Temos que falar (dos inesperados méritos) de Soul

Venho enrolando para escrever este post desde o início do ano, foi um dos primeiros que vi neste ano e gosto de começar meu ano com essa espécie de tradição de ano novo, começando o ano com um filme bom sinto que o ano todo será bom.

Pra dizer a verdade, eu não dava muita coisa pra esse filme quando vi o trailer, sendo bem preconceituosa mesmo: “ah tá, eles precisam fazer um filme com personagens negros por causa dessa onda de necessidade de representatividade, daí pegaram o estilo musical para dar uma roupagem mais estilosa brincando com o próprio tema de almas, pós-vida em que inevitavelmente reconhecem que temos que aproveitar a vida…”

Claro que, de certo modo, eu não estava totalmente errada nessa rotulação, mas Soul (2020) *** me pegou de calças curtas. Eu me peguei inesperadamente abraçando a tela da TV (não literalmente, mas acho que entenderam) com aquela lágrima furtiva, por um toque bem simples – nem vou chamar de ponto de virada, ou deveria? – no ápice, finalzinho de tudo.

(!) Relembrando que este blog não acredita em spoilers! Uma coisa é saber o que vai acontecer, outra é acompanhar a trajetória dos personagens embalados por boa música e incitação das sensações, deixando-se arrebatar afinal, por mais surpreendente que isso possa parecer.

Aqui também aproveito para deixar o adendo: existem milhares de críticas e textos sobre filmes por aí afora, a diferença é sempre porque cada um tem uma experiência e, portanto, olhar e referências únicos. Talvez eu devesse enfatizar mais isso por aqui o fato de eu gostar ou não de um filme acaba sempre dependendo muito da minha própria vivência (* = não gostei; ** = gostei; *** = gostei muito!).

Pois bem, o personagem principal de Soul é um professor que durante toda a vida lutou por um sonho, ser um bem sucedido músico de jazz. Acontece que a vida foi passando e finalmente quando ele acha que vai conseguir realizar, tem sua grande chance… ele morre. Geralmente eu gosto das questões metafísicas, mas é interessante que não quiseram mostrar o que acontece após a morte, e sim imaginar um possível universo antes da vida. Só aí já temos uma boa sacada, com uma alma milenar que ainda não encontrou um propósito, ou digamos, a chama, a faísca, aquela vontade de viver.

Daí, para que o professor Joe (voz de Jamie Foxx, que, não acho ser por acaso, também tem no currículo a encarnação impecável do Ray Charles) consiga voltar e realizar sua parada, com direito a troca de alma num gato, ajuda de um navegador psicodélico que resgata almas perdidas, incentivo a uma jovem com todo o potencial e talento pela frente que só precisa de um apoio moral, uma conversa significativa no barbeiro que não exatamente seguiu sua vocação inicial, mas gosta do que faz; ele e alma 22 (voz da Tina Fey) se desventuram com boas risadas principalmente devido às descobertas do mundo por 22. E Joe finalmente consegue realizar seu sonho.

Eis que… surge aquele sentimento… então? Era isso? E agora?

A lição de moral é desfrutarmos dos pequenos momentos da vida, aproveitar o caminho e não nos preocuparmos tanto com o nosso destino final. Mas o que mais me emociona em Soul é essa diferença de discurso: não, você não precisa fazer de tudo e realizar um grande sonho para ter sucesso e ser feliz. Porque estamos tão acostumados a ver esse discurso em tantos filmes e outros meios, não? A gente tem que bater metas, a gente tem que se superar, tem que lutar, mas no final vai valer a pena, se não for assim, seremos perdedores. E então? Seremos mesmo? Óbvio que não. A vida não se trata somente de realizar grandes feitos. E as milhares de pessoas que também estão vivas, mas não acharam cura para doença nenhuma, nem ficaram marcadas na história?

Aliás, é engraçado como vários personagens famosos, dos mais diferentes campos de conhecimento da humanidade, já foram tutores de 22, mas o que ela precisava era mesmo de um “zé ninguém” (“average joe”) pra sentir a vida de verdade, como a vida pode ser muito maior do que ela poderia imaginar.

