A ganha-pão

(The breadwinner / 2017)***

Com a recente volta ao poder do Talibã no Afeganistão, eu achei mais do que apropriado registrar por aqui algum comentário sobre este filme, um dos poucos que vi sobre o assunto, mas que apesar de ser uma animação, mostra muito bem como era a vida para uma mulher sob esse regime fundamentalista. É realmente muito triste pensar que todos os avanços e progresso nos direitos humanos conquistados em relação principalmente às mulheres do país (quem aí não lembrou logo da Malala?) possam entrar em retrocesso, como um passo atrás para a humanidade. Aliás, que tempos são estes, não é mesmo? Que além de uma pandemia global tenhamos que enfrentar outros tipos de “sombras”, mais uma vez, em nossa história.

Eu sou descaradamente uma criatura da prole formada por animações de princesas Disney, então não consigo ver nada além de acertos neste filme, que talvez só tenha ganhado os holofotes pela “sorte” de ser uma produção apoiada por alguém de Hollywood (a produtora é da Angelina Jolie). E confesso que se não fosse uma indicação ao Oscar talvez eu nem tivesse ficado sabendo da existência. A diretora é irlandesa, mas capta e retransmite ao público perfeitamente essa realidade específica. Fiquei me imaginando com 12 anos conhecendo a história dessa protagonista jovem, admirando-a como uma das princesas heroínas (não menos valente que nenhuma dos grandes estúdios).

A trama da narrativa principal poderia ser clichê – uma menina se passa por menino para poder ajudar a família – se não fosse tão importante existir esse registro, lúdico e ao mesmo tempo de denúncia, que serve a qualquer público, desde a mais jovem consciência como um ser humano existindo de direitos e responsabilidades.

E o modo como a desenvolvem, com os respiros de entusiasmo de qualquer espírito jovem que ainda sustém esperanças e sonhos, pontuados pelos eventuais medos e perigos das diversas situações em que se encontra a personagem principal, na luta para salvar seu pai e sua família, tem um ritmo que não cansa, uma coordenação que emociona sem ser melodramática.

Até a narrativa paralela em forma de fábula, contada pela menina Parvana, acompanha bem esse ritmo com elementos da “vida real” dela e um destemor crescente na reta final. Os personagens nos cativam, Parvana é uma menina comum, que tem preguiça de ir buscar água, que questiona o pai a princípio sobre a relevância de se contar histórias, ou sobre a venda de um vestido. A irmã tendo que se casar como “solução” para a situação da família, quando o suposto marido vem de supetão buscar todos já nos deixa temendo pelo futuro deles. O pequeno irmão que gosta da história por causa do elefante, como todas as crianças, sempre nos encantam e são um alívio para as durezas enfrentadas. A mãe, forte da maneira que lhe é possível.

E não sentimos “dó” gratuitamente, o filme é esperto no dinamismo da violência velada enfrentada – até pelo teor da produção, não se poderia mostrar graficamente um assalto à mãe, mas vale, por exemplo, quando o pai é solicitado a se levantar para conversar com os opressores, com o plano revelando sua deficiência física. Tem momentos em que não é preciso escancarar, nós entendemos bem o que está acontecendo. Até para os coadjuvantes há cenas bonitas e tocantes, como do senhor cuja carta lida revela a morte da esposa. A amiga Shauzia também tem seus bons momentos, mostrando o caminho dos doces e apoiando até o final.

Na parte técnica, os traços e paleta de cores são agradáveis, e gosto que inclusive a animação da parte da fábula combine com a da trama principal. Louvável que os dubladores basicamente sejam todos afegãos, e o detalhe das partes escritas que Parvana consegue ler serem no idioma local, não legíveis para a maioria de nós.

Acabei com a sensação de ter conhecido um outro tipo de vida, bem distante da minha realidade, mas torcendo para que não passe de mais um grandioso erro dentro da história das sociedades humanas. Será que ainda vamos ter que errar muito para compreender o quão grave são esses erros cometidos?

E o que isso tem a ver com budismo?

Eu nem vou comentar com vocês que até imagens búdicas foram destruídas em investidas talibãs de extrema intolerância religiosa ou cultural. O que mais ressoa para mim, na história de Parvana e do pai, é o que Buda sempre pregou: o respeito ao próximo. Por quê, em nossa história, sempre houveram pessoas consideradas piores, inferiores? E daí surgem os grupos explorados, ou que não tem os mesmos direitos. Se nós conseguíssemos considerar o outro sempre, seus sentimentos, talvez deixaríamos de cometer muitas atrocidades. Se considerássemos que cada um tem um potencial para ser um Buda, tem o seu valor. Fora isso, também existe o lado da ação. Parvana fez o que pôde, dentro de suas possibilidades. Muitos podem pensar que o budismo é só teoria abstrata, filosofia, mas existem vários pontos que podem e devem ser colocados em prática. Apesar de boas intenções, é preciso agir também, dentro do que for possível. Talvez não possamos salvar o mundo inteiro de uma vez, mas só de ajudar pessoas próximas, como Parvana fez tudo por sua família – desde contar histórias para o pequeno, estimular a imaginação com a amiga, fazer o favor de ir buscar água para a irmã embora houvesse algo desagradável ou até perigoso envolvido – são ações, e por mais que pareçam pequenas, ao considerar o outro geramos o bem ao nosso redor, o que nos faz bem também.

Luca

(2021) ***

As Olimpíadas de Tóquio 2020 acabaram com um marco histórico de medalhas para o Brasil e representação feminina ganhadora e inédita. Achei nada mais justo e apropriado, vendo a fadinha Rayssa Leal lá no pódio com seus 13 aninhos, dedicar um post para este filme da Disney. Aliás, foi a única prova de final valendo medalha que consegui acompanhar. E afinal, uma das coisas que faz os principais personagens mirins deste longa animado interagirem é o esporte, uma competição tradicional desta ilha na Itália.

Antes, porém, de comentar como achei divertido o povo aquático transmutado e descobrindo a vida na terra firme, preciso comentar da questão LGBTQIA+… teve gente falando que este era uma versão infantil para o filme “Me chame pelo seu nome” (2017)***, porque também se dá num verão na Itália com descobertas e talz, mâs… euzinha, honestamente, não vi a homossexualidade na relação dos amigos não. Aliás, ouso dizer que tô começando a ficar irritada que tudo agora tem que ter algo a ver com as minorias – seja homossexuais, negros, empoderamento feminino… Sim, a representação é importante, quanto tempo se passou sem que a maioria branca hétero pudesse respeitar o “diferente”, entendo os movimentos. Mas tô ficando cheia de que em TUDO o pessoal tá querendo ver isso – me julguem, eu sou sincera e nem tenho tantos leitores assim. Lá com Frozen também, não vi nada além de uma mulher que só queria ser ela mesma, não vi nada de gay ou qualquer outra coisa. E aqui também. Aliás, se eles não tem interesse romântico também poderiam ser assexuais, não? Mas, novamente, nem acredito nisso. Só acredito que naquele momento esses personagens têm uma trajetória que não inclui o lado romântico amoroso sexual – e acho isso ótimo. Porque a vida não é feita só disso não, viu.

Historinha: um menino peixe faz amizades inusitadas, descobrindo possibilidades de vida maiores.

:D Como em todos os filmes Disney/Pixar, nem temos o que falar do visual e da técnica, que nunca deixam a desejar. A aparência no fundo do mar e na transformação dos personagens quando estão em terra acerta em cheio – e aqueles cachinhos do Luca? E o jeitão das “mamas” italianas? Inclusive, na dinâmica de “perigo” de serem descobertos alternando a água, e por isso, apesar de serem os melhores nadadores, a parte da natação ter que ficar com a menina da terra, Giulia. Engraçado também como o personagem do pai da Giulia se parece muito com o pai do curta A lua (La luna/2011), que é do mesmo diretor, Enrico Casarosa. Mas claro que as referências que mais gostei foram as das animações do Ghibli, o nome da cidade fazendo alusão à Porco Rosso (1992) *** foi a mais óbvia, mas e aquele gato gordo, gentem? Ainda, no início da animação eu meio que pensei “é uma nova versão de A Pequena Sereia (1989) ***, né não?” Muito parecido, a fascinação que a Ariel tinha com o povo da terra, colecionando objetos, ter que se esforçar conhecendo o mundo dos humanos.

