo o bebê com tinta verde (se bem que nem seria correto fazer um bebê sofrer muito, né!). Existem sim alguns furos, por que a mãe simplesmente não pega um táxi ou uber? Algumas situações previsíveis, o roteiro avisou pelo menos duas vezes que a menina que se apresentaria como Peter Pan não deveria beber tanto xarope. Mas mesmo sabendo que o rapaz ia falhar no teste de direção, a gente não sabia que ia dar tão ruim. Aliás, a gente sabe que apesar dos percalços tudo vai ficar bem no final, inclusive o emprego em games do pai interpretado pelo Steve Carell (sempre bem, claro).

O que mais apreciei no desenho de produção foi a festa com o tema australiano, realmente seria uma festa muito “da hora” me colocando no lugar do garoto. E quando menciono sem problemas de produção isso inclui até a canção “You can fly” da animação “As aventuras de Peter Pan” (1953) do próprio estúdio, que aliás, eu não sabia, nem na Broadway foi usada.

E do filme como um todo a parte que toca o coração não se saiu mal não, é legal ver o pai “extravasar” e o menino incentivá-lo apesar de achar que esse dia está amaldiçoado, perceber que com o apoio das pessoas que amamos, nós podemos superar.

E o que isso tem a ver com budismo?

Este filme traz um tema com que todos podem se identificar, o de viver um dia que parece muito ruim, de “azar”. Às vezes a gente se apega tanto a alguma coisa específica – e nesse dia apresentado a nós, todos os personagens pareciam ter que viver momentos importantíssimos para suas vidas, cada qual em seu momento. Porém, talvez não dependa do destino – sorte ou azar – e sim da nossa própria referência. As coisas ao redor não vão mudar porque a gente acha que tem, mas nós podemos mudar, e nós podemos mudar a forma como olhamos para ela. No final do dia, essa família ficou muito mais unida através dos percalços e alguns conseguiram perceber aqui ou ali algo maior (não vou contar o bebê, que aliás também é um acerto de casting, uma graça, e eram gêmeas na realidade!).

Da ordem budista que sigo, existe um ensinamento do mestre fundador que diz que não existe dia bom ou ruim se nós conseguirmos perceber a compaixão dos budas. Talvez um dia que aparentemente seja ruim, possa ser considerado bom em outros sentidos.