Eu digo isso com toda a alegria do meu coração, porque me identifiquei demais com Joe. Sempre tive grandes sonhos (fazer cinema, roteiro, direção, edição, ganhar Oscar, casar com o DiCaprio), mas a vida não funcionou, apenas assim – e tudo bem. Tudo bem porque a cada passo do caminho eu procurei aproveitar cada momento dando seu valor e da melhor forma que consegui. E será que se eu realmente conseguisse um Oscar aos 18 anos eu teria dado valor? E será que mesmo se eu conseguisse há poucos anos fazer um filme com o Spielberg eu não diria o mesmo, não teria o mesmo sentimento que Joe – e agora? Era só isso?

Sim, já tive muitos arrependimentos, sofrências e a sensação de que minha vida foi perdida, em vão. E por isso, ouso dizer que este filme é para um público mais velho. Bem, as crianças podem assistir, elas vão se divertir também, mas talvez seja ainda melhor rever depois dos 30, 40, 50, 60 anos…

Toda essa jornada nós acompanhamos em tela com a habitual excelência técnica da Pixar, o que torna tudo mais aprazível. Em mínimos detalhes eles conseguem divertir e serem criativos sempre, eu poderia ter feito um post com as “coisinhas divertidas para se notar em Soul“, mas este post tinha que sair um pouco mais especial. Foi como um presente imprevisível, inesperado, que aceitei de muito bom grado – e merece sim, apesar de ser barbada, os prêmios de melhor animação e trilha sonora que deverá ganhar no Oscar deste ano. Por falar nisso, vocês também já ficaram imaginando, como eu, que a Pixar deve ser uma fábrica de formação de mentes criativas? Pois é realmente um trabalho incrível, seja no visual, nas concepções, no roteiro, na direção dos atores, no som, nas piadas internas. A gente fica até um pouco decepcionado quando vemos algumas falhinhas, ou não entregam algo tão excepcional, não? O que deveria ser normal, mas como é Pixar, a gente se decepciona um pouco – como em Onward, mas sobre os outros longas de animação indicados eu deixo pra comentar em outro momento.

Nas minhas imaginações, eu também já estive com John Lasseter numa sessão de criadores assistindo a um dos filmes do Hayao Miyazaki…

“Julia Child só fez sucesso aos 49!” – eu poderia, sim, morrer hoje (mais sobre isso nos comentários de Nomadland, a vir). Mas… quem sabe eu ainda não tenha uma chance de fazer algo? Afinal, continuamos vivos. Apesar da covid.

Repensando um trabalho audiovisual

Nem dá pra acreditar que já faz cinco anos que acabei largando aquela graduação em audiovisual. Esses dias eu estava de TPM, só pra contribuir com o que chamam de inferno astral, e repensando por que tanta exasperação na minha vida. Tipo, e se eu soubesse que nunca faria filmes, nem ganharia Oscar nenhum, que talvez eu simplesmente tivesse que me conformar que o cinema não é pra mim mesmo, como tantas frustrações já me demonstraram e eu nem quis ver (a última, um concurso para a canção Here comes the sun, mas eu nem fiquei pra baixo, não esperava nada mesmo, só foi divertido imaginar um clipe para essa que é uma das minhas favoritas dos The Beatles). Talvez, se eu pudesse voltar em algum momento do passado, eu diria “calma aí com o andor, que nem precisa de tudo isso não”. Eu acho que escolheria o ano de 2003, pra não fazer outro ano de cursinho para tentar vestibular para o curso de audiovisual na USP, e escolher fazer o curso de teatro e ir trabalhar com dublagem – o que imagino que seria um trabalho que eu realmente gostaria de fazer, e teria escolhido fazer o curso de Letras em japonês, não tendo que pagar a faculdade e aprendendo um idioma que, sozinha, não consigo mesmo aprender, para poder trabalhar com traduções nessa área. E não me exasperaria para ter aquela vida dos sonhos hollywoodianos, simplesmente me contentaria com isso mesmo, por que mais?

Sabe, eu não me arrependo de ter largado a facu de audiovisual, porque sei que não ia conseguir aproveitar bem mesmo, e não dava pra desistir do emprego, porque daí não daria pra pagar o curso, enfim. Mas lembrei de um dos primeiros trabalhos que um dos professores pediu pra gente, fazer um vídeo curto mostrando quem você é. Dia desses eu estava flertando com a ideia de fazer vídeos para postar no YouTube, e daí lembrei. Na época, fiz algo que a maior parte dos outros alunos tinha feito, mostrando coisas que eu gostava, no meu quarto, que pra mim também significavam momentos da minha vida.