Porém, aqui entra a graça desta história. É sobre e para crianças, ou jovens impetuosos que tem um mundo inteiro para conhecer à sua frente e em seu futuro. O roteiro mostra bem essa energia juvenil das invencionices – aqueles testes com a bicicleta! Achar que tendo uma Vespa eles poderiam ganhar o mundo; enquanto brincam, apesar de saber que tem que ir pra casa, querer ficar mais um pouquinho… Ou mesmo a Giulia, finalmente podendo fazer parte de uma equipe para vencer o chatão do bairro. E se eu reclamei que tô ficando chateada com tanto escancaramento da defesa das minorias, este roteiro aqui é esperto o suficiente para nos brindar com momentos engraçados, tocantes e lidar com o tema na forma fantasiosa do povo do mar ser caçado como monstro, para então ser descoberto e todos verem que é possível conviver. Palmas, até para os créditos finais que dão indícios de como se deu o futuro desses amigos, desses “diferentes”, convivendo.

Queremos provar o Trenette al pesto (salivando!), o tio do Luca das profundezas nos lembra um peixe que existe na realidade, e nem sentimos dó do pai da Giulia por ele não ter um braço – olha que beleza de direção de arte. Sim, temos som que valoriza o mar, temos sons de crianças numa cidade de porto italiana, não temos canção chata, temos fotografia com luzes, cores e tons acertados aos seus momentos, temos filme antigo do Mastroianni como easter egg. Nos emocionamos com a ação da competição e quando Luca na bicicleta é descoberto por toda a cidade, edição efiz. Vamos às lágrimas na despedida na estação de trem. Tá bom demais pra um entretenimento despretensioso, não tá não? Mesmo achando que aquela sequência de devaneio na Vespa tomou tempo demais, tem muito mais pontos positivos do que negativos nesta aventura.

E o que isso tem a ver com budismo?

Creio que muitos hão de concordar que uma das falas marcantes do longa foi quando o personagem de Alberto diz: “vai ficar tudo bem, você já me tirou daquela ilha”. O menino, primeira amizade de Luca acima da superfície, esperava pelo pai há muito tempo, isolado numa ilha, achando que sabia de tudo do mundo na terra. Às vezes a pessoa mesmo não percebe que está se deixando ficar pra baixo, ou presa a algo que não é bom, ou se conformar que ela não pode mais. E às vezes é necessário ter um amigo, uma companhia, alguém para apoiar e estar ao lado na aventura, na caminhada. Para aprender junto talvez, descobrir coisas novas, perceber outras coisas. É maravilhoso quando Luca descobre com Giulia sobre as estrelas e o espaço, que ele tenha vontade de alçar voos maiores e ir para a escola! Às vezes nós precisamos de uma mão amiga para podermos dar outros passos.

Na ordem budista que sigo, sempre é enfatizado muito sobre compartilhar os ensinamentos. Isso não serve apenas para angariar mais um fiel, converter mais um. É exatamente porque às vezes precisamos de alguém para estender a mão, para descobrirmos outro caminho. E muitas vezes nem percebemos que precisamos, até que descobrimos. Compartilhando experiências e conhecimentos, ajudamos outras pessoas, acreditamos no potencial delas para serem melhores ou levarem vidas melhores. E caminhando juntos, aprendemos muitas outras coisas mais. Por isso, o Buda considera a comunidade budista como uma das joias essenciais no budismo. É muito precioso ter amigos para seguir nas caminhadas que sejam, e talvez não tenha sido por acaso que você tenha cruzado com determinadas pessoas nesta vida.

Desabafo é cringe? (crush no Tom Hiddleston e um breve comentário sobre a abertura das Olimpíadas)

Senta que lá vem post longo!

Então, nos últimos tempos, nós vimos esse debate sobre o conflito das últimas gerações, Z x Millennials, e eu descobri que sou muito cringe. Tipo, café da manhã? É uma das refeições mais importantes do dia, minha gente, que é que é isso, não ter tempo pra café da manhã? Os emojis? Hmm, na verdade nunca gostei muito de “rs”, sempre usei hahaha, mas depois de descobrir as origens do quiaquiaquiá, incluindo ajuda do Donald para popularizar quaquaqua, me sinto justificada a usar o “kkk” agora. Boletos? Sim, lembro-me dos dias em que eu tinha que ir ao banco passar o código de barras lá; tudo bem, hoje temos inúmeras opções online, mas eles ainda existem e contas para pagar nós temos. Aliás, uma das coisas mais tristes foi descobrir que minha geração é a mais falida da história (xenti!), comparativamente, nossos pais em nossa idade já tinham imóvel e estabilidade financeira em seu nome. Realmente, eu sou um dos exemplares típicos que preferiu gastar com experiências do que com bens materiais (se bem que isso também envolve certas crenças religiosas aí), mas disso não me arrependo não; só pra citar alguns momentos que vão ficar na memória para confortar minha alma apesar de eu não ter um apartamento próprio: o passeio aos 14 por Los Angeles; uma viagem louca de ano novo para o Rio sem hotel para dormir; um evento inusitado em Taiwan cujas horas de voos demoraram muito mais que as reuniões em si; os dois meses que talvez sejam os melhores da minha vida em que trabalhei nos parques da Disney World em Orlando; tirar foto dançando tango no Caminito; comprar rede em Fortaleza; o treinamento num Chateau francês e dias seguintes flanando por Paris; as primeiras lanternas flutuantes minhas em NY; um passeio inusitadamente bom por Chicago à la Ferris Bueller e ao som dos Blue Brothers na cabeça; viagem de trem-bala por lugares do Japão que eu ainda não conhecia; um casamento em três partes que inclui muitas comidinhas em Belém do Pará; dias bons de camarões em Natal – só pra citar alguns destaques.

Bem, sei que estou ficando velha, disso eu sempre reclamo por aqui, e talvez seja cringe até o fato de postar num blog? Mas é parte da minha terapia pessoal, como eu também sempre digo. E vejam vocês, nem fazer isso direito eu consigo. Eu vinha postando uma vez por semana um texto de filme relacionando a algo budista, mas teve um acontecido aí que me desanimou um pouco, daí mais uma pausa ocorreu por aqui. Sei lá, sabe quando você se pega repensando algumas coisas da vida e fica com aquela sensação de “por quê?”; por que eu estou fazendo tal coisa, por que me esforçar ou me dedicar a tal coisa?

Dá vontade de se largar e se contentar (conformar?) com o mínimo que se pode querer da vida. Pra que fazer mais? Buscar outra coisa?

Nesses momentos de automelancolia, contavam com sua astúcia, não? Quem é que vem para me salvar, me confortar, me compreender na alma e me alegrar de novo? O cinema, é claro. Ou, pode ser também o mundo do audiovisual, música ou, neste meu caso atual, uma série (que deriva do cinema, então estou considerando). Já comentei alguma vez por aqui sobre a minha década perdida e talvez o universo cinematográfico Marvel também possa ser em parte incluído nisso aí. Sim, eu gostei do primeiro Homem-Aranha vivido pelo Tobey Macguire, e foi bem divertido o primeiro Homem de Ferro. Mas confesso a vocês que teve uma hora em que eu simplesmente tinha cansado dos filmes de super heróis. Tá, eu vi os filmes, Hulk era um dos meus favoritos apesar de não ser o mesmo ator dos filmes solos, quando Mark Ruffalo encarnou o smash verdão eu aprovei; não me importei tanto com o Capitão América, meio certinho demais pro meu gosto; Gavião Arqueiro e Viúva Negra figuravam meio que como coadjuvantes pra mim (e nem me empolguei muito com o filme solo da vingadora Natasha, pra mim esse deveria ter vindo bem antes); já os Guardiões da Galáxia eu realmente ri e ouvi inúmeras vezes a trilha sonora; Doutor Estranho foi bem legal, vai, com sua capa de vida própria; Homem-Formiga conta com o carisma do Paul Rudd, mas eu nem vi a continuação; Capitã Marvel não me conquistou exceto pelo gato que arranha Nick Fury; o novo Homem Aranha fez sentido como adolescente; Pantera Negra deu uma respirada renovada e adorei todo o conceito de Wakanda; e pra finalizar, eu também não me empolguei tanto com Thor, talvez o Ragnarok tenha sido o mais interessante, mas daí já tava tudo entrelaçado com Os Vingadores.

