Pompoko: a grande batalha dos guaxinins

(Heisei tanuki gassen ponpoko / 1994) **

Quando a Netflix teve que dispor das animações da Disney e incluiu em seu catálogo vários títulos dos estúdios Ghibli (pra mim, pelo menos, funcionou muito nesse sentido, compensou demais!), eu achei uma ótima ideia e uma grande oportunidade para ver mesmo aqueles que eu nunca tinha tido chance ou sequer ouvido falar.

Pra mim, Isao Takahata sempre foi o carinha dos filmes mais tristes e sérios, os mais marcantes foram “O conto da princesa Kaguya” (2013)*** e “Túmulo dos vagalumes” (1988)*** – devastador. E eis que este me aparece como uma grande comédia, apesar da moral explícita de preservação do meio ambiente. Aliás, creio que essa questão ambiental e de respeito à natureza seja a verve inerente do próprio “estúdio”, que sempre vai ter algo disso nas histórias e animações Ghibli.

Apesar de conseguir dar umas risadas aqui e ali, no entanto, me fica a impressão de que é um filme repleto da cultura japonesa e que um ocidental talvez não sinta tanta graça em ver. A animação foi até o candidato sugerido pelo Japão para o Oscar (na época, melhor filme estrangeiro, não havia ainda a categoria de animação).

Historinha: gosto dessa ideia geral, dos guaxinins quererem lutar pelas terras onde moram, que os humanos estão tomando para construir cidades.

(!) lembrando que este blog não acredita em spoilers. Mesmo sabendo do que vai acontecer na narrativa, talvez você tenha reações inesperadas…

Visualmente, é divertido desenharem os tanukis como são mais aos nossos olhos da vida real, em segredo cada um com uma personalidade bem definida e cartunísticos, até chegar por vezes ao ponto de traços tão simples e molóides dependendo do estado deles. E é bem divertido, depois que somos apresentados ao poder de metamorfose deles, ganharem a dinâmica aos nossos olhos de irem se transformando. Aliado a esse treinamento para dominarem a técnica de metamorfose, há o fato de quererem pregar peças nos humanos nessa “guerra” e para mim, essas foram as melhores partes. São diversas travessuras assombrando os humanos.

Sempre tem alguns pontos em comédia que eu não consigo acompanhar, e só digo que aqui o lado devasso não me causou tanto riso, incluindo toda a extensão dos seus sacos (testículos, literalmente!). Mas achei fofo mostrarem o início de um casal, ri quando não queriam matar todos os humanos, porque senão ficariam sem fast food. Só fico imaginando que as reuniões de criação devem ser muito loucas, ainda mais com uma das sequências mais notáveis, a da “parada” de seres sobrenaturais – a legenda traduziu alguns como goblins, mas tem de tudo ali: representações de fantasmas e divindades, figuras alegóricas, do folclore japonês, fantásticas, monstros lendários do imaginário das crianças no Japão… e quem for fã de Ghibli ainda pode pegar umas referências a outros filmes aparecendo por ali.

Porém, apesar da boa premissa, ficou um pouco arrastado e com partes desnecessárias. Talvez porque eles tenham sido muito diretos na mensagem que queriam passar, fica me parecendo que poderiam ter tido menos arcos e seria tão eficaz quanto, e eu particularmente prefiro quando uma obra deixa mais sugestões e as reflexões para o público do que um recado quebrando a quarta parede no final. Mas que a gente fica tristezinho vendo os tanukis roubando lixo, fica, e talvez seja mesmo esse sentimento que queriam causar…

E o que isso tem a ver com budismo?

Pois muito bem… vou apontar aqui seguindo pelo mais fácil, assim como fizeram no filme, um visual de referência direta. Em determinado momento, comentam como os homens são pequenos, que eles vão acabar percebendo isso ao se depararem com as metamorfoses sobrenaturais. E aparece bem explicitamente um Buda inclinado, com alguns assistentes, observando tudo.

Em outro momento do filme, um dos anciãos de longe junta alguns guaxinins que não conseguem se transformar e passam apenas a rezar, e claramente fazem uma oração que é famosa no Japão, de uma das escolas budistas mais populares, rezando para o Buda Amitaba (Amida Nyorai) – que inclusive também dá as caras na parada das criaturas fantásticas.

A tal parada praticamente acaba quando um dos velhinhos acaba morrendo, e vemos um Buda e seus assistentes levando sua alma.

Junto com essas e outras aparições – acredito que tenha mais, só não estou recordando agora – poderíamos pensar que os criadores são budistas, não? Mas no filme também temos representações xintoístas e eu diria que é uma mistura mesmo de várias crenças que existem para o povo japonês. O próprio fato das raposas e dos guaxinins se transformarem faz parte dessas crenças. Embora o budismo seja muito difundido no Japão, há várias ramificações, escolas e ordens diferentes. Inclusive, integram elementos do xintoísmo e outros da tradição japonesa.

Acho que uma reflexão que fica pelo lado budista é exatamente essa da lei da natureza, que tudo se transforma, e podemos passar por guerras, nos separar de entes queridos, termos que enfrentar a morte, e não adianta acreditar que só rezar vai adiantar. A prece envolve essa consciência e precisa vir acompanhada de ações e esforços.

O conto da princesa Kaguya

Kaguyahimeno monogatari / 2013 ****

Historinha: um cortador de bambu encontra e tenta criar uma princesa.

:D – o clima agradável que traços simples podem criar dentro da gente, quando a infância parece tão simples e suave. Em contraste aos traços bruscos, fortes e raivosos de um momento de ira.
– a musicalidade do cortejo de Buda (?).
– como essa primeira impressão de felicidade justifica a tristeza da princesa a ponto de recriar num jardim, ou ter um sonho voando com alguém que não lhe trouxe joias, apenas cuidado e amor.
– as cores e luzes claras da natureza em contraponto aos quartos escuros e sombras, regras veladas da nobreza.
– os quimonos com desenhos de flores de bambu, o dançar com as flores de cerejeira, a árvore de joias: animação também tem departamento de arte.
– Isao Takahata fazendo a gente chorar mesmo nessa idade.
– as tradições japonesas milenares organicamente presentes: como fazer tigelas de arroz, um pouco da nobreza rígida de um Japão feudal, pergaminhos que contam histórias, canções antigas.
O conto da princesa Kaguya foi indicado ao Oscar de melhor animação. E se Hollywood não fosse Hollywood, ganharia e ainda também o de melhor canção.