Mas se eu fosse refazer esse trabalho, acho que pensaria diferente. Talvez abriria com um close numa tela de computador como se estivesse sendo escrito um roteiro.

INT. ESTÚDIO DE PROGRAMA DE ENTREVISTAS – DIA –

E então eu mesma apareceria, imaginando estar sendo entrevistada, “Tá brincando, né, me definir em uma palavra?” Porque não existe só uma palavra que possa definir a gente, não é mesmo?

Entraria então um cantarolar “You may say I’m dreamer, but I’m not the only one” – sim, essa famosa Imagine do John Lennon é uma das minhas canções prediletas, junto com What a wonderful world do Louis Armstrong, eu posso ser bem piegas assim. Ou, digamos, bem clichê. Mas me define bem: uma eterna sonhadora.

Talvez poderia aparecer eu abraçando minha gata, ou meditando ao lado de uma imagem de Buda, não muito mais do que isso.

Pensando bem… Mesmo depois de tantos anos acho que continuo sendo essa mesma pessoa (isso é triste?). Claro que a gente vai ganhando experiência com o tempo e tem que ceder em alguns pontos, claro que eu não imaginava a minha vida assim aos 38. Mas ainda choro com alguns filmes, ainda sou bem “na minha” – muito gente por aí entediada com tanto tempo em casa. Eu gosto, na verdade. Minha aflição maior é de não ter tempo pra fazer algumas coisas que eu gosto. No meu aniversário, por exemplo, eu só queria ver um filme, escrever e comer um pedaço de bolo de chocolate. Não consegui nenhum dos três. E pra “ajudar” eu ainda estava sofrendo com resfriado no dia anterior!

É que agora eu tenho que cuidar de uma outra pequena, né… Pra quem vê de fora, pode parecer algo simples, mas ela me toma o dia inteiro, e entre fazer os exercícios (inclusive de fisio), fazer e dar papinha, fazer e dar o leite, trocar fralda e dar atenção – não, ela ainda não fica sozinha brincando, se sente abandonada apenas com 5 minutos! – fico bem cansada no final do dia.

Tudo bem, eu já havia pensado anos atrás que não podia querer mais nada desta vida. Significa que eu estou de sobrevida, que deverá servir para me dedicar tão somente à essa nova vidinha que trouxemos a este mundo. Para que ela fique bem e seja capaz de aproveitar esta experiência terrena da melhor forma.

Então fica aqui meu post aniversário. Não pude sair por aí como em outros anos, e não foi só por causa da quarentena, não tentei coisas mirabolantes ou aproveitar ao máximo numa auto indulgência tirando o dia só pra mim e pra fazer só coisas que gosto. Mas tudo bem. Esta já não é a idade pra isso. Entro na minha era de sobrevida, algumas coisas a gente tem que deixar, se desapegar, pra cuidar de outras que também importam muito.

Ainda sonho? Claro que sim. Ainda acredito que cada um pode fazer sua parte para vivermos num mundo bom. E gostaria de compartilhar coisas boas, contribuindo para expandir a positividade nesse sentido de um mundo melhor. Mas calma aí nesse andor, tenho consciência de que a gente acaba fazendo o que dá, né. E tudo bem.

2017 – 0 Oscar mais triste da minha vida

Temporada de prêmios passando, Oscar taí e cadê aqueles posts de maratona? Pois é, minha gente, depois que o DiCaprio ganhou o dele, Oscar perdeu a graça.

Mas… Claro que parti na “missão”, tentando ver pelo menos todos os indicados a melhor filme – e gente, que tristeza. Digo, literalmente. Não me lembro de chorar em tantos filmes assim pro Oscar nos outros anos, vai ver eu tô realmente ficando muito velha e sentimental.

Vejamos, até o mais animadinho, o velho oeste moderno A qualquer custo, com a personalidade locona que cai como luva em Ben Foster, as farpas irônicas entre o policial que tá pra se aposentar e seu parceiro índio de longa data, os roubos, a garçonete, a perseguição, tem como mote central por trás de todo o estratagema a crise financeira, a exploração de grandes bancos, e tem que morrer uns por ali no meio, a vida é injusta e a gente garante o nosso né. Meio triste.