Isso tudo pra dizer que finalmente agora, neste ano, eu estou redescobrindo um pouco desse universo. Vi toda a série no Disney+ de Wanda Vision, e achei genial a sacada de cada episódio inicialmente simular uma representação de série de cada década diferente. Foi muito interessante, mas chegando ali pro final eu me desapontei um tiquinho só com a “evolução” do Visão e o carinha que fez Pietro numa versão anterior dos X-Men ter dado as caras só pra fazer uma graça extra. Aliás, além da nova heroína negra, uma participação especial que contou foi da Darcy, amiguinha da futura Thor… E, aproveitando o ensejo, senhoras e senhores, a série que salvou mesmo essa euzinha pequena do seu próprio torpor foi: Loki.

(!) Lembrando que este blog não acredita em spoilers. Mesmo que eu soubesse o que ia acontecer, eu teria visto todos os episódios e conferido a reação do Loki a cada passo ;)

Ai, vontade de rever todos os filmes do Thor, só pra conferir a evolução desse personagem. Creio que estou certa em dizer que nenhum outro vilão do MCU ganhou sua própria série, e pelo que pesquisei, nada dela existia nos quadrinhos (bem, algumas referências aqui e ali, mas não como ela vem nos sendo apresentada). Sim, a série veio a existir em grande parte pelo talento, carisma e trabalho dedicado do seu intérprete, Tom Hiddleston. Ele acabou ganhando os corações de um monte de gente, inclusive meu, pois é muito mais interessante acompanhar sua trajetória do que a de um herói, digamos, convencional – pois é, quem diria que eu, que na época do vestibular estudava o anti-herói Macunaíma, que me dava é raiva em vez de torcer por ele, iria acabar gostando tanto de anti-heróis. Daí descubro que Hiddleston gosta de Shakespeare (crush, crush!) e entrou nessa para trabalhar inicialmente com o Kenneth Branagh (diretor do primeiro Thor), que esse cara parece ser super gentil e elegante, sensato e boa praça, humilde apesar de toda a fama alcançada – e aquela aparição numa Comic Con, hein? Sem falar que ele é aquariano, signo que sempre admirei (talvez por ser tudo que eu não consigo ser?), aliás, nasceu um dia antes da data de aniversário do meu esposo. Quem sabe numa outra timeline nós teríamos nos encontrado? (crush, crush, crush!)

Claro que a série não se faz sozinha por ele, um roteiro bem trabalhado é essencial, mas digo que não foi pelos efeitos visuais e fotografia (que pra mim ficavam um pouco confusos e fora do tom até, sei lá, o que é que eu sei, não é?) que continuei vendo os episódios a cada semana. A química com o Mobius do Owen Wilson foi boa, a personagem de Sylvie me deixou contente, bem como ver o jacaré Loki. Desenho de produção também aprovado, apesar dos cenários grandiosos construídos que nem precisava talvez, o figurino da Sylvie, dos guardinhas da TVA, os props como o portal dos timepads funcionaram para esse universo.

É claro que em termos de roteiro, sempre fico com medinho dessas viagens no tempo, de que vai virar tudo uma confusão, quantas produções nós não já vimos eles c@garem tudo, né? Mas acho que era inevitável, sendo que eles pretendem trabalhar com a ideia de múltiplos universos. No geral, são as ficções científicas que tratam do tema, e eu sempre fui muito afeita a elas, portanto, acho bem justo eu ter me empolgado mais com esta série aqui do que as outras coisas que andam saindo por aí da Marvel. Sempre são histórias acompanhadas de questões filosóficas inerentes à humanidade, e foi ótimo o Loki quebrar a cara e ver como ele é tão pequeno. Às vezes a gente se acha tão importante e concentrados em determinada coisa que estamos fazendo, esquecemos que o universo é muito maior. Essa foi a característica que mais gostei, talvez, uma espécie de jornada de redenção, aceitar e ao mesmo tempo redescobrir a si mesmo. Na minha empolgação, fui lá conferir o Making Of (série Avante, no Disney +), com narração do próprio Tom Hiddleston. Recomendo se você gosta de ver essas curiosidades como eu, além de incluir uns pensamentos inspiradores…

“In life we all go through struggles, but we can’t do it alone. If we have people we can trust, it lightens the load and gladdens the heart” (Na vida, todos passamos por dificuldades, mas não podemos fazer isso sozinhos. Se temos pessoas em quem confiar, isso alivia o fardo e alegra o coração).

Talvez Loki esteja fadado não a perder e sim a sobreviver, talvez como todos nós. Nas infinitas possibilidades sendo podado de diversas realidades, talvez ele tenha se encontrado ao conhecer seus comparsas Loki.

Sendo podada em tantas realidades, eu continuo a acreditar. Mais do que nas pequenices e picuinhas, acredito no bem do mundo, pelas pessoas em quem sei que posso confiar.

E aqui meu breve comentário sobre a cerimônia de abertura das Olimpíadas Tokyo 2020, neste 2021. Eu curti, foi muito bonita, na minha opinião. Não consegui ver tudo, mas eu peguei a homenagem aos mortos, a representação da tradição japonesa Obon (festividades para os antepassados). Creio que se fosse um outro país, teria cancelado facilmente o evento, devido à pandemia. Mas esse é um povo perseverante, trabalhador, que respeita as tradições, dá valor aos ancestrais, sabendo que suas vidas não foram em vão pois interferem e se ligam ao futuro. Neste último ano, que foi de tantas mortes, não poderíamos ter tido um país melhor para sediar esses jogos que unem o mundo todo. Achei lindíssima a formação dos drones, formando o símbolo e depois a Terra, iluminando nossos corações junto, seguidos da “Imagine”, de John Lennon. Perfeição.

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Fazendo uma gracinha, essa sim é a timeline sagrada. Quando tudo parece estar em seu lugar. Por vezes temos turbulências, grandes terrores na história; sempre enfrentaremos dificuldades, pois são afinal necessárias aos humanos e sua evolução. Com melhoraríamos, sem o impulso do mal, algo que nos leve a mudar, a ultrapassar? É uma dicotomia inevitável nesta existência.

Nada mais propício também que eu possa comentar sobre isso junto do post sobre a série que traz engendramentos passados e futuros. E quem sabe não seja por isso (como o “mal” e o “bem” estão tão ligados) que seja tão interessante acompanhar Loki (o personagem)? Torcer para que no fundo, no fundo, ele tenha o potencial para mudar. Poder sentir esperanças, apesar de tanta coisa…

Algo que eu destoo dos Millennials é o fato de não substituir filho por pet. Também considero o lado de estabilidade financeira que possibilita isso, e confesso que lá pelos 20 anos eu não queria ter filhos – muita gente já no mundo, que mundo louco, etc. Mas como o nosso olhar pode mudar, não? Eu percebi que dar vida a outro ser humano é também parte desta experiência terrena e o oferecimento de uma oportunidade, para outra alma, para uma nova vida, para o futuro. Quem sabe o quanto podemos melhorar nas próximas gerações, com as vindouras evoluções? Com respeito pelo passado, é claro. Mas se eu posso proporcionar isso, e me oferecer no que puder em prol dessa nova vida, cuidando da melhor forma que posso para que ela possa ser esse futuro brilhante (e não decepcionante e cringe como minha geração?), talvez seja só isso mesmo que eu poderia (querer?) fazer para ter a melhor versão das timelines; para ter uma timeline verdadeiramente sagrada.

Din e o dragão genial

(Wish Dragon / 2021) **

Interessante notar como de uns tempos pra cá surgem essas produções chinesas faladas em inglês, com um suposto público alvo óbvio, embora eu não sei se é filme chinês pra americano ver ou filme americano pra comunidade chinesa gostar.

De qualquer modo, acaba contando com nomes asiáticos atraentes, como o produtor Jackie Chan (que também faz a voz do gênio em mandarim), o sul-coreano John Cho fazendo a voz do dragão Long, Constance Wu na voz da mãe, Natasha Liu Bordizzo que na verdade é australiana e Jimmy Wong na voz do protagonista Din, que esteve também em Mulan e me parece ter um carisma natural, divertido e dá vontade da gente fazer amizade.

(!) lembrando que este blog não acredita em spoilers. Se bem que… talvez você já saiba mesmo o que vai acontecer aqui.

Com parte da produção bancada por Hollywood, a parte técnica não deixa a desejar aos filmes da Disney/Pixar, até porque a Sony mesma já tem certa experiência, se aventurando por outras animações antes.

Mas talvez o grande problema aqui seja exatamente esse, o de beber muito de outras animações anteriores e não conseguir trazer nada assim tão criativo ou original. Eu não sei se existe na realidade uma lenda de gênio dragão, mas continuamente meu cérebro acaba comparando ao Aladdin (1992) **** da Disney, como por exemplo o jeitão desbocado e caricato do gênio, no início temos o protagonista fazendo acrobacias pela cidade, é escolhido por ter um coração bom e puro, é encantado por uma donzela rica, o gênio não tem o poder de fazer ninguém se apaixonar, tem outros caras gananciosos atrás do bule de chá que traz o gênio.

Eu diria que o que rende melhores risadas é quando o gênio vai descobrindo sobre o mundo moderno – mas até isso é meio que uma “correção” de uma crítica que já fizeram ao gênio azul da Disney, que logo na apresentação já brinca com referências atuais da cultura moderna (principalmente norte-americana). Assim, é divertido ele descobrir sobre a água da privada, ou não acreditar que enfrentamos aquele trânsito todos os dias, além da ideia de príncipe que ele tem ser antiquada.

Funciona também alguns dos outros desejos em meio às cenas de ação, os cachorros e a perna comprida, o toque de Midas que vira contra o feiticeiro. Outro ponto positivo foi incluírem a origem do gênio e, na minha opinião, com uma conclusão bem satisfatória.

E o que isso tem a ver com budismo?

Acho que é a minha parte favorita, que o senhor que já foi um rico lorde na vida terrena não só precisa aprender o valor da família e dos amigos, mas conseguir ter esse amor ao próximo maior que si mesmo, a ponto de se sacrificar no lugar do outro, pensar primeiro na outra pessoa, tanto que a divindade lhe concede entrada pelos portões do paraíso com direito a fanfarra; mas como ele realmente aprendeu isso, prefere fazer um acordo, mesmo que isso signifique se prejudicar de certa forma.

Dentro do budismo japonês existem algumas figuras chamadas de bodhisattvas. Dizem que são seres que alcançaram o estado iluminado, como se já tivessem encontrado a salvação e não precisassem mais ter esta vida terrena. Contudo, eles preferem adiar sua ida ao mundo espiritual e ajudar para que mais uma pessoa consiga encontrar também essa “salvação”, libertação.

Esse momento do dragão obviamente me lembrou desse conceito de bodhisattva. E também que já ouvi falar que nós é que pedimos para nascer. Aliás, algo que também me lembra o final do filme “Matrix” (1999) ****, quando Neo já despertou e volta para libertar outros… Será que é verdade? Costumamos falar: “eu não pedi para nascer!” Mas e se tivermos mesmo a chance de nesta existência fazer algo por mais almas? É também por essa linha de pensamento que na escola budista que sigo o foco recai muito sobre as boas ações em prol do próximo, as ações altruístas. Quem sabe não seja assim mesmo e estejamos por aqui para isso?

Pompoko: a grande batalha dos guaxinins

(Heisei tanuki gassen ponpoko / 1994) **

Quando a Netflix teve que dispor das animações da Disney e incluiu em seu catálogo vários títulos dos estúdios Ghibli (pra mim, pelo menos, funcionou muito nesse sentido, compensou demais!), eu achei uma ótima ideia e uma grande oportunidade para ver mesmo aqueles que eu nunca tinha tido chance ou sequer ouvido falar.

Pra mim, Isao Takahata sempre foi o carinha dos filmes mais tristes e sérios, os mais marcantes foram “O conto da princesa Kaguya” (2013)*** e “Túmulo dos vagalumes” (1988)*** – devastador. E eis que este me aparece como uma grande comédia, apesar da moral explícita de preservação do meio ambiente. Aliás, creio que essa questão ambiental e de respeito à natureza seja a verve inerente do próprio “estúdio”, que sempre vai ter algo disso nas histórias e animações Ghibli.

Apesar de conseguir dar umas risadas aqui e ali, no entanto, me fica a impressão de que é um filme repleto da cultura japonesa e que um ocidental talvez não sinta tanta graça em ver. A animação foi até o candidato sugerido pelo Japão para o Oscar (na época, melhor filme estrangeiro, não havia ainda a categoria de animação).

Historinha: gosto dessa ideia geral, dos guaxinins quererem lutar pelas terras onde moram, que os humanos estão tomando para construir cidades.

(!) lembrando que este blog não acredita em spoilers. Mesmo sabendo do que vai acontecer na narrativa, talvez você tenha reações inesperadas…

Visualmente, é divertido desenharem os tanukis como são mais aos nossos olhos da vida real, em segredo cada um com uma personalidade bem definida e cartunísticos, até chegar por vezes ao ponto de traços tão simples e molóides dependendo do estado deles. E é bem divertido, depois que somos apresentados ao poder de metamorfose deles, ganharem a dinâmica aos nossos olhos de irem se transformando. Aliado a esse treinamento para dominarem a técnica de metamorfose, há o fato de quererem pregar peças nos humanos nessa “guerra” e para mim, essas foram as melhores partes. São diversas travessuras assombrando os humanos.

Sempre tem alguns pontos em comédia que eu não consigo acompanhar, e só digo que aqui o lado devasso não me causou tanto riso, incluindo toda a extensão dos seus sacos (testículos, literalmente!). Mas achei fofo mostrarem o início de um casal, ri quando não queriam matar todos os humanos, porque senão ficariam sem fast food. Só fico imaginando que as reuniões de criação devem ser muito loucas, ainda mais com uma das sequências mais notáveis, a da “parada” de seres sobrenaturais – a legenda traduziu alguns como goblins, mas tem de tudo ali: representações de fantasmas e divindades, figuras alegóricas, do folclore japonês, fantásticas, monstros lendários do imaginário das crianças no Japão… e quem for fã de Ghibli ainda pode pegar umas referências a outros filmes aparecendo por ali.

Porém, apesar da boa premissa, ficou um pouco arrastado e com partes desnecessárias. Talvez porque eles tenham sido muito diretos na mensagem que queriam passar, fica me parecendo que poderiam ter tido menos arcos e seria tão eficaz quanto, e eu particularmente prefiro quando uma obra deixa mais sugestões e as reflexões para o público do que um recado quebrando a quarta parede no final. Mas que a gente fica tristezinho vendo os tanukis roubando lixo, fica, e talvez seja mesmo esse sentimento que queriam causar…

E o que isso tem a ver com budismo?

Pois muito bem… vou apontar aqui seguindo pelo mais fácil, assim como fizeram no filme, um visual de referência direta. Em determinado momento, comentam como os homens são pequenos, que eles vão acabar percebendo isso ao se depararem com as metamorfoses sobrenaturais. E aparece bem explicitamente um Buda inclinado, com alguns assistentes, observando tudo.

Em outro momento do filme, um dos anciãos de longe junta alguns guaxinins que não conseguem se transformar e passam apenas a rezar, e claramente fazem uma oração que é famosa no Japão, de uma das escolas budistas mais populares, rezando para o Buda Amitaba (Amida Nyorai) – que inclusive também dá as caras na parada das criaturas fantásticas.

A tal parada praticamente acaba quando um dos velhinhos acaba morrendo, e vemos um Buda e seus assistentes levando sua alma.

Junto com essas e outras aparições – acredito que tenha mais, só não estou recordando agora – poderíamos pensar que os criadores são budistas, não? Mas no filme também temos representações xintoístas e eu diria que é uma mistura mesmo de várias crenças que existem para o povo japonês. O próprio fato das raposas e dos guaxinins se transformarem faz parte dessas crenças. Embora o budismo seja muito difundido no Japão, há várias ramificações, escolas e ordens diferentes. Inclusive, integram elementos do xintoísmo e outros da tradição japonesa.