 

Foi indicado a melhor filme, roteiro original (gosto muito, os diálogos, lembra da senhora explicando as opções do menu?; os personagens, a crítica de quem rouba quem), ator coadjuvante (não sei vocês, mas sempre adoro o Jeff Bridges) e montagem (caçadas e bangue-bangue sempre exigem boas montagens, além da gente ir descobrindo o plano todo).

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A chegada trata de uma intérprete que vai tentar desvendar uma comunicação com aliens misteriosos, não parece uma história que vai te fazer chorar. Adorei como criaram o sistema avançado de linguagem dos aliens, trabalho de linguista mesmo, lembrei dos anos de faculdade em Letras. Mas daí vem uns flashbacks, *cough, flashforwards, e de repente você se dá conta do peso das escolhas, mesmo sabendo de todo seu passado e todo seu futuro, amar uma pessoa sabendo de sua perda… Ah, a condição humana.

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Indicado a melhor filme, direção (sabe que nosso olhar e sentidos são conduzidos e eu gostei?), roteiro adaptado (concentrado em pontos contundentes), fotografia (eu gosto da fumaça e como os aliens escrevem), montagem (trabalhão! pedacinhos de informação pra revelações finais e sentimentos de falta de ar), mixagem de som, edição de som, desenho de produção.

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Não está entre os indicados a melhor filme, mas vamos dar uma palavrinha sobre Capitão Fantástico? O pai que sempre procurou o melhor para seus filhos, mesmo isso significando uma “sociedade alternativa”, além de deparar-se com a perda da esposa, tem que confrontar seus próprios ideais diante de acontecimentos reais. Sei que Viggo Mortensen não leva a estatueta, mas um trabalho esmerado, que tem tudo a ver com ele mesmo, meu voto é dele. Chorei – que dor ter que abrir mão de tudo que se acreditou até então.

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Já um ator respeitado por todo mundo, que também entra na direção, e tem fortes chances este ano novamente é o Denzel Washington. Esse nos leva pra um filme carregado nas atuações, Fences (e como não pude ver no cinema antes da premiação, ignoro seu título em português). Tudo bem, nesse eu não chorei, achei até meio chato, que bom que não terei que pagar ingresso por ele. Ê velho lixeiro amargurado, cheio de histórias pra contar, lutando contra a morte e o diabo, com um irmão com placa de metal na cabeça; mais coitada ainda da mulher que tem que aguentar até bebê de outra a essa altura do campeonato, e o filho que só queria jogar futebol. Triste.

Indicado a melhor filme, ator (papel forte, mas ele nem precisa de mais prêmio), atriz coadjuvante (Viola Davis, ela já teve momentos melhores, mas acho que este é seu ano no Oscar), roteiro adaptado (histórias de passados doloridos, na tela não comoveu tanto).

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Lion, sim, me fez chorar (e odeio chorar quando sei que o filme é feito pra chorar), apesar da grande propaganda do Google Earth. Tem a Nicole Kidman mãezona que adota filhos e sofre com cada um perdido à sua maneira. Não tem como, gente, depois de passarmos junto com o menininho sozinho as andanças pela Índia, orfanato, chega aquela cena da banheira… E eu não gosto tanto da parte do tormento com a namoradinha, mas como não deixar a lágrima sair no reencontro com a mãe biológica depois de tudo aquilo?!

Foi indicado a melhor filme, roteiro adaptado (saber que existiu um menino assim na vida real é o que emociona), trilha sonora, ator coadjuvante (Dev Patel não está mal, mas nada excepcional), atriz coadjuvante (competente).

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Agora, o que me doeu a alma mesmo foi a cena daquele encontro furtivo na esquina com a moça do carrinho de bebê em Manchester à Beira Mar. A gente nem lembra mais do diálogo, mas o sentimento contido ali é profundo. Aliás, eu gostei muito mais do filme do que achei que ia gostar, um dos melhores trabalhos de direção e cenas que fazem sentido estarem ali, todas. E a montagem ajuda hein. O zelador que tem que cuidar do sobrinho após a morte do irmão, e no processo reabrir suas feridas enterradas, queimadas. A pesca com o menino, a rotina de trabalho (como adolescentes, perguntamos a mesma coisa, não pode largar isso?, pra depois entender que não dá mais pra trabalhar naquela cidade), ver a vida do sobrinho, a comida que queima, a caminhada na estrada, o susto de ele pegar aquela arma.