Acho que uma reflexão que fica pelo lado budista é exatamente essa da lei da natureza, que tudo se transforma, e podemos passar por guerras, nos separar de entes queridos, termos que enfrentar a morte, e não adianta acreditar que só rezar vai adiantar. A prece envolve essa consciência e precisa vir acompanhada de ações e esforços.

Alexandre e o dia terrível, horrível, espantoso e horroroso

(Alexander and the terrible, horrible, no good, very bad day/ 2014)**

(!) Este blog não acredita em spoilers. Mesmo que você saiba tudo o que pode acontecer, ainda há possibilidades de risos aqui e ali.

Historinha: um menino deseja que seus familiares tenham um dia ruim no seu aniversário.

Como um bom filme dos estúdios do Mickey, para a família toda assistir, a produção e a parte técnica não tem muitas falhas e os acontecimentos que devem ser cômicos são bem previsíveis, com aquela moralzinha no final pra tocar nosso coração. A escolha de elenco foi boa e a dinâmica da família funciona; gostei que o menino faz um personagem que adora a Austrália e ele é mesmo de lá, e é engraçado como a Jennifer Garner parece ter realmente abraçado a maternidade e estar curtindo – por isso escolher esses papeis de mamãe? Pela Disney também ela fez uma mãe em “A estranha vida de Timothy Green” (2012) e um exemplo mais recente é o “Dia do sim” (2021) pela Netflix.

Não sei exatamente o que alteraram do livro em que foi baseado (escrito em 1972!), mas as coisas azaradas que acontecem com a família nem são tão ruins assim, eu acho, tipo o bebê com tinta verde (se bem que nem seria correto fazer um bebê sofrer muito, né!). Existem sim alguns furos, por que a mãe simplesmente não pega um táxi ou uber? Algumas situações previsíveis, o roteiro avisou pelo menos duas vezes que a menina que se apresentaria como Peter Pan não deveria beber tanto xarope. Mas mesmo sabendo que o rapaz ia falhar no teste de direção, a gente não sabia que ia dar tão ruim. Aliás, a gente sabe que apesar dos percalços tudo vai ficar bem no final, inclusive o emprego em games do pai interpretado pelo Steve Carell (sempre bem, claro).

O que mais apreciei no desenho de produção foi a festa com o tema australiano, realmente seria uma festa muito “da hora” me colocando no lugar do garoto. E quando menciono sem problemas de produção isso inclui até a canção “You can fly” da animação “As aventuras de Peter Pan” (1953) do próprio estúdio, que aliás, eu não sabia, nem na Broadway foi usada.

E do filme como um todo a parte que toca o coração não se saiu mal não, é legal ver o pai “extravasar” e o menino incentivá-lo apesar de achar que esse dia está amaldiçoado, perceber que com o apoio das pessoas que amamos, nós podemos superar.

E o que isso tem a ver com budismo?

Este filme traz um tema com que todos podem se identificar, o de viver um dia que parece muito ruim, de “azar”. Às vezes a gente se apega tanto a alguma coisa específica – e nesse dia apresentado a nós, todos os personagens pareciam ter que viver momentos importantíssimos para suas vidas, cada qual em seu momento. Porém, talvez não dependa do destino – sorte ou azar – e sim da nossa própria referência. As coisas ao redor não vão mudar porque a gente acha que tem, mas nós podemos mudar, e nós podemos mudar a forma como olhamos para ela. No final do dia, essa família ficou muito mais unida através dos percalços e alguns conseguiram perceber aqui ou ali algo maior (não vou contar o bebê, que aliás também é um acerto de casting, uma graça, e eram gêmeas na realidade!).

Da ordem budista que sigo, existe um ensinamento do mestre fundador que diz que não existe dia bom ou ruim se nós conseguirmos perceber a compaixão dos budas. Talvez um dia que aparentemente seja ruim, possa ser considerado bom em outros sentidos.

Ok, então vamos falar de Nomadland

Pois é, o Oscar passou e eu acabei não dedicando um post bonitinho para cada filme indicado a melhor filme do ano, mas vamos falar um pouquinho pelo menos do vencedor, vai.

Primeiramente, aviso que tenho uma estima a mais, por motivos bem pessoais, pelos road movies, ainda mais projetos como este, que compartilha experiências de pessoas reais e advoga um estilo mais livre de viver. Sim, eu vi “Na natureza selvagem” (Into the wild/2007)***, “Livre” (Wild / 2014)***, e tenho simpatia por certas quebras de padrões sociais. Houve tempos na minha vida em que eu gostaria de ter virado nômade, viajando pelo mundo afora, morando num trailer (na verdade, ainda considero essa aposentadoria, depois que minha filha se formar, quem sabe?)

Além disso, a diretora Chloé Zhao, tem a minha idade, é a primeira asiática e uma das poucas mulheres na história a levar um Oscar nessa categoria. Os pouquíssimos leitores deste blog já devem ter adivinhado que eu fiquei me imaginando lá, com um projeto bem meu, talvez lírico, com certeza incluindo cenas da natureza, como seria eu levar um Oscar, mesmo nesta altura da vida, hein? (e asiática, e mulher)

Puxa! Mas vamos lá.

Historinha: uma mulher abraça a vida nômade nos EUA.

O que mais gosto no roteiro, além da trajetória da personagem principal, que vai de uma mulher que perde certas condições materiais e enfrenta cada dia e trabalho por vez, muda, se liberta, é a inclusão dos relatos dos nômades na vida real. E a direção também trabalha muito bem assim, incorporando esses elementos numa montagem que combina bem os diferentes momentos e imagens para construir um pensamento e sensações de modo fluido.

Acho o máximo quando ela enfrenta o parente dizendo que é absurdo esse sistema em que passamos a vida inteira pra pagar por um imóvel que nem temos condições de ter – digo isso por experiência própria, de pais cujo sonho sempre foi ter casa própria e nunca conseguiram, e são um retrato de muitos brasileiros, creio eu.

Alguns estão nessa vida devido a crises econômicas, mas o relato que mais me marcou foi o da senhora que diz que já viveu tudo o que precisava e presenciou momentos únicos, belos e extraordinários. Me identifico, às vezes eu penso que não preciso viver mais nada. E como iríamos preferir morrer?

Na conclusão de sua trajetória compreendemos bem que, apesar de ter convites para habitar um local fixo, nossa protagonista prefira seguir esse outro caminho. Após visitar a casa de uma vida passada, numa cidade fantasma que existiu somente em prol de uma indústria, Fern claramente não pertence mais àquilo, existe todo um horizonte maior para o qual ela está livre para encarar.

Aliás, Frances McDormand também levou seu prêmio por melhor atriz, e não é que esteja mal, pelo contrário, me pareceu que é um papel tão natural a ela, que nem deu trabalho. As outras atuações nem sei bem o que é considerado ator, visto que a maioria está ali como si mesmo.

Outra curiosidade foi me surpreender em saber do trabalho na Amazon, que a Frances realmente se passou por uma das trabalhadoras lá. Até indaguei por que o filme não foi lançado pelo Amazon Prime, hehe.

E o que isso tem a ver com o budismo?

Como em todas as boas obras, sempre existe alguns vários pontos que eu poderia relacionar ao budismo, mas acabo focando em um ou outro.

Não sei exatamente por quê, mas desde bem jovem eu associava o budismo ao desapego, principalmente material. Que, é claro, precisamos de um mínimo para viver bem, mas não demais, que o lado material não é o mais importante. Talvez isso se deva ao conceito budista de impermanência, de que tudo muda, constantemente.

Calma, não vou defender que todos deveriam se tornar nômades e desapegar de vez dessa vida padrão consumista (casa dos sonhos, carro do ano, roupas e itens que nem vamos usar…). Simplesmente, o que me parece ser mais presente aqui é a questão do livre arbítrio. No budismo não falamos em castigo, punição. Sim, existe um tal de carma, mas não é algo que lhe prenda a ponto de saber como o mundo foi criado e qual sua única missão na Terra. Todos nós temos escolhas e somos livres para seguir por um caminho ou por outro.

Talvez o que devamos nos perguntar é como podemos seguir nesta estrada de vida aprendendo a apreciar cada dia, porque nada é “para sempre” nesta terra. Quando você estiver próximo da morte, ao final de sua trajetória por aqui, quais escolhas terão feito sentido? O que realmente vai ficar, vai ter importado?

Raya e o último dragão

(Raya and the last dragon / 2021) ***

Historinha: uma princesa precisa reunir as partes de uma pedra mágica para restabelecer um mundo harmonioso trazendo de volta entes queridos, com a ajuda da amiga draga (dragoa?)

(!) Este blog não acredita em spoilers! Uma coisa é saber o que vai acontecer com esse roteiro clichê, outra é mesmo assim se surpreender, se pegar emocionado, além de deslumbrado com o visual.

É, depois de um tempo vendo filmes, nós nos acostumamos a certos tipos de roteiro, né, e já sabia que a menina ia ser traída naquele momento, e até que ao final teríamos dragões… entre outros furos de roteiro, tudo bem, porque é uma aventura tão honesta e envolvente que a gente se deixa levar.

Gostei desse desenho de produção, com os diferentes conceitos para cada área como um video-game de diferentes fases, mas aproveitando o tema – como o fato dos druuns não sobreviverem à água, então os locais são adaptados a isso e a inspiração no sudeste asiático; o tatu-bola “tuk tuk” como meio de locomoção (e eu ri mesmo ao ver como ele tinha crescido!) ficou ótimo. As luzes e tonalidades são bem distintas e encanta os efeitos dos dragões pisando no céu.

Eles conseguiram seus próprios pinguins de Madagascar nas figuras da bebê e dos macaquinhos, e a aparência de dragão casou muito bem com a que deu sua voz original (Akwafina). Dos diferentes personagens, me comove o grandalhão que foi o último a sobrar de toda a sua tribo (pensem só!). Apesar de baterem repetidamente na tecla de saber confiar, não é que realmente me peguei desprevenida em lágrimas ao final? O final pode ser um feliz tradicional, mas é aquele conforto Disney de afago no coração.

E o que isso tem a ver com budismo?

Não sei se vocês sabem, mas dentro da história do Buda, existem vários momentos que seriam como lendas, envoltos por certos elementos mágicos e incluindo alguma metáfora nisso. Um desses momentos é o próprio nascimento do Buda neste mundo, dizem que o Rei Dragão fez chover água doce e quente dos céus, além de outros fenômenos que marcam esse acontecimento.

E não é que um dos dragões irmãos da Sisu tem o poder de trazer chuva? Aliás, no seu design creio que aquele topete seja inspirado na flor de lótus fechada (uma flor símbolo do budismo) – ou será que foi viagem minha?

Fato é que dentro do budismo uma das grandes celebrações do ano é o nascimento, que lembramos no início de Abril – e vejam só, bem nessa época, para os cristãos, celebra-se a Páscoa, que também traz a ideia de renascimento, não? Acho muito interessante essas “coincidências”.

No filme, essa aventura toda é para renascer, de certa forma, para um mundo com mais união apesar das diferenças, mais amor e harmonia.

Para a ordem budista que sigo também, o tempo do nascimento do Buda é para nós nos inspirarmos, pensarmos em como podemos nos desapegar de algo (que pode sim ser nosso orgulho próprio ou até alguma descrença) e “renascer” espiritualmente…

93rd Academy Awards

(Este post foi atualizado após a festa do Oscar 2021, deste domingão 25 de abril. Os vencedores e alguns comentários estão na cor azul)

Afinal, como é que ficou a minha lista, hein? Este ano, pela primeira vez pretendo acompanhar além do twitter uma live pelo YouTube, vamos ver como vai ser isso – com alguns anos de atraso, como contei um pouquinho neste post, finalmente descobri que gosto de pegar um dia da semana para ver alguns vídeos nessa plataforma; principalmente com a gravidez e a maternidade (e mais tempo em casa) comecei a usar para procurar informações e nem sempre a gente está disposto (após um dia exaustivo com um baby, por exemplo…) a ler algo, ou apenas estamos fazendo alguma outra coisa enquanto ouvimos (o que aliás me faz pensar no papel da TV que foi substituída pelas atarefadas domésticas nesse sentido?).

Bem, desculpem as eternas divagações à parte. Apenas relembrando: sublinhados são os meus votos, dados por um motivo ou por outro (por exemplo, figurino e maquiagem são pelo melhor filme, nem tanto pelo melhor trabalho da lista). NÃO são as apostas de quem vai ganhar… nem sempre minha opinião combina com a dos votantes reais ;) Bom Oscar para todos, daqui a pouquinho.

Melhor documentário de curta-metragem

Collete(considerei como possível ganhador, tratando da guerra, drama sentimental, disponível no YouTube)

A concerto is a conversation

“Do not split”

“Hunger ward”

“Uma canção para Natasha”

Melhor documentário

(deve levar “Professor Polvo”)

Colective

“Crip camp”

“The mole agent”

Professor Polvo”

“Time”

Melhor curta-metragem em live action

Feeling through

“The letter room'”

“The present”

Dois estranhos(já imaginava, fácil de encontrar e tema relevante nesse ano cujo caso de George Floyd foi bem importante, como a própria Regina King comentou na abertura)

“White Eye”

Melhor filme internacional

(deve levar “Druk”)

Druk – Mais uma rodada” (Dinamarca)

“Shaonian de ni” (Hong Kong)

“Colective” (Romênia)

“O homem que vendeu sua pele” (Tunísia)

Quo vadis, Aida?” (Bósnia e Herzegovina)

Melhor curta de animação

“Burrow”

“Genius Loci”

If anything happens I love you

“Opera”

“Yes people”

Melhor animação

(não tem pra mais ninguém, será “Soul”)

“Dois irmãos: Uma jornada fantástica”

“A caminho da lua”

“Shaun, o Carneiro: O Filme – A fazenda contra-ataca”

Soul

“Wolfwalkers”

Melhor roteiro original

“Judas e o Messias negro”

“Minari”

Bela vingança

“O som do silêncio”

“Os 7 de Chicago”

Melhor roteiro adaptado

“Borat: fita de cinema seguinte”

Meu pai

“Nomadland”

“Uma noite em Miami”

“O tigre branco”

Melhor design de produção

(creio que leve “Mank”)

“Meu pai”

“A voz suprema do blues”

Mank

“Relatos do mundo”

Tenet

Melhor figurino

“Emma”

A voz suprema do blues

“Mank”

“Mulan”

“Pinóquio”

Maquiagem e cabelo

“Emma”

“Era uma vez um sonho”

A voz suprema do blues

“Mank”

“Pinóquio”

Melhor fotografia

“Judas e o messias negro”

Mank

“Relatos do mundo”

Nomadland

“Os 7 de Chicago”

Melhor som

“Greyhound: Na mira do inimigo”

“Mank”

“Relatos do mundo”

“Soul”

O som do silêncio

Canção original

Fight for you” – “Judas e o messias negro”

“Hear my voice” – “Os 7 de Chicago”

Husa’vik” – “Festival Eurovision da Canção: A saga de Sigrit e Lars”

“Io sì” – “Rosa e Momo”

“Speak now” – “Uma noite em Miami”

Melhor trilha sonora

“Destacamento blood”

“Mank”

“Minari”

“Relatos do mundo”

Soul

Melhor edição

(pode levar “O som do silêncio”)

Meu pai

“Nomadland”

“Bela vingança”

O som do silêncio

“Os 7 de Chicago”

Efeitos visuais

(deve levar “Tenet”)

Amor e Monstros

“O céu da meia-noite”

“Mulan”

“O grande Ivan”

Tenet

Melhor atriz coadjuvante

Maria Bakalova – “Borat: fita de cinema seguinte”

Glenn Close – “Era uma vez um sonho”

Olivia Colman – “Meu pai”

Amanda Seyfried – “Mank”

Yuh-Jung Youn – “Minari”

Melhor ator coadjuvante

Sacha Baron Cohen – “Os 7 de Chicago”

Daniel Kaluuya – “Judas e o messias negro”

Leslie Odom Jr. – “Uma noite em Miami”

Paul Raci – “O som do silêncio”

Lakeith Stanfield – “Judas e o messias negro”

Melhor atriz

(deve levar a Viola)

Viola Davis – “A voz suprema do blues”

Andra Day – “Estados Unidos Vs Billie Holiday”

Vanessa Kirby – “Pieces of a woman”