Indicado a melhor filme, direção (um diretor que sabe respeitar tempos, permite que seus atores sejam competentes), roteiro original, ator (os irmãos Affleck fazem mais sucesso nos tipos caladões mesmo), ator coadjuvante (Lucas Hedges bem, sem exageros), atriz coadjuvante (Michelle Williams sofredora de sempre).

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Outro que chorei embora fosse claro que foi feito pra isso? Até o último homem. É, conhecendo um pouco de Mel Gibson, poderíamos esperar grandiloquência; ó, o herói americano; ó, o homem de fé! Tinha que ter luta e guerra, o Andrew Garfield é engraçadinho e fácil de a gente gostar; a namorada é um doce, e mais do que a parte do treinamento militar o que pega a gente mesmo é o campo de batalha, é aquele esforço enorme pra sobreviver e salvar. E além de tudo isso, ali pelo meio, tem aquele pai… um bêbado desacreditado que, apesar de tudo, ainda fará o que pode para ajudar o filho. É nessa superação de si mesmo como ser humano que o filme ganha mais valor.

Indicado a melhor filme, direção (um pouco mais clássica aqui, né? Mas tá valendo), montagem, ator, efeitos sonoros, mixagem de som.

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Um que foi mais divertido de acompanhar foi Estrelas além do tempo. Que coisa primorosa poder conhecer as vidas dessas três mulheres que eu nem sabia que existiram! Só por serem tão boas em matemática eu já as admiro (sério, aquilo seria impossível pra mim), mas se desafiaram a algo a mais e seja pleiteando uma vaga pra engenharia, seja se antecipando ao progresso dos “computadores”, ou atrevendo-se a mostrar suas habilidades, enfrentaram aquele ambiente intimidador tendo uma visão maior. Este filme sim dá um pouco de gás na gente, a gente torce por elas e fica feliz pelas suas conquistas. O triste aqui é só saber que realmente existiu uma época em que os banheiros eram separados por cor, constatando como às vezes a humanidade pode ser estupidamente contra ela mesma.

Indicado a melhor filme, roteiro adaptado (interessante e divertido!), atriz coadjuvante (Octavia Spencer é boa atriz, ganha logo nossa estima, mas não uma atuação que vai ficar na memória).

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Aliás, engraçado como tem dois atores (Janelle Monáe e Mahershala Ali) em Estrelas além do tempo que estão no outro indicado que seria uma resposta #oscarsowhite – Moonlight: sob a luz do luar. Nós vemos três fases de uma vida: Little, Chiron e Black, o menino importunado pelos colegas que encontra uma figura masculina para admirar, vira adolescente que ainda sofre bullying e acaba não aguentando mais, cresce para se tornar forte como o tal cara das drogas, mas sem esquecer uma noite na praia. É triste ver a mãe drogada e sabermos mesmo sem ele dizer que ele não sabe ainda bem quem é, só queríamos um pouco mais de afeto nesta vida, menos preconceito e violência…

Foi indicado a melhor filme, roteiro adaptado, direção (boa; o menino aprendendo a nadar, a disposição de corpos, o reencontro ao final), fotografia (queria ter visto a pele deles quase azul sob a luz da lua!), montagem, trilha sonora (eles misturam uns momentos clássicos ali, não sei se funcionou pra mim), ator coadjuvante e atriz coadjuvante (Naomi Harris).

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Ufa! E falando de filmes felizes, eu deixo para o final deste post aquele que eu achava que seria o único filme que me deixaria contente e com um sorriso no rosto após sair da sessão. La la land: cantando estações. O musical de cores vibrantes, com sequências lindas de danças românticas e sonhos que se realizam! Só que… Não foi bem assim. Na verdade, foi o filme que me deixou mais triste e até pensei em escrever um post desabafo só pra ele, mas por questões de tempo, vamos deixar isso por aqui. E aquela melodia melancólica que achei que não ia grudar, ficou na cabeça. Eu vi a mim mesma jovenzinha na pele da personagem de Emma Stone, com sonhos de Hollywood e frustrada com a realidade. Só que eu sou uma daquelas pessoas que ela menciona quando o personagem de Ryan Gosling vai buscá-la na casa dos pais, para quem os sonhos não se realizam, só mais alguém que teve que achar outra coisa pra fazer da vida. Claro, é engraçado ele tocar numa banda temática dos anos 80, eu adoro ele explicando com entusiasmo sobre jazz, porque aquilo é sua paixão, é bonito ver eles sapateando após “contemplar” uma paisagem, gosto do passeio no planetário, achei lindíssima a dança com estrelas espelhadas por água no chão. Mas também tem o lado da realidade, as pessoas e os sonhos mudam, e foi tristíssimo a sequência final, quando ele toca toda a história deles e em determinado ponto, inclui como tudo deveria ter sido, como gostaríamos que a vida tivesse tocado. E quem nunca teve um momento assim? Em que a gente para pra tocar uma outra versão nas nossas mentes, por mais sucesso que possamos ter alcançado…

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Indicado a melhor filme, direção, roteiro original, fotografia, desenho de produção, figurinos, trilha sonora, canção original – 2 indicações: “Audition (The fools who dream)” e “City of Stars”, efeitos sonoros, mixagem de som, melhor ator e melhor atriz.

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Ah, como eu queria ter feito cinema, há muito tempo atrás, quando ainda era jovem… E o Leo nem era tão rico e famoso, a gente podia ter se casado. Ah, como eu queria continuar a viver na minha L.A. imaginária, em que eu realizo o sonho de fazer filmes, fico milionária e tenho o amor da vida, posso ajudar o mundo a ser um lugar mais feliz, tudo é colorido e brilhante.

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Mas o Leo já ganhou o Oscar dele. Eu não tenho mais pelo quê torcer. O sonho acabou e vou ter que aprender a tocar outra música. Por isso lhes digo… este é o Oscar mais triste da minha vida.

Caderno de sonhos: um filme na praia

Começara há alguns meses. Já ouvira que sonhamos todos os dias (as noites), apenas esquecemos que sonhamos. E sempre tivera sido assim, mas há alguns meses passou a ter sonhos intensos, daqueles com muitos acontecimentos, como se dias ou semanas ou meses passassem em uma noite só, sonhos vívidos, talvez mais vivos do que a própria vida. Ainda assim, passado algum tempo, já não conseguia lembrar.

Lembrou de David Lynch. Não de seu “Veludo Azul” ou “O homem elefante”, mas de seu “Mulholland Drive”. Como ele transferira tão bem para a tela de cinema o ato de sonhar. Pois se havia partes do sonho em que não gostaria de acordar mais, de tão boa a sensação, que não lhe acontecia na vida real, também havia a estranheza de bizarrices que inesperadamente surgiam. E acordava, “então era só um sonho? É claro que era só um sonho”. Saindo do filme, desculpe, do sonho, com aquela sensação estranha.

É hábito de muitas pessoas manterem um caderno de sonhos, para que assim que acordam, antes que o consciente possa levar embora a catarse do inconsciente, poderem ter um registro. E talvez, analisando-o, possam depreender algo que precisam perceber?

* * *

O primeiro registro no caderno de sonhos

EXT. PRAIA – NOITE – (como será que Kurosawa registrava seus sonhos?) Bem, lá estava o francês. O francês de seus sonhos. Vinham de alguma sessão de cinema? De algum festival? Caminhavam. Em direção à praia. Bebiam. Ou melhor, cambaleavam. Amigos boêmios! Exatamente como aquelas cenas de alguns amigos perdidos na noite, lembrou Claire Denis, um pouco. Sim, não eram só os dois, mas não havia outros rostos com nomes. Conversavam de algo? Sem importância. Davam risada. Era bom estar ali.

Corta para: uma mesa na praia, com um balde de gelo e duas garrafas de champanhe. Duas cadeiras. Seria uma celebração só para dois? Mas ela também estava ali. Não sabia se o outro amigo se incomodava. Sim, o francês a convidara. Era um recanto na areia. Beberiam ali? O sol amanheceria? Teria algum conflito pela sua noiva. Um rapaz de barba e camiseta com a face decepcionada, como se ela tivesse feito algo de errado. Mas o quê? Como se todos os amigos de curso a condenassem. Por quê? (não se lembrava)

Como Nolan registra seus sonhos? Talvez com uma luz ofuscante. Como Kurosawa registrava seus sonhos? Ah, é verdade, ele os pintava. Ele os amava? Creio que lhes intrigava.

Queria, sim, ficar ali naquela praia. Jogando conversa fora, dando risada. O inconsciente lhe dá o que o consciente lhe nega, embora seja melhor esquecer. Mas só por um ou dois minutos, fica ali deitada, em silêncio, na estranheza do acordar.