Frances McDormand – “Nomadland”

Carey Mulligan – “Bela vingança”

Melhor ator

(devem dar o prêmio póstumo)

Riz Ahmed – “O som do silêncio”

Chadwick Boseman – “A voz suprema do blues”

Anthony Hopkins – “Meu pai”

Gary Oldman – “Mank”

Steve Yeun – “Minari”

Melhor direção

Thomas Vinterberg – “Druk – Mais uma rodada”

David Fincher – “Mank”

Lee Isaac Chung – “Minari”

Chloé Zhao – “Nomadland”

Emerald Fennell – “Bela vingança”

Melhor filme

(se “Minari” ou “O som do silêncio” correrem por fora e ganharem, não vou ficar triste não)

8 – “Meu pai”

7 – “Nomadland

6 – “Minari”

5 – “O som do silêncio”

4 – “Judas e o messias negro”

3 – “Mank”

2 – “Bela vingança”

1 – “Os 7 de Chicago”

Xenti, se eu tivesse participado de bolão este ano, eu acho que teria ganhado, hein? Porque eu teria errado só 3 (Fotografia, Melhor canção e Melhor atriz) nas apostas. Realmente credito isso a ter visto muito mais coisa este ano do que praticamente todos os outros anos.

Mas e a festa em sim, hein? O que vocês acharam das ambições do Soderbergh, que queria dar uma cara mais de filme e deixou o povo dar os discursos à vontade, sem serem cortados? (Comentaristas da TNT tavam até dizendo que isso foi culpa do DJ, haha coitado, eu só dei risada!) Pra mim, quando começou, eu fiquei até animadinha sabe? Vendo a Regina King desfilando com desenvoltura e os “créditos” na tela… mas daí, bem, acho que tentaram usar a luz e caprichar na fotografia, só que não empolgou tanto não. Até a “montagem” querendo surpreender ali no final – quase todo mundo já sabia quem ganharia direção e filme, as surpresas poderiam (e foram!) ser nessas categorias de atores, então tentaram fazer essa inversão pro clímax. Pra mim, não funcionou, né gente. O maior prêmio é o de filme e pronto.

Até que não ficou tão ruim o pessoal nos outros países, nem sabia daquele negócio que o Bryan Cranston apresentou, queria ter visto todas as apresentações de melhor canção no pré-show (ei, TNT, dá um jeito aí no futuro, mostraram só alguns trechinhos), adorei o vestido cisne negro da Laura Dern quase imitando Bjork, honestamente acho que se colocaram o povo em mesinhas deveria ter comes e bebes imitando o Globo de Ouro, pra mim Daniel Kaluya tava meio chapado (incluindo o meme instantâneo da reação da mãe), nem achei ruim Thomas Vinterberg homenagear a filha emocionado, tô ficando velha e quase não consegui acompanhar os nomes no In Memorian, uma graça a vovozinha de Minari corrigindo Brad Pitt, e a Frances Mcdormand uivando?, e é a primeira diretora asiática a ganhar Oscar, e o Anthony Hopkins certo de que não ganharia, por isso não estava lá, mas fez questão de lembrar com respeito o eterno Pantera Negra? – mas não teve jeito não. O Oscar 2021 será lembrado como aquele da rebolada da Glenn Close ao som de “Da butt” (ou será o pior final de Oscar de todos os tempos?)

P.S. não deu muito certo eu ver a live não… não consigo prestar atenção aos dois, ao mesmo tempo! Tá de bom tamanho ver alguns tuítes nos intervalos, prefiro ver o que falam os apresentadores e os discursos, sou velha assim. Mâs! Eu vi uma live pós-Oscar no canal do Super Oito (Otavio Ugá), junto do PH Santos e Daleno que até que gostei viu, dava até pra ganhar desconto no Mac n’cheese da Sadia – o meu favorito é o de bacon.

Oscar 2021: meus votos e comentários – parte 3

Por último, nesta série de posts sobre o Oscar 2021, meus votos (sublinhados) para as categorias mais “fáceis”, para a grande maioria, de identificar e votar (creio eu).

Melhor atriz coadjuvante

Maria Bakalova – “Borat: fita de cinema seguinte” = que mulher loka, gente. Imagina? Ter que fazer outras pessoas acreditarem nessa personagem como se fosse alguém real, tem algumas cenas que ultrapassam o mau gosto, mas e aquela entrevista com Giuliani? Xenti.

Glenn Close – “Era uma vez um sonho” = ah, como eu queria que ela ganhasse um desses prêmios… mas, poxa, por este filme aqui acho que não vai rolar não, hein. Sim, está muito bem como a vovó que cita “O exterminador do futuro 2” (1991)*** para endireitar o neto, mas… só ganha se formos considerar o conjunto da obra.

Olivia Colman – “Meu pai” = interpretação digníssima, como tenho visto ser usual para esta artista. Pensem em como ela passa com tudo de si a dor de ser preterida por uma irmã que nem está mais lá, sendo que podemos imaginar todos os esforços e sacrifícios para cuidar do pai… Porém, como ela já ganhou recentemente, acho que o Oscar não vai para suas mãos este ano.

Amanda Seyfried – “Mank” = ah, é uma graça de atriz, aqui representando com charme a jovem que busca sucesso e ao mesmo tempo tem sensibilidade para servir de ombro amigo a Mank, mas… Oscar acho que não, né.

Yuh-Jung Youn – “Minari” = sim, outra vovó! Mas esta aqui um pouco mais interessante, traz um certo alívio cômico para o drama da família até que ela também tem tribulação a carregar. Cativa o netinho que inicialmente não a reconhece como uma avó de verdade, é quem planta “minari” e com limitação, ainda quer fugir após causar um grande estrago. Lagrimazinhas que roubaram a cena e valem meu voto.

Melhor ator coadjuvante

Sacha Baron Cohen – “Os 7 de Chicago” = correto, talvez impressione mais porque está fugindo um pouco do personagem cômico que o grande público se acostumou a ver.

Daniel Kaluuya – “Judas e o messias negro” = muito contundente, convence como um líder forte e seguro, apesar da “timidez” no lado pessoal. O maior favorito nesta categoria (e a gente já não sabia que ele era bom desde “Corra” (2017)***?)

Leslie Odom Jr. – “Uma noite em Miami” = eu particularmente achei um trabalho excepcional. Principalmente pelo fato de ele também cantar muito bem, além de servir de forte contraponto enfrentando Malcolm X!

Paul Raci – “O som do silêncio” = talvez a performance mais “branda” de todas aqui, ou eu diria mais delicada. Nem por isso menos difícil. E ele incorpora a linguagem dos sinais, e aquela cena em que ele sabe que vai magoar o rapaz, mas precisa negar ajuda por seus próprios princípios?

Lakeith Stanfield – “Judas e o messias negro” = fiquei na dúvida se ele não deveria estar concorrendo a melhor ator principal? Um bom trabalho, incorporando o cara que não se pode deixar pegar, que parece concordar com o partido, mas também precisa se esquivar por outro lado. Pra mim, conseguiu deixar em seu semblante o medo estampado, bem como é mostrado na entrevista com a pessoa real, aliás.

Melhor atriz

Viola Davis – “A voz suprema do blues” = ah, Viola também já tem uma estatueta em sua casa, né. Não tô muito a fim de dar este pra ela não, embora entenda que é bem possível que ganhe. Transfigurada em uma personagem de presença forte, com agressividade verbal e no olhar marcantes, está bem sim, não estou dizendo que não está.

Andra Day – “Estados Unidos vs Billie Holiday” = a novinha, com muito mais créditos musicais, que tirou a sorte grande em poder interpretar este papel. Sim, caiu como uma luva.

Vanessa Kirby – “Pieces of a woman” = a primeira meia hora deste filme é só o parto (que pela sinopse, a gente já sabe que dá errado), daí é que aparecem os créditos. Mas só quem é mãe e já passou por isso vai entender tão bem toda aquela situação – e outras que poucos filmes mostram de pós-parto, como o leite vazando ou ter que usar “fralda” por uma menstruação muito forte ou incontinência urinária; pensa então em como lidar com a dor e rever a parteira de frente num tribunal. Nem precisava do restante, pra mim ela mereceria um prêmio só pela primeira meia hora.

Frances McDormand – “Nomadland” = ah, garota! Outro dia vi uma headline comentando que ela poderia ganhar um Oscar pelo mínimo de trabalho que já teve como atriz. Eu dei risada, porque Frances parece ter muito dessa personagem ela mesma, alguém de alma livre, meio desacreditada em relação aos moldes da sociedade, independente, forte e que encararia dificuldades com braveza, se viraria muito bem. Ao natural, com rugas à mostra e cabelos desgrenhados (eu me identifico!), nem precisou ser “enfeiada”, como o Oscar costuma admirar e agraciar suas atrizes. Engraçado como até alguns dos nômades acreditaram que ela era um deles, nem sabiam ou imaginaram que era uma atriz de Hollywood.

Carey Mulligan – “Bela vingança” = nem sempre precisamos de um estardalhaço de atuação, e com modos mais contidos ela consegue sim personificar muito bem o sentimento dessa personagem que ficou meio perdida na vida após uma tragédia e simplesmente não consegue deixar de lado a morte da amiga. Essa sensação da perda é algo com quem muitos podem se identificar, bem como a vontade que nos dá às vezes por mais justiça, e não é à toa que torcemos por ela, mesmo que use de alguns meios que não concordemos muito.

Melhor ator

Riz Ahmed – “O som do silêncio” = muitíssimo bem o primeiro candidato muçulmano a melhor ator na história dos Oscares. Compreendemos como deve ser desesperador para um músico, ainda mais baterista, perder a audição e passar pela raiva, pela indisposição a ficar naquela comunidade, pela aceitação e procurar mudar, apesar de querer, como qualquer humano faria, uma “cura”. E aí, então, enfrentar ainda a sensação de não pertencer até poder ter paz. Nunca, em toda a projeção, esses sentimentos parecem falsos.

Chadwick Boseman – “A voz suprema do blues” = provavelmente vão dar o prêmio póstumo para ele, e tudo bem, ele fez um bom trabalho sim, nesse personagem meio revoltado com suas dores de vida e na luta eloquente – sabemos do sofrimento ainda criança e como sua destreza de jovem músico representa força pare ele “superar” os brancos. O que me irrita um pouco é essas versões filmadas do teatro, que parecem servir apenas para exibir os talentos dos atores – talvez seja exagero meu, mas sinto isso aqui assim como foi com “Um limite entre nós” (Fences/ 2016)*. 

Anthony Hopkins – “Meu pai” = avassalador, sabe quando alguém transcende? É quase inacreditável que um profissional com seus 80 e poucos anos consiga ter um desempenho assim. E nem precisava mais trabalhar, tendo no currículo trabalhos marcantes, mas se entrega de corpo e alma, nunca tem um trejeito ou fala inútil, nunca duvidamos do que aquele homem está vivendo, seja pelo olhar ou postura física, sentimos com ele a confusão que o projeto todo propõe. Sim, valeu a pena o diretor fazer uma versão em inglês especificamente para trabalhar com este ator. E se Oscar fosse justo, sem dúvidas este prêmio seria dele.

Gary Oldman – “Mank” = será que as pessoas vão se lembrar desse personagem como um bêbado que vomitou num jantar pomposo na mansão de um bam-bam-bam de Hollywood da época? Este ator já demonstrou seu talento por diversos personagens, e está bem na pele desse roteirista que relembra bastidores enquanto escreve sua maior obra, mas não me fez torcer por ele em nenhum momento.

Steve Yeun – “Minari” = só por ser o primeiro asiático indicado nesta categoria, esta indicação tá valendo. É um bom trabalho, interpretando esse pai que representa tantos imigrantes e lutas pessoais. Na luta por uma vida melhor, não é fácil ter até a pessoa mais próxima parecer não te apoiar, tentar fazer o certo, ceder, mas querer vencer, celebrando nem que seja pequeníssimas conquistas, errar. E até mesmo desconfiar, ou estranhar um novo amigo meio doido. 

Melhor direção

O que vejo em direção é sempre como tudo foi orquestrado pelo maestro, que faz uso dos recursos narrativos disponíveis desta forma de arte para contar sua história, passar sua mensagem, impactar ou emocionar, ou fazer refletir, o espectador.

Thomas Vinterberg – “Druk – Mais uma rodada” = lances trêmulos e imagens por vezes borradas ou com alguma alteração para estados alterados; close para enfatizar aquela primeira taça irrecusável, e o clima do drink também irrecusável que já sabíamos estar passando do limite, barco de morte iminente, sobriedade com a esposa.

David Fincher – “Mank” = pra mim, a que empolga menos, me chega como uma direção fria e calculada, embora ele deva ter um carinho especial, a ponto de creditar somente o pai no roteiro. Se fosse pra fazer jus ao “Cidadão Kane” (1941)***, acho que poderia ter trabalhado melhor, quem sabe até incluindo as inovações técnicas que o filme homenageado trouxe?

Lee Isaac Chung – “Minari” = sabe quando a gente diz que este é o filme singelo, que meio que acalenta um pouco o coração? Os planos da fazenda e da natureza, a sensação de isolamento já quando chegamos com a família naquele ex-trailer velho no meio do nada, a ênfase no cansaço e os respiros em meio às adversidades; a dinâmica dos atores que realmente vemos como se fosse uma família real – e não idealizada, o que nem poderia ser, já que o intuito é exatamente sentirmos os sofrimentos e falhas de qualquer sonho (americano ou não) – isso tudo faz parte da direção. 

Chloé Zhao – “Nomadland” = eu quero dar meu voto para uma mulher, prontofalei. Mistura atores com pessoas reais de forma natural, e sem medo de filmar o que é necessário, de às vezes nos deixar no silêncio, de não apelar pra sentimentalismo (mesmo assim nos emocionando, sem evitar a família) nem exposição gratuita. É a favoritassa e deve levar a estatueta mais cobiçada desta temporada de prêmios do cinema.

Emerald Fennell – “Bela vingança” = sim, ela consegue colocar os atores no lugar em que gostaria e pairar com sua atriz principal para nós mesmos contemplarmos uma possível esperança de um amor, uma relação “normal”, mas acho que a sequência da despedida de solteiro, algemas, se solta, as ações e as consequências – isso é o que vai ficar na memória.

Melhor filme

Bem, eu já vim comentando até aqui conforme passamos pelas diversas categorias, e acho que não tenho muito a acrescentar, se pensarmos na combinação de todos esses elementos de destaque. Claro que a escolha é sempre muito particular a mim, considerando meu próprio histórico, vivências, interesses… mas talvez também seja assim para os membros da Academia? Cada um deve ter algum critério para ter mais ou menos consideração por uma ou outra obra. Aqui, fazemos a votação como eles lá fazem, a melhor nota do filme que mais gostei decrescendo para o que menos gostei da lista. E como de costume, vamos torcer para que não haja um “empate técnico” que faça algum mediano levar o prêmio…

8 – “Meu pai” = preciso comentar aqui que eu não esperava que esse filme me arrebataria como fez!

7 – “Nomadland”= só pelo tema, eu sabia que ia gostar de conhecer esse tipo de vida e que também me daria vontade de jogar tudo pro alto e ir contra o “sistema”.

6 – “Minari” = tá vendo? Não é só você que tem uma família disfuncional, e não é só com sua família que acontecem tragédias.

5 – “O som do silêncio” = o árduo processo de se refazer a si mesmo.

4 – “Judas e o messias negro” = um trabalho exímio para termos vontade de justiça e pra lembrarmos de nunca desistirmos da luta, porque desistir sim poderia ser vergonhoso.

3 – “Mank” = não é que eu mesmo me surpreendi com esta escolha? No final das contas eu bem tenho afeição com os bastidores do cinema, sim, de qualquer época. Mais afeição até do que o gostinho de uma vingança feminina.

2 – “Bela vingança” = pra ser honesta, não esperava a indicação a melhor filme (só para atriz, roteiro e direção). Vale por expressar um grito das mulheres, mas não chega a ser um dos grandes a ser lembrado na história do cinema.

1 – “Os 7 de Chicago” = interessante, bons personagens por bons atores, diálogos espertos, mas me perde naquele final honroso e glorioso e… provavelmente eu vou esquecer dele em alguns anos.